
“Haverá coisa mais deplorável que um cristão que não se preocupa com os outros? Seria tão contraditório dizer que um cristão não pode ser útil ao seu próximo como negar ao sol a possibilidade de iluminar e aquecer.”
Belas e severas palavras com as quais São João Crisóstomo advertia seus fiéis. E encontramos luz e calor também na afirmação de Jesus ao sintetizar sua missão: “Vim trazer fogo à terra!” (Lc 12,49). Não é diferente com a frase de São Paulo tomada como lema do Ano Vocacional Scalabriniano: “Reaviva o dom de Deus que está em ti” (2Tm 1,6). O verbo aqui utilizado (reavivar) indica propriamente “reacender” uma chama.
É nesta perspectiva que queremos refletir sobre a vocação missionária. Antes de tudo, convém deixar de lado a ideia de que a missão seja uma atividade excepcional, um empenho exclusivo de poucos cristãos. Longe disso, a vocação missionária compromete cada batizado, pois consiste no dom da própria fé: “A missão renova a Igreja, revigora a sua fé e identidade, dá-lhe novo entusiasmo e novas motivações. É dando a fé que ela se fortalece!” (São João Paulo II).
Pensemos na celebração do Batismo: recebemos uma vela como símbolo da luz de Cristo, com a tarefa de irradiá-la, de comunicar aos outros a beleza e a fecundidade da fé. Afinal, como a amizade com Jesus Cristo transforma a minha relação com as outras pessoas?
Para cada estado de vida (laical, religioso, sacerdotal) existem diversas maneiras de ser missionário, mas elas sempre existem! Esquivar-se dessa responsabilidade é colocar a chama recebida debaixo de uma vasilha (Mt 5,15). Mesmo as atitudes mais singelas podem aquecer uma casa e iluminar um caminho. Lembremos que nosso “currículo missionário” não depende das muitas “milhas” percorridas, porque a frieza e a escuridão existem também em nossas casas, e não apenas em outros continentes.
Como não poderia deixar de ser, o fundamento de nossa missão é Jesus Cristo: Ele se encarnou como enviado do Pai ao mundo para proclamar e realizar o Reino de Deus. Durante o seu ministério, escolheu doze homens e os associou à sua tarefa: os discípulos tornaram-se apóstolos (enviados). Grande foi o desafio de dar continuidade à pregação e à obra do Senhor; por isso, lhes foi prometido auxílio: “Descerá sobre vós o Espírito Santo e vos dará força; e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria e até os confins do mundo” (At 1,8).
No livro dos Atos dos Apóstolos, vemos como estes testemunharam que, na pessoa de Jesus de Nazaré, cumpriram-se de maneira extraordinária as promessas feitas ao povo de Israel, numa intervenção única de Deus na história. O Evangelho foi conduzindo homens e mulheres de todas as épocas e de incontáveis rincões a caminharem guiados pela certeza e animados pela esperança de uma mensagem que chegou até cada um de nós.
E a missão da Igreja recebeu um sopro do Espírito por meio da vida e do legado de São João Batista Scalabrini. Seu carisma conduz-nos a escutar a voz de Cristo que ressoa naqueles que, inseguros em sua própria pátria, a deixam... às vezes forçadamente e até sem rumo definido. Essa ruptura pode desestabilizar os vínculos afetivos, ameaçar a integridade, colocar em crise a identidade e os valores. A essas pessoas somos chamados a servir como Scalabrinianos.
Então, nossa destinação missionária torna-se o caminho a ser percorrido junto aos migrantes; o projeto missionário renova-se com os “sinais dos tempos” das migrações; e os destinatários da missão acabam tornando-se companheiros de jornada.
Nem mesmo para Scalabrini foi fácil compreender como viver a vocação missionária. Recém-ordenado sacerdote, desejava anunciar o Evangelho no Oriente, mas não lhe foi permitido deixar a diocese. Tanto que, alguns anos mais tarde, confessará aos seus missionários: “Apertando ao peito a cruz de ouro do Bispo, docemente quase me queixo com Jesus, que me tenha negado um dia a cruz de madeira do missionário e não posso deixar de vos expressar, ó jovens Apóstolos de Cristo, a mais alta veneração, de sentir uma santa inveja de vós, que com espírito forte vos consagrastes à santa obra das missões” (10/12/1890).
Nem por isso perdeu seu entusiasmo pela missão, que fermentou de modos variados sua ação pastoral: fundou duas congregações missionárias, visitou diversas dioceses para sensibilizar sobre a causa migratória, atravessou duas vezes o oceano Atlântico para visitar seus missionários e os emigrantes, chegando a preocupar-se com a catequese dos indígenas brasileiros. E animava os missionários que partiam: “Cada expedição de missionários é a repetição, ou melhor, a continuação daquela que o Divino Mestre realizou, quando disse aos Apóstolos: ‘Ide e ensinai a todos os povos’” (9/9/1891).
Digno reconhecimento recebeu do Papa Pio XI ao chamá-lo “Bispo missionário” e do Papa Bento XV ao afirmar que, para o seu coração, uma diocese não era suficiente.
O ardor missionário de São João Batista Scalabrini levou a Igreja a assumir o cuidado dos migrantes e ajudou os cristãos a reavivarem a consciência de serem “estrangeiros e forasteiros” neste mundo (1Pd 2,11).
Que o carisma scalabriniano seja sopro de vida também para a nossa vocação missionária.
Texto: Pe. Eduardo Pizzutti, CS.
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