
Período da manhã abordou identidade e desafios da Congregação; turno tarde destacou comunicação, narrativas e proteção institucional
A 12ª Assembleia Regional da Região Nossa Senhora Mãe dos Migrantes (RNSMM) iniciou suas sessões de trabalho nesta terça-feira, 14 de abril, no Recanto São Carlos, em Guaporé, Rio Grande do Sul, Brasil, reunindo mais de 100 participantes entre Missionários, Religiosos e Leigos da Congregação dos Missionários de São Carlos – Scalabrinianos.
O encontro tem por objetivo avaliar a execução do Projeto Regional 2025–2030, em continuidade às diretrizes do 16º Capítulo Geral, realizado em outubro de 2024.
1ª sessão
A abertura dos trabalhos foi marcada por duas sessões complementares, com intervenções do Superior Geral da Congregação dos Missionários de São Carlos – Scalabrinianos, Pe. Leonir Mário Chiarello, CS e do Superior Regional da Região Nossa Senhora Mãe dos Migrantes (RNSMM), Pe. Alexandre De Nardi Biolchi, CS que articularam uma leitura entre o cenário global das migrações e os desafios da Região.
Ao iniciar sua reflexão, o Superior Geral situou a Assembleia Regional como um momento de comunhão para a Congregação. “É sempre um tempo de graça, um kairós, no qual Deus quer nos indicar o caminho”, afirmou.
Na análise do contexto atual, Pe. Leonir apontou três dinâmicas que atravessam o fenômeno migratório: indiferença, impotência e incerteza. Retomando o magistério do Papa Francisco, observou que houve um crescimento na consciência da Igreja sobre a realidade migratória, mas advertiu que isso não basta. “Não é suficiente ter maior consciência. É necessário ter clareza daquilo que queremos fazer”, disse.
Ao abordar os limites enfrentados na missão, sintetizou o sentimento de muitos agentes pastorais: “Parece que tudo o que fazemos ainda é pouco. As leis são mais restritivas, os recursos diminuem e os migrantes são mais perseguidos”. Essa percepção, segundo ele, expressa a chamada “globalização da impotência”.

Já a incerteza foi descrita como experiência concreta dos migrantes e dos Missionários Scalabrinianos. “O migrante não tem certeza se conseguirá chegar ou permanecer. E nós somos chamados a viver essa incerteza com eles”, afirmou. Diante desse cenário, reforçou o núcleo do carisma scalabriniano: “Somos peregrinos com eles, mas peregrinos de esperança”. E lançou a provocação que atravessa a Assembleia Regional: como gerar esperança em meio a esse contexto global?
A reflexão do Superior Geral avançou para os desafios internos da vida religiosa. Sem perder o tom pastoral, Pe. Leonir Chiarello apontou sinais de fragilidade que exigem atenção, como a vivência parcial da vocação. Em suas palavras, há casos de “fidelidade ocasional” e “obediência seletiva”, que enfraquecem a identidade consagrada.
Ao tratar das causas, Pe. Leonir declarou: “A maior causa do abandono é o enfraquecimento da vida espiritual”. Esse processo, explicou, pode levar a um “vazio existencial” que compromete até mesmo a experiência de fé. Nesse contexto, reforçou a necessidade de retorno às fontes, especialmente em vista do Ano Vocacional Scalabriniano. A vocação foi apresentada como um dom que precisa ser constantemente cultivado. “O fogo está aceso, mas às vezes coberto de cinzas. É preciso deixar que o Espírito Santo sopre e reacenda esse fogo”, afirmou, utilizando uma imagem cultural da regional do sul do país para expressar o dinamismo da vida vocacional.
2ª Sessão
Na segunda sessão, o Superior Regional, Pe. Alexandre De Nardi Biolchi, CS conduziu uma leitura da realidade da Região Nossa Senhora Mãe dos Migrantes, iniciando com uma acolhida aos participantes e situando o espírito da Assembleia. “Queremos viver estes dias como jornadas de diálogo, escuta, partilha e discernimento fraterno”, afirmou.
Ao retomar o percurso, destacou a elaboração do Projeto Regional e a atualização do Diretório Regional como marcos importantes. Esses instrumentos, segundo ele, ajudam a consolidar a identidade comum, embora o processo ainda esteja em construção. “É preciso passar da unificação para a comunhão. É um caminho lento, mas necessário”, explicou.
Esse horizonte fundamenta o tema da assembleia, que propõe avaliar os passos já dados e discernir os próximos. “Somos chamados a confrontar a realidade com aquilo que planejamos e definir os encaminhamentos necessários”, sintetizou Pe. Alexandre.

Ao abordar a identidade da Congregação, o Superior Regional enfatizou que a vida religiosa não pode ser reduzida à ação pastoral. “Nosso ser religioso está sempre em primeiro lugar, mas colocado a serviço da missão”, afirmou, destacando que toda ação nasce da consagração. Essa compreensão, segundo Pe. Alexandre, é fundamental para garantir a credibilidade da missão junto aos migrantes, refugiados e marítimos. Em um contexto em que a pastoral migratória tende, por vezes, a ser reduzida ao assistencial, alertou para a necessidade de manter sua dimensão evangelizadora.
No campo dos âmbitos pastorais, Pe. Alexandre Biolchi reconheceu o esforço realizado pela RNSMM na reorganização das presenças missionárias. “Está sendo feito um enorme trabalho para reposicionar e fortalecer nossa missão”, disse. Ao mesmo tempo, destacou os desafios financeiros e estruturais, especialmente diante da redução de recursos. “Estamos enfrentando dificuldades para manter algumas atividades, sobretudo nos centros de acolhida”, afirmou, observando que, em diversos contextos, a presença scalabriniana permanece como única resposta institucional aos migrantes.
Ao tratar da animação vocacional, o Superior Regional, Pe. Alexandre De Nardi Biolchi, reforçou que essa missão não pode ser delegada apenas a alguns setores. “A preocupação com as vocações deve ser de todos nós”, afirmou. Apesar de sinais positivos no ingresso de novos jovens em 2026, destacou a necessidade de fortalecer uma cultura vocacional. “O Ano Vocacional foi apresentado como oportunidade para esse processo, retomando o convite a ‘reavivar o dom de Deus que está em nós’”, reforçou.
Encerrando a sessão, Pe. Alexandre reforçou o chamado à unidade. “A Região somos todos nós. Mesmo quando há divergências, precisamos permanecer unidos naquilo que nos identifica”, afirmou. Inspirado nos princípios da Papa Francisco (acolher, promover, proteger e integrar), recordou a importância de privilegiar processos, promover a unidade, partir da realidade concreta e manter uma visão de conjunto.
Momento da tarde aprofunda debate sobre proteção institucional com foco na comunicação em tempos de crise
No período da tarde, a 12ª Assembleia Regional voltou-se integralmente ao tema do cuidado e da proteção institucional, sob a condução da especialista em comunicação corporativa, Dra. Rosângela Florczak de Oliveira. Em uma abordagem marcada por forte interação com os participantes, a conferencista privilegiou a escuta, a provocação e, sobretudo, a leitura crítica dos sinais do tempo.
Ao introduzir o eixo central, “Cuidado e Proteção Institucional”, Dra. Rosângela destacou que o desafio não está no conceito em si, mas na sua atualização: “Nós vamos falar de cuidado e proteção para uma instituição que existe para isso. Mas aqui tem uma palavra-chave: institucional. É isso que muda tudo”.

Comunicação, crise e o novo ambiente midiático
Um dos pontos mais fortes da exposição foi a análise do contexto atual, profundamente marcado pela dinâmica das redes sociais e pela velocidade da informação. A palestrante chamou atenção para o impacto desse ambiente na missão da Igreja.
“Hoje, interpretar a realidade acontece muito mais no ambiente midiático do que no ambiente presencial”, explicou. E alertou: “Aquilo que antes se resolvia dentro da comunidade, hoje ganha repercussão social imediata. É um rastilho de pólvora”.
Ao exemplificar, trouxe casos recentes amplamente divulgados na mídia, destacando que o problema não é a ocorrência dos fatos, mas sua amplificação. “Isso sempre aconteceu. A novidade é a repercussão. É a velocidade com que uma narrativa se constrói”. Nesse sentido, reforçou que a comunicação deixou de ser apenas transmissão de conteúdo. “Comunicar não é levar uma informação. É provocar uma interpretação. E a interpretação sempre é do outro”.

Um tempo de incerteza e disputa de narrativas
Dra. Rosângela também refletiu sobre o cenário social mais amplo, marcado por polarizações, fake news e fragilidade nas relações de confiança. “Nós estamos vivendo um tempo bastante desafiador. Um tempo em que esse tema do cuidado e proteção ganha outro sentido. Quando a gente vê, a verdade já está construída. A viralização já aconteceu”.
Além disso, chamou atenção para a existência de estruturas organizadas por trás de muitas crises digitais. “Não é espontâneo. Existe intencionalidade. Existe quem compra, quem vende e quem distribui essas narrativas”.
Participação ativa e leitura da realidade
Ao longo da tarde, os participantes foram convidados a trabalhar em grupos, identificando desafios concretos de suas realidades missionárias. A proposta, segundo a palestrante, era sair da abstração. Após as partilhas, ela sintetizou. “As situações evidenciadas são, aparentemente, pequenas, mas com grande potencial de impacto. E é sobre isso que estamos falando: proteger a missão para que o acessório não nos desvie do essencial”.
Cuidado como dimensão intrínseca da missão
Um dos eixos mais enfatizados foi a compreensão do cuidado não como algo externo, mas constitutivo da própria identidade missionária: “O cuidado não é um acréscimo à missão. Ele é parte intrínseca dela”. E completou “Trata-se de responder a este tempo, interpretar o contemporâneo e permanecer fiel à missão”.

Prevenção, organização e resposta
Ao abordar caminhos concretos, Dra. Rosângela Florczak destacou a importância da prevenção e da estrutura institucional. “Não há muitas novidades. O que há é a necessidade de sistematizar aquilo que vocês já fazem. Organizar processos, estruturar documentos e apoiar vocês no dia a dia, para que saibam como agir diante desses cenários”.
Encerrando o bloco, a palestrante deixou um convite à lucidez e ao compromisso. “Nós precisamos reconhecer o mundo em que estamos vivendo. Não para ter medo, mas para saber como agir”. E concluiu com uma síntese que orientou toda a reflexão da tarde. “O desafio não é evitar os problemas. É saber como nos organizamos para enfrentá-los, proteger a missão e fortalecer aquilo que nos foi confiado”.
Texto: Vitor da Cruz Azevedo, setor de conteúdo do Departamento Regional de Comunicação.
Fotos: Arquivo Regional.



