Nós utilizamos cookies para aprimorar e personalizar a sua experiência em nosso site. Ao continuar navegando, você concorda em contribuir para os dados estatísticos de melhoria.

Quando seguramos uma Bíblia nas mãos, podemos ter a impressão de que ela sempre existiu exatamente daquela maneira: com seus livros organizados, capítulos, versículos e traduções. Mas o caminho percorrido até chegarmos à Bíblia que conhecemos hoje foi longo. A Sagrada Escritura nasceu no interior da história da salvação. Ao longo dos séculos, Deus revelou progressivamente seu desígnio ao seu povo; essa Revelação foi recebida, transmitida, celebrada e, posteriormente, consignada por escrito sob a inspiração do Espírito Santo. Compreender como a Bíblia foi formada, portanto, também significa compreender como Deus conduziu seu povo ao longo da história.
Deus se revela na história
A fé católica não apresenta Deus como alguém distante que simplesmente entregou à humanidade um livro contendo todas as respostas. Deus quis entrar em relação com o ser humano e manifestar progressivamente seu plano de salvação. Como ensina a Dei Verbum, essa Revelação acontece por meio de acontecimentos e palavras intimamente relacionados: Deus age na história e, ao mesmo tempo, revela o significado de suas ações. É assim que encontramos personagens como Abraão, Isaac, Jacó e Moisés; acontecimentos como o Êxodo e a Aliança; os reis, os profetas, o exílio e o retorno do povo. Tudo isso faz parte da história da salvação.
Antes de existir a Bíblia como coleção de livros, já existia a fé do povo de Deus. As gerações transmitiam umas às outras aquilo que Deus havia realizado: suas promessas, a Aliança, os mandamentos e os acontecimentos pelos quais conduzia seu povo. Essa transmissão não era apenas uma lembrança do passado, mas fazia parte da própria vida da comunidade. A Revelação foi recebida e transmitida por um povo, e não como uma experiência religiosa individual.
Essa realidade aparece de maneira ainda mais clara no Novo Testamento. Jesus não deixou aos Apóstolos um livro escrito de próprio punho. Ele os chamou, ensinou, realizou sinais, morreu e ressuscitou e os enviou para anunciar o Evangelho. Depois da Ressurreição e da vinda do Espírito Santo, os Apóstolos passaram a anunciar aquilo que haviam recebido de Cristo. No caso dos Evangelhos, o Catecismo distingue três momentos: a vida e os ensinamentos de Jesus, a transmissão oral realizada pelos Apóstolos e, finalmente, a redação dos Evangelhos pelos autores sagrados.
Da tradição oral aos textos escritos
Com o passar do tempo, parte dessa tradição foi colocada por escrito. Os autores sagrados utilizaram tradições recebidas, testemunhos, memórias e outros materiais disponíveis, sempre sob a ação do Espírito Santo.
Isso não diminui a inspiração divina da Escritura. Pelo contrário, revela como Deus quis agir por meio de verdadeiros autores humanos. Eles utilizaram sua inteligência, liberdade, cultura, linguagem e conhecimentos para escrever aquilo que Deus quis comunicar.
A própria história da Bíblia passa também por diferentes línguas. O hebraico predomina em grande parte do Antigo Testamento; o aramaico aparece em algumas passagens e fazia parte do ambiente linguístico da época de Jesus; e o grego foi a língua utilizada na composição do Novo Testamento. A existência dessas diferentes línguas recorda que a Palavra de Deus entrou verdadeiramente na história humana e foi comunicada por meio de linguagens humanas.
Do Antigo ao Novo Testamento
Outro elemento importante nessa história é a Septuaginta, antiga tradução grega das Escrituras de Israel. Ela teve grande importância entre os judeus de língua grega e entre os primeiros cristãos. Os Apóstolos e as primeiras comunidades cristãs receberam o Antigo Testamento como verdadeira Palavra de Deus e o compreenderam à luz de Cristo. A Igreja, portanto, nunca considerou o Antigo Testamento simplesmente ultrapassado.
Com Jesus Cristo acontece algo decisivo: a Palavra de Deus se fez carne e habitou entre nós (Jo 1,14). Sua vida, sua pregação, sua Paixão, Morte e Ressurreição constituem o centro da fé apostólica. Depois da Ressurreição, os Apóstolos receberam a missão de anunciar o Evangelho a todas as nações (Mt 28,19-20). As cartas apostólicas, os Evangelhos, os Atos dos Apóstolos e os demais escritos do Novo Testamento surgiram nesse contexto de fé e anúncio. Eles não foram produzidos de maneira isolada, mas no interior da comunidade cristã nascente.
Uma história que continua
Quando abrimos uma Bíblia hoje, estamos diante do resultado de uma história que atravessa milênios. Deus se revelou na história; seu povo recebeu e transmitiu essa Revelação; os autores sagrados consignaram parte dela por escrito sob a inspiração do Espírito Santo; e a Igreja, guiada pelo Espírito Santo, reconheceu, conservou e transmitiu os livros sagrados.
Por isso, a Bíblia não é simplesmente uma coleção de textos antigos reunidos ao longo do tempo. Ela é a Palavra de Deus recebida e transmitida pela Igreja. Sua formação está profundamente ligada à história da Revelação e à própria vida do povo de Deus.
E essa história não terminou quando os últimos livros foram escritos. A mesma Palavra continua sendo proclamada na Liturgia, meditada na oração, estudada pelos fiéis e anunciada ao mundo. Quando a Igreja abre a Sagrada Escritura, portanto, não olha apenas para aquilo que Deus realizou no passado. Ela reconhece uma Palavra que continua viva e eficaz, conduzindo cada geração ao encontro com Cristo.
A Bíblia chegou até nós porque Deus falou na história, porque seu povo recebeu e transmitiu essa Palavra e porque a Igreja, assistida pelo Espírito Santo, a conservou e continua a anunciá-la.
Texto: Vitor da Cruz Azevedo, setor de conteúdo do Departamento Regional de Comunicação.
Foto: AdobeStock.