Missionário Scalabriniano, Pe. Antônio Seganfredo, lança livro sobre cidadania e identidade das comunidades cristãs
Publicado pela Editora Recriar, Concidadãos do céu analisa a identidade das primeiras comunidades cristãs e propõe uma reflexão sobre migração, pertencimento e acolhimento

O Missionário Scalabriniano Pe. Antônio César Seganfredo, CS, Doutor em Teologia Bíblica, lançou nesta terça-feira, 20 de outubro, o livro “Concidadãos do céu”, durante evento realizado no auditório do Instituto São Paulo de Estudos Superiores (ITESP), na região do Ipiranga, em São Paulo, Brasil. Publicada pela Editora Recriar, a obra resulta de sua tese de doutorado em Teologia Bíblica e investiga a cidadania como elemento de identidade e pertencimento nas primeiras comunidades cristãs.

A pesquisa tem como eixo Efésios 2,19, passagem que apresenta os cristãos como “concidadãos dos santos e membros da família de Deus”. A partir desse texto, Pe. Seganfredo analisa o contexto social e político do mundo greco-romano e a maneira como a linguagem da cidadania contribui para compreender a formação das comunidades cristãs.

“Quando o autor de Efésios diz que não somos mais estrangeiros, mas concidadãos dos santos, ele utiliza uma categoria política para falar de pessoas que, na sociedade da época, não tinham acesso à cidadania. Eram escravizados, libertos, pessoas pobres e migrantes. Em Cristo, essas barreiras são superadas e surge uma nova identidade para a comunidade”, explicou o Missionário Scalabriniano durante o lançamento.

Cidadania e pertencimento no contexto atual

Responsável pelo prefácio da obra, o Vigário Paroquial da Paróquia Nossa Senhora da Paz, Pe. Alfredo José Gonçalves, CS, destacou a atualidade do tema diante das transformações geopolíticas e dos deslocamentos humanos. Para ele, a cidadania precisa ser discutida para além de uma concepção restrita à nacionalidade, considerando também os direitos humanos e a dignidade de todas as pessoas.

“Hoje, o tema da cidadania é um sinal dos tempos. Milhões de pessoas não têm cidadania, perderam suas raízes e seus horizontes e percorrem o planeta em busca de um solo que possam chamar de pátria”, afirmou.

A reflexão proposta pelo livro, segundo Pe. Alfredo, permite compreender como as comunidades cristãs podem oferecer referências e vínculos a pessoas que vivem longe de seu país de origem e enfrentam situações de isolamento e insegurança. “A comunidade é a pátria dos que não têm pátria. É a casa dos que se sentem fora de casa”.

A comunidade cristã como espaço de acolhimento

Ao relacionar a Carta aos Efésios à realidade contemporânea, Pe. Alfredo destacou o papel da comunidade cristã como espaço de encontro, proteção e reconstrução de vínculos. A experiência comunitária, segundo ele, permite que migrantes e outras pessoas em situação de vulnerabilidade reencontrem elementos de sua identidade e construam novas relações de pertencimento.

“A comunidade cristã é uma casa e uma pátria para aqueles que não conhecem uma pátria e que, muitas vezes, enfrentam hostilidade até mesmo nos lugares onde vivem. Ela oferece abrigo, proteção e identidade, mas também aponta para uma cidadania mais ampla: a cidadania do Reino de Deus”, explicou.

Para o missionário scalabriniano, essa perspectiva também tem implicações pastorais nas grandes cidades, onde o anonimato e a solidão podem dificultar a construção de vínculos. Nesse contexto, a comunidade cristã pode atuar como ponto de apoio e favorecer o encontro entre pessoas de diferentes origens.

“O que representa a comunidade nesse mundo? Um reencontro: consigo mesmo, com a própria identidade, com aqueles que compartilham a mesma fé e com uma pátria que prefigura a pátria definitiva”, afirmou.

Cristo e a formação de uma nova identidade

Na análise de Pe. Antônio César Seganfredo, a cidadania apresentada em Efésios 2,19 não se limita a uma referência à vida futura ou a uma condição exclusivamente religiosa. A expressão aponta para uma transformação da identidade dos membros da comunidade cristã, fundamentada na obra reconciliadora de Cristo.

“A reconciliação realizada por Cristo não consiste simplesmente em colocar judeus e gentios no mesmo nível. Trata-se de uma nova criação, que transforma a identidade de ambos. Na comunidade cristã, as barreiras religiosas, étnicas e sociais não podem determinar quem pertence ou não a ela”, afirmou.

Pe. Antônio também relacionou essa reflexão à construção da paz. Segundo ele, a reconciliação exige compromisso concreto e disposição para assumir os custos desse processo.

“Cristo é a nossa paz. Ele realizou a reconciliação entregando a própria vida. Se queremos construir a paz hoje, também precisamos estar dispostos a pagar esse preço. Não basta discutir ideias: é necessário assumir compromissos concretos, tanto na comunidade eclesial quanto na sociedade”, ressaltou.

Pesquisa desenvolvida ao longo de sete anos

A tese que deu origem ao livro foi defendida em 13 de outubro de 2019, após sete anos de pesquisa. O trabalho foi desenvolvido no âmbito do doutorado em Teologia Bíblica, na Pontifícia Universidade São Tomás de Aquino, em Roma, e contou com o aprofundamento dos estudos na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém.

A obra está organizada em quatro capítulos, que abordam o contexto da Carta aos Efésios, o conceito de metáfora, a dimensão política do texto e o significado da cidadania na formação da identidade cristã.

Com Concidadãos do céu, Pe. Seganfredo contribui para os estudos bíblicos e para a reflexão pastoral sobre o pertencimento e a missão das comunidades cristãs. A pesquisa aproxima a compreensão das primeiras comunidades dos desafios contemporâneos relacionados à migração, ao acolhimento e à construção de relações fundamentadas na reconciliação e na dignidade humana.


Texto: Vitor da Cruz Azevedo, setor de conteúdo do Departamento Regional de Comunicação.

Fotos: Arquivo regional.

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