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Quem abre a Bíblia pela primeira vez pode se deparar com uma verdadeira biblioteca. São livros escritos em épocas diferentes, por autores diferentes, utilizando diversos estilos e tratando de situações históricas muito distintas. Mas, apesar de toda diversidade, existe algo que une a Sagrada Escritura: a Bíblia possui uma única história de salvação, que encontra seu centro em Jesus Cristo.
A Igreja Católica reconhece 73 livros como pertencentes ao cânon da Sagrada Escritura: 46 no Antigo Testamento e 27 no Novo Testamento. Essa lista foi reconhecida e transmitida pela Igreja no interior da Tradição Apostólica. Mais importante do que simplesmente decorar os nomes dos livros, porém, é compreender como eles se relacionam e como, juntos, conduzem à compreensão do plano de Deus para a humanidade.
Uma biblioteca de livros
A palavra “Bíblia” vem do grego biblía, que significa “livros”. Embora falemos dela no singular, a Bíblia é formada por uma coleção de muitos livros, escritos em diferentes momentos da história da salvação. Essa diversidade também explica por que encontramos formas tão diferentes de expressão. Um Salmo deve ser lido como poesia e oração; uma parábola deve ser compreendida como parábola; uma carta apostólica precisa ser considerada dentro da situação de seus destinatários; e um texto profético possui uma linguagem própria.
A Constituição Dogmática Dei Verbum ensina que, para compreender corretamente aquilo que os autores sagrados quiseram comunicar, é necessário considerar os diferentes gêneros literários e as formas de expressão próprias de cada época e cultura. Conhecer a estrutura da Bíblia, portanto, também é aprender a lê-la corretamente.
Antigo e Novo Testamento
A Bíblia está organizada em duas grandes partes: Antigo Testamento, com 46 livros, e Novo Testamento, com 27. A palavra “Testamento” está relacionada à ideia de Aliança. O Antigo Testamento apresenta a história da Aliança de Deus com seu povo e prepara a humanidade para a vinda do Messias; o Novo Testamento anuncia a Nova e Eterna Aliança realizada em Jesus Cristo.
Isso não significa que o Antigo Testamento tenha sido simplesmente substituído ou perdido seu valor. A Igreja reconhece nele uma verdadeira Palavra de Deus. Como ensina a Dei Verbum, “o Novo Testamento está latente no Antigo e o Antigo está patente no Novo”.
Existe, portanto, uma profunda unidade entre os dois. O que começa como promessa no Antigo Testamento encontra sua plenitude em Cristo no Novo.
O Antigo Testamento
O Antigo Testamento apresenta a história do povo de Israel, as alianças estabelecidas por Deus, a Lei, a oração, a sabedoria, a ação dos profetas e a esperança da salvação. Seus livros podem ser compreendidos em grandes grupos.
Os cinco primeiros livros (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio) formam o Pentateuco, palavra que significa “cinco livros”. Na tradição judaica, estão relacionados à Torá, a Lei. Neles encontramos acontecimentos fundamentais da história da salvação, como a criação, a queda, Noé, Abraão, Isaac, Jacó, José, Moisés, o Êxodo, a Aliança e a caminhada do povo pelo deserto.
Depois aparecem os livros históricos, como Josué, Juízes, Rute, Samuel, Reis, Crônicas, Esdras, Neemias, Tobias, Judite, Ester e Macabeus. Eles apresentam diferentes momentos da história de Israel, mas não devem ser entendidos apenas como uma cronologia política. Seu objetivo é mostrar a relação entre Deus e seu povo, apresentando experiências de fidelidade, pecado, infidelidade, arrependimento e conversão.
Encontramos também os livros sapienciais e poéticos, como Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos, Sabedoria e Eclesiástico. Eles refletem sobre questões profundamente humanas: o sofrimento, a justiça, a sabedoria, o amor, a morte, o sentido da existência e a relação com Deus.
Por fim, temos os livros proféticos, que incluem Isaías, Jeremias, Ezequiel, Daniel, os chamados profetas menores e outros escritos proféticos. O profeta é, antes de tudo, alguém chamado por Deus para falar em seu nome, denunciar a infidelidade, chamar o povo à conversão, recordar a Aliança e anunciar a fidelidade divina. Muitos desses textos também alimentam a esperança messiânica e ajudam a preparar a compreensão cristã sobre Jesus.
O Novo Testamento
Se o Antigo Testamento prepara a vinda do Salvador, o Novo Testamento anuncia que a promessa chegou à sua plenitude em Jesus Cristo. Seus 27 livros podem ser organizados em quatro grandes conjuntos: Evangelhos, Atos dos Apóstolos, Cartas e Apocalipse.
Os quatro Evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas e João) anunciam a Boa-Nova de Jesus Cristo. Eles apresentam, cada um a partir de sua perspectiva própria, sua vida, pregação, sinais, Paixão, Morte e Ressurreição. São testemunhos escritos da fé apostólica que conduzem o leitor ao encontro com o mistério de Cristo.
Os Atos dos Apóstolos, tradicionalmente associado a São Lucas, apresenta o desenvolvimento da Igreja depois da Ressurreição e Ascensão de Jesus, mostrando a ação do Espírito Santo e a expansão do Evangelho. Em seguida encontramos as Cartas, dirigidas a comunidades e pessoas concretas para orientar a fé e a vida cristã. Entre elas estão as cartas de São Paulo e as chamadas Cartas Católicas, atribuídas a Tiago, Pedro, João e Judas.
Por último está o Apocalipse, palavra que significa “revelação”. Escrito em uma linguagem rica em símbolos e imagens, o livro anuncia a soberania de Deus, a vitória de Cristo e a esperança da Igreja diante das dificuldades e perseguições. Seu centro está na certeza de que Cristo venceu e conduzirá a história à sua consumação. Por isso, termina com uma oração que continua sendo também a oração da Igreja: “Vem, Senhor Jesus!” (Ap 22,20).
Uma única história, do Gênesis ao Apocalipse
Quando olhamos para os 73 livros da Bíblia, podemos perceber uma grande diversidade. Mas, por trás dessa diversidade, existe uma única história. O Gênesis apresenta a criação e a entrada do pecado na história humana. Deus chama Abraão, estabelece uma Aliança, forma um povo, liberta Israel, entrega sua Lei e envia os profetas. A esperança messiânica cresce ao longo dessa história até chegar à plenitude dos tempos.
Então, o Verbo se faz carne. Jesus Cristo anuncia o Reino, entrega sua vida na Cruz, ressuscita e envia os Apóstolos para anunciar o Evangelho. O Espírito Santo é derramado sobre a Igreja, que continua a missão de Cristo na história e caminha em direção à consumação definitiva de todas as coisas.
Por isso, a Bíblia não deve ser lida como uma coleção de histórias independentes. Do Gênesis ao Apocalipse, existe uma única história da salvação, e seu centro é Jesus Cristo. É Ele quem dá unidade às Escrituras e para Ele que toda a história bíblica aponta.
Como recorda o Papa Bento XVI na Exortação Apostólica Verbum Domini, a unidade de toda a Escritura está fundamentada na unidade da Palavra de Deus, e é a pessoa de Cristo quem dá unidade às Escrituras.
Texto: Vitor da Cruz Azevedo, setor de conteúdo do Departamento Regional de Comunicação.
Foto: AdobeStock.