Falar de São João Batista Scalabrini é falar de uma santidade que peregrinava pelas ruas de Piacenza, atravessava estações de trem e se deixava tocar pelas dores humanas. Em um período profundamente marcado pelas transformações sociais e econômicas da Europa do século XIX, milhões de italianos deixaram sua terra natal em busca de sobrevivência e dignidade.

A recente unificação da Itália, concluída em 1871, não trouxe estabilidade imediata para grande parte da população. Pelo contrário: o desemprego, a pobreza no campo, as crises agrícolas e a concentração de riquezas levaram inúmeras famílias a abandonar suas casas rumo às Américas e a outros destinos. Entre 1876 e 1915, estima-se que mais de 14 milhões de italianos emigraram, tornando esse um dos maiores movimentos migratórios da história moderna. Foi nesse cenário que Dom Scalabrini não enxergou multidões anônimas, mas homens, mulheres e crianças carregando consigo o peso da saudade, da fome, do medo e da esperança.

Por isso, compreender Scalabrini apenas como fundador da Congregação dos Missionários de São Carlos, Bispo de Piacenza ou organizador de obras pastorais seria insuficiente. Sua história revela algo mais profundo. São João Batista Scalabrini era um pastor que soube transformar proximidade em missão e amizade em expressão concreta do Evangelho.

Um pastor com cheiro de ovelhas

A própria Sagrada Escritura ilumina esse caminho. No Evangelho de São João, Cristo se apresenta como o Bom Pastor que conhece suas ovelhas e dá a vida por elas (Jo 10,11). Não se trata de uma liderança distante ou burocrática, mas de uma relação marcada pela presença, pelo cuidado e pela entrega. O pastor verdadeiro conhece os rostos, escuta as dores e permanece junto do povo. Foi exatamente essa lógica evangélica que moldou o coração de Bispo.

A famosa cena da estação de Milão tornou-se símbolo dessa espiritualidade. Ao observar milhares de italianos deixando sua terra rumo às Américas, ele percebeu não apenas um fenômeno social, mas um drama humano e espiritual. Ali estavam famílias inteiras atravessando fronteiras em busca de sobrevivência, frequentemente abandonadas à própria sorte, vulneráveis à exploração, à perda da fé e ao desenraizamento cultural.

“Eram migrantes. Pertenciam às várias províncias da Alta Itália e esperavam, com ansiedade que o trem os levasse às margens do Mediterrâneo e de lá para as longínquas Américas, onde esperavam encontrar a fortuna, menos desfavorável, e a terra menos ingrata aos seus suores.” (A migração italiana na América, Piacenza, 1887, pp.3-6).

Enquanto muitos enxergavam apenas um problema migratório, Scalabrini viu Cristo presente na figura do migrante.

Essa percepção encontra eco no Evangelho de São Mateus, quando Jesus afirma: “Eu era estrangeiro e me acolhestes” (Mt 25,35). A acolhida ao migrante deixa, então, de ser apenas uma ação humanitária e se torna encontro com o próprio Senhor. É dessa compreensão profundamente cristológica que nasce o carisma scalabriniano: servir as pessoas em mobilidade humana reconhecendo nelas a dignidade de filhos de Deus.

O Papa Bento XV sintetizou essa dimensão ao afirmar que para Scalabrini “uma diocese não bastava ao seu coração”. De fato, o pastoreio de São João Batista Scalabrini ultrapassou os limites territoriais e institucionais. Seu olhar alcançava os portos, os navios, as estradas e todos os lugares onde a vida humana estava ameaçada pela indiferença.

A experiência vivida por São João Batista Scalabrini continua dialogando diretamente com os desafios contemporâneos. O Papa Francisco recorda, na Encíclica Fratelli Tutti, que os migrantes são um dom e um convite à construção da fraternidade universal. A mobilidade humana não pode ser analisada apenas sob perspectivas econômicas ou políticas; ela exige também uma resposta ética, espiritual e profundamente humana. Nesse sentido, a missão do Pai dos Migrantes revela uma Igreja capaz de reconhecer rostos antes de números.

A Exortação Apostólica Evangelii Gaudium também reforça essa perspectiva ao convocar a Igreja a ser “em saída”, próxima dos desafios humanos e existenciais, capaz de tocar “a carne sofredora de Cristo” nos que sofrem. E talvez seja justamente aqui que emerge uma das dimensões mais belas da espiritualidade scalabriniana: a amizade.

Um amigo que caminha conosco

No Evangelho de São João, Jesus afirma aos discípulos: “Já não vos chamo servos… eu vos chamo amigos” (Jo 15,15). A amizade, no horizonte cristão, não é mero sentimento afetivo ou relação superficial. Trata-se de uma experiência de comunhão, presença e partilha da vida.

Sua santidade não se expressava apenas nas grandes decisões pastorais ou na fundação de congregações religiosas, mas na capacidade de aproximar-se das pessoas, escutá-las e caminhar com elas. Ele compreendia que evangelizar significava também criar vínculos, oferecer presença e devolver dignidade aos que haviam sido esquecidos. Talvez por isso sua figura e seu carisma, continue despertando tanta identificação ainda hoje.

“Nem todos os Santos fizeram ações extraordinárias, não foram portentos de obras e de eloquência, nem foram admirados pelo prodígio do saber. Muitíssimos, ignorados pelo mundo, nunca saíram de um estado obscuro e sempre tiveram vida comum. (…) Não são os milagres, os dons extraordinários, que fazem os Santos, e os maiores Santos, mas a virtude. (…) Muitos Santos que hoje veneramos, nunca saíram do círculo da vida doméstica, mas tudo faziam continuamente para cumprir os deveres, atentos em nobilitar suas ocupações ordinárias, mediante a reta intenção, agindo sempre com fins sobrenaturais.” (Homilia de Todos os Santos, 1883).

Em uma sociedade marcada pela velocidade, pela solidão e pelas relações frágeis (quase líquidas), a imagem de um pastor próximo e amigo resgata uma dimensão essencial do cristianismo: Deus se faz presença concreta na história humana. A santidade deixa, então, de parecer distante ou inalcançável. Ela ganha rosto, voz, escuta e humanidade. Recordar que os Santos são humanos não significa reduzir sua grandeza, mas reconhecer que sua fidelidade ao Evangelho foi construída no cotidiano, nas escolhas concretas e na capacidade de amar.

São João Batista Scalabrini permanece como testemunho vivo de que a Igreja só é verdadeiramente fiel a Cristo quando sabe caminhar junto das pessoas, especialmente das mais vulneráveis. Seu legado continua recordando ao mundo que nenhuma fronteira pode ser maior que a dignidade humana e que todo migrante carrega consigo não apenas uma história, mas a própria presença de Deus.

Mais do que um homem a frente de seu tempo, São João Batista Scalabrini tornou-se sinal permanente de uma Igreja que acolhe, protege, promove e integra os migrantes, refugiados e marítimos. Um pastor que fez da amizade um caminho de santidade.


Texto: Vitor da Cruz Azevedo, setor de conteúdo do Departamento Regional de Comunicação.

Foto: Arquivo Regional.

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