Sobre ti, permanecerá a minha Igreja: Um ano do pontificado de Leão XIV
Em seu primeiro ano como sucessor de Pedro, Papa Leão XIV consolidou a mobilidade humana como um tema central de seu pontificado

No dia 08 de maio de 2025, a fumaça branca voltou a erguer-se sobre o céu de Roma. Enquanto os sinos da Basílica de São Pedro rompiam o silêncio da tarde e milhares de fiéis dirigiam seus olhos para a sacada central do Vaticano, o Cardeal Protodiácono, Dominique Mamberti, pronunciava ao mundo as palavras que atravessam séculos de história: "Habemus Papam".

Mas, para além do anúncio solene de um novo Pontífice, havia algo mais profundo acontecendo naquele instante. Entre aplausos, lágrimas, orações e expectativa, a Igreja novamente contemplava o mistério da Sucessão Apostólica. E enquanto o mundo ouvia o nome de Leão XIV ecoar pela Praça São Pedro, os ouvidos da fé pareciam escutar outra voz, antiga, e ao mesmo tempo eterna, pronunciada pelo próprio Cristo: “Tu és Pedro”.

Há um ano, o então Cardeal Robert Francis Prevost iniciava oficialmente seu ministério petrino. A Barca de Pedro, há um ano, recebia um novo timoneiro para atravessar as águas agitadas de um tempo marcado por guerras, crises humanitárias, polarizações e deslocamentos que ferem milhões de vidas em todo o mundo.

Desde os primeiros meses de seu pontificado, porém, tornou-se evidente que uma das prioridades pastorais de Sumo Pontífice seria justamente olhar para aqueles que vivem entre fronteiras, travessias e despedidas. Em suas homilias, mensagens e discursos, a questão da mobilidade humana deixou de aparecer apenas como tema diplomático ou social para assumir um lugar profundamente espiritual e eclesial. Para o Pontífice, migrantes e refugiados não são apenas destinatários da solidariedade cristã, mas sinais vivos da esperança de Deus em meio às feridas do mundo contemporâneo.

Em uma das declarações mais emblemáticas desse início de pontificado, Papa Leão XIV afirmou que “Muitos migrantes, refugiados e deslocados são testemunhas privilegiadas da esperança vivida no quotidiano, através da sua confiança em Deus e da sua capacidade de suportar as adversidades, em vista de um futuro em que vislumbram a aproximação da felicidade e do desenvolvimento humano integral”. A frase, presente em sua mensagem para o 111º Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, revela muito mais do que uma preocupação humanitária. Ela manifesta uma visão profundamente evangélica, capaz de reconhecer no estrangeiro o próprio rosto de Cristo peregrino.

A escolha do tema Migrantes, missionários de esperança” acabou se tornando uma espécie de síntese deste primeiro ano de pontificado. No documento, o Papa recorda que milhões de homens e mulheres carregam consigo o “testemunho heroico de uma fé que vê além do que os nossos olhos podem ver”, mesmo diante da pobreza, das guerras, da perseguição religiosa, da fome e das rupturas familiares.

Mais do que denunciar injustiças, o Santo Padre procura recolocar a migração dentro da própria história da salvação. Afinal, a experiência bíblica é marcada pela peregrinação. Abraão deixou sua terra em direção ao desconhecido. Israel atravessou o deserto em busca da Terra Prometida. A Sagrada Família conheceu o exílio no Egito. Os discípulos partiram pelas estradas do mundo anunciando o Evangelho. A própria Igreja nasceu peregrina.

Nesse horizonte, a mobilidade humana deixa de ser apenas uma questão geopolítica para tornar-se também um “sinal dos tempos”, expressão tantas vezes utilizada pelo Magistério da Igreja para indicar realidades que desafiam a consciência cristã e exigem discernimento pastoral.

Ao abordar os dramas migratórios no Mediterrâneo, Leão XIV utilizou uma das imagens mais fortes de seu pontificado até aqui: “Aqueles barcos que esperam avistar um porto seguro não podem e não devem encontrar a frieza da indiferença ou o estigma da discriminação”. A frase carrega uma densidade simbólica difícil de ignorar. Os barcos que cruzam mares em busca de sobrevivência tornam-se espelho de uma humanidade à deriva, frequentemente recebida não com compaixão, mas com medo, fechamento e indiferença. Trata-se de uma denúncia moral contra aquilo que Papa Francisco tantas vezes chamou de “cultura do descarte”.

Existe, evidentemente, uma continuidade entre os dois pontificados. O Papa Leão XIV herda de seu antecessor uma Igreja em saída, missionária e sensível às necessidades humanas. O atual Pontífice mantém vivo ao tema migratório uma linguagem marcada pela espiritualidade da esperança e pela dimensão missionária dos povos em deslocamento.  Em diversas ocasiões, o Papa insistiu que os migrantes não devem ser vistos apenas sob a ótica da vulnerabilidade, mas também como protagonistas da evangelização e da renovação das comunidades cristãs.

No dia 26 de junho de 2025, ao encontrar-se com Bispos e Sacerdotes das Congregações dos Missionários de São Carlos – Scalabrinianos e dos Redentoristas, o Santo Padre ressaltou o valor da missão eclesial junto aos migrantes e refugiados. Durante a audiência, recordou a figura de São João Batista Scalabrini, definindo-o como “um pastor que compreendeu os sofrimentos e as esperanças dos migrantes” e que, ainda no século XIX, antecipou muitos dos desafios enfrentados hoje por aqueles que deixam sua terra em busca de dignidade e paz. “O serviço aos migrantes é um testemunho concreto da caridade cristã e uma resposta evangélica aos sinais dos tempos”, afirmou o Pontífice.

O magistério de Leão XIV parece reencontrar essa mesma intuição profética. Ao falar sobre as pessoas em mobilidade, o Papa evita reduzi-los a estatísticas, crises diplomáticas ou debates ideológicos. Antes de qualquer definição, eles são pessoas: rostos, histórias, famílias, sonhos e feridas, realidade já intuída por Scalabrini ainda no século XIX.

Ao mesmo tempo, o Pontífice também evita simplificações. Sua defesa da dignidade humana aparece acompanhada da necessidade de responsabilidade internacional, cooperação entre nações e promoção de políticas migratórias verdadeiramente humanas. Tal abordagem preserva um princípio central da Doutrina Social da Igreja: “a inalienável dignidade da pessoa humana”.

Talvez uma das maiores contribuições deste primeiro ano de pontificado esteja justamente na recuperação de uma consciência espiritual da mobilidade humana. Em uma época que ergue muros, o Papa Leão XIV recorda ao mundo que o cristianismo nasceu nas estradas, com barcos e travessias. A fé cristã nunca foi estática, ela caminha. O migrante, nesse sentido, torna-se também um exemplo da própria condição humana. Todos peregrinam. Todos atravessam desertos. Todos carregam ausências, esperanças e buscas. Todos procuram, de algum modo, uma pátria definitiva. Por isso, ao olhar para os migrantes e refugiados, a Igreja não contempla apenas uma questão social contemporânea. Contempla a si mesma.

Ao completar seu primeiro ano de pontificado, Papa Leão XIV oferece ao mundo uma lembrança essencial: nenhuma fronteira pode ser maior do que a dignidade humana, e nenhuma sociedade pode permanecer verdadeiramente cristã quando se acostuma à indiferença diante do sofrimento do outro.


Texto: Vitor da Cruz Azevedo, setor de conteúdo do Departamento Regional de Comunicação.

Foto: Stefano Costantino/SOPA Images via Reuters Connect.

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