A messe é grande, mas os operários são poucos

O apelo de Jesus “A messe é grande, mas os operários são poucos” (Lc 10,2) ressoa hoje com uma urgência quase profética. A chamada “crise” vocacional, marcada pela redução no número de pessoas que respondem ao chamado da vida consagrada, não pode ser interpretada de modo simples e imediato. Trata-se de um desafio profundo que interpela a Igreja a redescobrir a beleza e a força do chamado de Deus.

Imersos em um modo de vida voltado à cultura do imediatismo e numa sociedade acelerada, o cenário do convite à pausa para cultivar uma vida espiritual e uma íntima relação com Deus torna-se cada vez mais raro. Muitos jovens se veem desencorajados a considerar a vida religiosa não apenas por pressões externas, mas por uma ausência de espaços de escuta e discernimento.

No Evangelho segundo Lucas, Jesus envia seus discípulos à sua frente para a missão do anúncio da Boa Nova do Reino, exortando-os a rogar ao Senhor da Messe que envie operários (Cf. Lc 10, 1-2). Assim, percebe-se a necessidade de cultivar uma cultura vocacional que não apenas “recrute”, mas que revele o fascínio do seguimento radical de Jesus. A vida consagrada é dom e profecia: dom porque é graça recebida e entregue, profecia porque desafia o mundo com o sinal da total entrega e do amor sem reservas.
A diminuição do número de pessoas que assumem a vocação à vida religiosa não deve ser lida como ausência de chamado, mas sim como falta de ressonância. Deus não deixou de chamar; Ele continua a pronunciar nomes, a semear inquietações santas, a inspirar corações à doação total na causa do Reino. São João Batista Scalabrini dizia: “a vocação [...] é como um germe delicadíssimo, introduzido pela mão de Deus, na alma que vem peregrinar sobre a terra”. A resposta, porém, nasce do encontro. Um encontro verdadeiro, pessoal, com Cristo.

É na oração perseverante, na vida comunitária vibrante e no testemunho coerente que as vocações florescem. São João Paulo II afirmava: “Toda vocação é um tesouro confiado à Igreja. Cabe a ela cultivá-lo com fé e responsabilidade”. Assim, a missão de fomentar, incentivar, cultivar e acompanhar as vocações envolve toda a Igreja, corpo místico de Cristo, chamada a ser fértil e a preparar o ambiente que propicie o surgimento de novas vocações e o cultivo dos vocacionados; envolve cada fiel que assume o chamado a ser discípulo missionário de Cristo Jesus.

Fomentar uma cultura vocacional nas comunidades é mais do que organizar eventos ou distribuir panfletos — passa por aí, mas não se restringe aí — é necessário, também, criar um ambiente espiritual e humano onde o chamado de Deus possa ser percebido, cultivado e abraçado com liberdade e alegria.

O momento é exigente, mas não sem esperança. Pelo contrário, talvez a escassez de “operários” nos convide a uma fé mais profunda, a uma evangelização mais encarnada, e a uma Igreja mais profética, que se ajoelha em oração e se levanta em testemunho. Os frutos podem demorar, mas cada gesto, cada testemunho, cada oração é fecundo. “Não deveis temer, nem mesmo que vossas esperanças sejam frustradas [...] Nunca uma obra virtuosa é perdida diante do Senhor”. A messe continua grande e a voz do Senhor continua a ressoar.


Texto: Pe. Marcos Henrique da Silva Nunes, CS.

Foto: Adobe Stock.

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