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A Quaresma é um tempo litúrgico de quarenta dias que prepara o coração da Igreja para a celebração da Páscoa, o centro da fé cristã. Não se trata apenas de um período no calendário liturgico, mas de um caminho espiritual no qual cada fiel é convidado a voltar ao essencial: Deus, sua Palavra e o amor ao próximo.
Assim como Jesus passou quarenta dias no deserto em oração e jejum (Mt 4,1-11), a Igreja caminha simbolicamente com Ele, aprendendo a escutar, a confiar e a vencer aquilo que nos afasta da vida plena em Deus.
Lembra-te de que és pó e ao pó voltarás
A Quarta-Feira de Cinzas abre o tempo da Quaresma, é um momento de chamado pessoal e comunitário à conversão, à escuta e ao reencontro com Deus.
Ao recebermos as cinzas sobre a cabeça, a Igreja nos dirige palavras simples e profundas: “Convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15) ou “Lembra-te de que és pó e ao pó voltarás” (Gn 3,19). Ambas nos colocam diante da verdade da nossa condição humana: somos frágeis, dependentes da graça e chamados a viver para aquilo que é eterno.
O sinal das cinzas
As cinzas, obtidas dos ramos abençoados no Domingo de Ramos do ano anterior, nos recordam que a glória humana é passageira. Aquilo que foi sinal de triunfo se transforma em pó, ensinando-nos que somente Deus permanece.
Na Sagrada Escritura, as cinzas são sinal de penitência e súplica: “Cubro-me de saco e cinza” (Jó 42,6). No entanto, a Igreja não nos impõe as cinzas para nos entristecer, mas para nos libertar da ilusão da autossuficiência e nos devolver à verdade do amor misericordioso do Pai.
Ser marcado com as cinzas é ser marcado com esperança, quem reconhece sua fragilidade se abre à ação da graça.
Por que “quarenta dias”?
O número quarenta, na Sagrada Escritura, está ligado a tempos de prova, preparação e renovação:
- Quarenta dias e noites do dilúvio (Gn 7,12), que deram início a uma nova aliança.
- Quarenta anos do povo de Israel no deserto (Ex 16), aprendendo a depender de Deus.
- Quarenta dias de Jesus no deserto (Mt 4,1-11), antes de iniciar sua vida pública.
A Quaresma, portanto, é um tempo de travessia. Saímos do que somos para nos tornarmos, pela graça, aquilo que Deus sonha para nós.
Um tempo de conversão e esperança
A palavra “conversão” não significa apenas mudar ações e comportamentos externos, mas mudar o coração. É permitir que Deus seja novamente o centro da vida, das escolhas e dos relacionamentos.
A Igreja nos ensina que a Quaresma é um tempo privilegiado para essa renovação interior, por meio da escuta mais atenta da Palavra de Deus e da participação mais consciente na vida sacramental.
Não é um tempo de tristeza, mas de plena esperança: quem se deixa transformar por Deus caminha em direção à alegria da Ressurreição.
Um tempo para todos
A Quaresma fala ao coração de cada pessoa, em qualquer fase da vida. Para quem traz a sabedoria dos anos, é um tempo de confiar ainda mais na misericórdia de Deus. Para os jovens, é uma oportunidade de aprender a escolher com o coração livre. Para os ministros ordenados e consagrados, é um convite a testemunhar, antes de ensinar.
A Igreja inteira caminha unida: cada passo pessoal se soma ao passo comunitário, formando um povo que se coloca novamente a caminho com Cristo.
Da cruz à vida nova
A Quaresma nos conduz ao mistério da Cruz, não como sinal de derrota, mas como expressão suprema do amor. Em Jesus, a entrega se transforma em vida, e a morte dá lugar à Ressurreição.
Por isso, todo esforço quaresmal tem um horizonte pascal: a alegria de saber que Deus faz novas todas as coisas e que nenhuma fragilidade é maior do que a sua graça.
Um convite pessoal
A cada Quaresma, Deus nos dirige uma pergunta simples e profunda: o que precisa ser transformado em mim para que eu viva mais plenamente como filho e filha de Deus?
Que este tempo seja, para cada um de nós, um verdadeiro recomeço. Um passo a mais na fé, um gesto a mais de amor e um coração cada vez mais aberto à luz da Ressurreição.
Texto: Vitor da Cruz Azevedo, setor de conteúdo do Departamento Regional de Comunicação.
Foto: Adobe Stock.