Vocações específicas a serviço do Reino

“Não há nada mais natural do que o sobrenatural”. Esta era uma expressão de São João Batista Scalabrini que nos ajuda a compreender que o espiritual nos une a todos. Partindo desse pensamento de nosso fundador, relaciono-o ao título desta reflexão: “Vocações específicas a serviço do Reino”.

Comumente, ao falar de vocação, relacionamo-la ou a reduzimos diretamente ao sacerdócio ou à vida religiosa, o que não está totalmente errado. No entanto, a Igreja está repleta de carismas e dons (1Cor 12,7), que nos convidam a aprofundar nossa reflexão e descobrir a beleza das diversas vocações específicas. Por isso, quando falamos de vocação, referimo-nos a todas as formas de vida por meio das quais o ser humano pode optar e desenvolver-se para servir aos outros seguindo Cristo.

Entendendo que a vocação é um dom concedido por Deus, e que nunca será fácil compreendê-la plenamente, somos chamados a acolhê-la como aquilo que ela é: um mistério. A vocação associa-se à ideia de chamado; de fato, ambas podem ser consideradas sinônimas desde sua etimologia. O protagonista principal desse chamado é o próprio Deus, que, cheio de amor, convida livremente suas criaturas a caminhar com Ele em um estado de vida concreto, sem que um seja melhor do que o outro, embora cada um possua exigências e estilos de vida particulares.

Ao apresentar brevemente as vocações específicas, queremos valorizar e compreender que toda vocação tem uma iniciativa divina.

  • Vocação Matrimonial: Antes de tudo, trata-se de um sacramento indissolúvel. Constitui uma escolha de vida na qual cada pessoa descobre no outro o seu complemento, prometendo amor e fidelidade e formando uma nova família. Dentro dessa construção do lar, os esposos procuram viver plenamente a vocação para a qual foram chamados, sendo protagonistas em suas comunidades eclesiais e deixando de ser os “gigantes adormecidos” da Igreja. É oportuna a frase de Scalabrini: “Vocês, leigos, não são uma velhice que declina, mas uma juventude que surge para construir uma sociedade mais justa e solidária”, enfatizando o verdadeiro protagonismo dos leigos na vida eclesial.

  • Vocação Religiosa: É uma representação viva do estilo de vida de Cristo. Por meio da consagração, homens e mulheres vivem seu chamado no apostolado próprio de suas comunidades religiosas. Através do carisma de cada instituto, buscam a santidade, testemunhando e construindo o Reino de Deus com suas vidas e obras. O centro da vida religiosa é o desejo constante de seguir Cristo diariamente, escutando a voz do Bom Pastor. Como afirma o Papa Leão XIV: “É o Pastor que encanta; quem o contempla descobre que a vida é realmente bela quando o segue”. Cultivando, amando e cuidando de seu chamado, os religiosos vivem inseridos nas realidades do mundo, sendo sinal do Reino. A vida consagrada constitui uma denúncia profética diante do mundo consumista e desigual em que vivemos. A vida comunitária torna-se, assim, uma riqueza e um apoio fundamental para aqueles que foram chamados a essa vocação.

  • Vocação Sacerdotal: Nasce da iniciativa de Deus, que chama o homem, e este responde livremente com amor. A vocação sacerdotal implica uma profunda união com Cristo para servir e guiar, como pastor, a comunidade cristã. Essa vocação remete-nos aos primeiros chamados realizados por Jesus aos seus discípulos: cada um foi convocado pessoalmente, aderindo ao projeto de Cristo e sendo posteriormente enviado à missão. Nessa realidade, o homem chamado ao sacerdócio esforça-se para tornar possível o encontro de Deus com o seu povo. O Papa Bento XVI afirmava que os fiéis esperam dos sacerdotes que sejam especialistas em promover o encontro do homem com Deus. Em nosso caso particular, os Sacerdotes Scalabrinianos procuramos favorecer esse encontro promovendo a dignidade humana e tornando-nos companheiros de caminhada dos migrantes. Dessa forma concreta de viver a vocação sacerdotal, os Missionários Scalabrinianos estão presentes em mais de trinta países, vivendo e tornando-se migrantes com os migrantes, ajudando a construir um mundo mais justo e fraterno.

Concluo afirmando que todo batizado deve considerar seriamente e propor-se às vocações específicas aqui mencionadas. Nossas comunidades eclesiais devem ser, antes de tudo, promotoras de uma autêntica cultura vocacional.

Que Deus queira, em sua infinita generosidade, que as iniciativas do Ano Vocacional Scalabriniano nos ajudem a tomar consciência de que Deus continua chamando os nossos jovens e que surja uma resposta generosa à sua iniciativa nas diversas vocações específicas para a construção cotidiana do Reino.

Somente unidos e com um compromisso comunitário poderemos reavivar o dom de Deus presente em cada um de nós.


Texto: Pe. Rosalino Gaona Benitez, CS, Animador Vocacional no Paraguai.

Foto: Arquivo Regional.

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