
Enquanto a Igreja celebra hoje a Solenidade de Corpus Christi, erguendo preces e louvores ao Santíssimo Sacramento, o Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, a memória de grandes Santos que testemunharam um amor ardente pela Eucaristia se faz presente. Entre eles, brilha a figura de São João Batista Scalabrini, o "Pai dos Migrantes", cuja vida e ministério foram um elo indissolúvel com o mistério eucarístico, fonte e ápice de toda a vida cristã.
Para São João Batista Scalabrini, a Eucaristia não era meramente um rito simbólico, mas o coração pulsante de sua espiritualidade e a rocha inabalável de sua fé. Ele expressava com clareza a centralidade desse sacramento, afirmando que "Aquele que crê na Eucaristia, acredita, pode-se dizer, em todas as verdades cristãs" (A devoção ao SS. Sacramento, Piacenza, 1902, pp. 5-6). Esta profunda convicção de Scalabrini, encontra eco na própria Sagrada Escritura, onde Jesus, em João 6,54-56, proclama: "Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia. Porque a minha carne é verdadeira comida e o meu sangue é verdadeira bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele." A Eucaristia, portanto, é a promessa viva da eternidade, a antecipação do Reino de Deus que se manifesta já na nossa história.
Scalabrini, com uma profundidade teológica e uma sensibilidade pastoral notáveis, descrevia a Eucaristia como a "obra-prima da mente e do coração de Deus, o ponto de contato onde o finito e o infinito, a natureza e a graça se unem" (Carta Pastoral para a Santa Quaresma de 1878, Piacenza, p.15). Essa visão poética e, ao mesmo tempo, dogmática, ressoa com o ensinamento perene da Igreja. O Catecismo da Igreja Católica (CIC), em seu parágrafo 1324, reafirma com veemência: "A Eucaristia é a 'fonte e cume de toda a vida cristã'". E o Concílio Vaticano II, na Constituição Dogmática Lumen Gentium (n. 11), sublinha que "(...) alimentados pelo corpo de Cristo na Eucaristia, manifestam visivelmente a unidade do Povo de Deus, que neste augustíssimo sacramento é perfeitamente significada e admiravelmente realizada".
O Santo de Piacenza era um profeta da centralidade eucarística, enfatizando que "Tudo converge para a Eucaristia". Em uma de suas cartas pastorais, ele comparou a Eucaristia ao sol no mundo físico, afirmando: "É por ela que a universalidade das coisas criadas, que descem do Criador, a Ele retorna incessantemente" (Carta Pastoral para a Santa Quaresma de 1878, Piacenza, p.15). Essa perspectiva teológica, que vê a Eucaristia como o centro gravitacional da existência, encontra amparo na doutrina da Criação e da Redenção, onde Cristo é o Alfa e o Ômega (Ap 1,8), por meio de quem todas as coisas foram criadas e por quem todas as coisas são redimidas. São Paulo, em Colossenses 1,16-17, corrobora essa visão: "pois nele foram criadas todas as coisas, nos céus e na terra, as visíveis e as invisíveis, quer tronos, quer dominações, quer principados, quer potestades: tudo foi criado por ele e para ele. Ele é antes de todas as coisas, e nele subsistem todas as coisas."
Mas, como vivenciar essa devoção eucarística de forma autêntica? São João Batista Scalabrini não apenas teorizava sobre a Eucaristia, mas também exortava os fiéis a uma vivência prática e profunda. Ele ensinava que a devoção deve brotar de uma fé viva e um amor sincero a Jesus, Hóstia divina. "Vossa devoção interior e exterior deve proceder de uma fé viva e de um sincero amor a Jesus, hóstia divina" (A devoção ao SS. Sacramento, Piacenza, 1902, pp. 26-28). A preparação interior, o exame de consciência e a contrição, são elementos essenciais para uma digna participação, como nos adverte São Paulo em 1 Coríntios 11,27-29: "Portanto, todo aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será réu do Corpo e do Sangue do Senhor. Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma do pão e beba do cálice; pois aquele que come e bebe indignamente, come e bebe a própria condenação, não discernindo o Corpo do Senhor."
Neste dia de Corpus Christi de 2025, somos convidados, pelas palavras e pelo exemplo luminoso de São João Batista Scalabrini, a ir além da mera observância e a buscar um encontro pessoal e transformador com Cristo presente na Eucaristia. Que este sacramento seja verdadeiramente o centro de nossa vida espiritual, a fonte de nossa missão e o impulso de nossa caridade, transformando-nos em autênticos discípulos e missionários do amor de Deus.
Texto: Vitor da Cruz Azevedo, Setor de Conteúdo do Departamento Regional de Comunicação.
Foto: Arquivo Regional da RNSMM.




