
“Por isso, recomendo que reavives o dom de Deus que recebeste pela imposição das minhas mãos” (2Tm 1,6).
O convite que São Paulo dirige a Timóteo, expresso claramente nesta frase, acompanha e anima todo o ano que estamos vivendo como Scalabrinianos, sob o sinal especial da vocação.
Sem podermos aprofundar aqui o texto, convém fazer uma breve referência à relação entre a imposição das mãos e o dom do Espírito Santo presente nesta passagem bíblica. A exortação de Paulo para “reavivar o dom de Deus” evoca, como observa Rinaldo Fabris, a imagem das brasas sob as cinzas, convidando a reacender a chama que ilumina e aquece, como o fogo do lar.
Trata-se do “chárisma toû Theoû”, em grego, isto é, do dom de Deus que se torna presente em Timóteo mediante a imposição das mãos do Apóstolo. O termo carisma (do grego chárisma) significa “dom gratuito” e designa os dons do Espírito que procedem de Deus. Como afirma 1Cor 12,7: “Em cada um, o Espírito se manifesta para o bem comum”.
Mas o que isso significa? E como essa passagem pode esclarecer o significado da vocação?
O Catecismo da Igreja Católica identifica a vocação do ser humano com o desejo de felicidade que habita o coração de cada pessoa: “Este desejo é de origem divina: Deus o colocou no coração do homem para atraí-lo a si, pois somente Ele pode satisfazê-lo”.
Então, como reconhecer esse desejo? Como discerni-lo?
Nos Exercícios Espirituais, Inácio de Loyola nos oferece um método de verificação: a resposta do ser humano ao desejo de felicidade colocado por Deus corresponde ao crescimento da fé, da esperança e da caridade.
É o mesmo que experimentaram os discípulos de Emaús: “Não ardia o nosso coração quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?” (Lc 24,32).
E é precisamente aqui que se insere o testemunho e a santidade de São João Batista Scalabrini. Desde a sua ordenação sacerdotal, ele compreende que a vocação não é recebida de uma vez para sempre, mas que esse “sim” deve encarnar-se todos os dias com um coração renovado e agradecido. Trata-se de uma resposta que deve ser integral, ou seja, abranger tudo aquilo que somos, de modo que seja a própria vida a responder.
Por isso, durante seu serviço como formador e reitor de seminário, ele desejava que “os jovens aprendessem a pensar”, entendendo o pensar não como mera lógica, mas como uma “pietas” do questionar, uma forma de habitar a realidade na abertura ao amor.
Para Scalabrini, isso se concretizou, de modo evangélico, na opção pelos pobres. Opção que, por sua vez, se expressou em pelo menos três escolhas, três preferências apostólicas.
A primeira: o amor pelos surdos-mudos e a prática do método fonético (1831-1886). A segunda preferência: a periferia, isto é, seu ministério na Paróquia São Bartolomeu, na cidade de Como. Ali, em particular, soube amadurecer cada vez mais o binômio fé/justiça, insistindo junto aos industriais e políticos sobre a necessidade de assistir os camponeses que haviam decidido emigrar e de empenhar-se para que isso não acontecesse (direito de não migrar). A terceira preferência apostólica: as pessoas migrantes. Como sabemos, é célebre o episódio da estação de Milão, cuja experiência espiritual deu forma a uma vocação dentro da vocação: fundando, já como bispo, uma congregação de missionários para o acompanhamento e o serviço às pessoas migrantes (direito de migrar).
Em todas essas escolhas é clara a intenção de Scalabrini: exercer a profecia. Scalabrini quer tornar-se “voz e ouvido” daqueles que não têm voz, tanto no sentido fisiológico (as pessoas surdas-mudas) quanto no sentido sociopolítico (os migrantes e, de modo geral, os pobres).
“O que fazer?”, “Como responder?” Essas são as perguntas que sempre inquietaram o coração e a mente de Scalabrini, para conformar cada vez mais a sua vida à de Cristo, para “Ser o fermento de Deus no meio da humanidade”.
Precisamente esta observação nos convida a refletir sobre a concepção dinâmica da espiritualidade de Scalabrini, uma espiritualidade que envolve plenamente o ser humano e a história. Essa perspectiva revela uma espiritualidade dinâmica, profundamente encarnada na história.
Trata-se de uma mística de comunhão trinitária, que chama ao discernimento contínuo para reconhecer a presença de Deus na vida e no rosto dos outros, especialmente nos pobres e migrantes.
Texto: Pe. Marco Strona.
Foto: Arquivo Regional.




