
Criado em 1976, o movimento nasceu em meio ao espírito de renovação pastoral impulsionado pelo Concílio Ecumênico Vaticano II
Inspirado na experiência de conversão de São Paulo Apóstolo no caminho de Damasco (At 9,1-19), o Convívio Damasco celebra 50 anos de história no próximo dia 30 de maio, sábado, na Igreja Santo Antônio, em Guaporé, Rio Grande do Sul, Brasil. A celebração jubilar reunirá Missionários Scalabrinianos, convivistas e comunidades que ajudaram a construir uma das mais tradicionais experiências de formação cristã ligadas ao carisma scalabriniano.
Criado em 1976, o movimento nasceu em meio ao espírito de renovação pastoral impulsionado pelo Concílio Ecumênico Vaticano II e tinha como principal objetivo fortalecer a participação dos leigos na vida da Igreja. “No ano de 1975, os Padres Scalabrinianos Luiz Salvucci, Pio Fantinatto e Roberto Ciotola refletiram longamente, buscando um planejamento para a formação de lideranças cristãs leigas. As motivações eram justamente a valorização dos leigos e a formação de lideranças para a pastoral”, afirma o Pe. Ivo Antônio Pretto, CS, Vigário Paroquial da Paróquia Santo Antônio.
O primeiro retiro aconteceu entre os dias 26 e 30 de maio de 1976, no Seminário São Carlos, atual Recanto São Carlos, em Guaporé, reunindo participantes de diversas cidades do sul do país.

Pe. Joel Ferrari, Diretor do Lar da Criança Primo e Palmira Pandolfo e da Rádio Aurora, obras scalabrinianas localizadas em Guaporé, explica que a proposta surgiu em um período de profundas transformações eclesiais, especialmente no que dizia respeito ao protagonismo dos leigos.
“Falava-se do protagonismo e da missão dos leigos na família, no mundo do trabalho, na sociedade em geral e também dentro da própria Igreja. Naquele período começavam as primeiras Celebrações da Palavra conduzidas por leigos, surgiam novas pastorais e a catequese passava a ser assumida cada vez mais pelos fiéis leigos. Diante dessa nova realidade, fazia-se urgente preparar essas lideranças, transmitir formação bíblica, sacramental e catequética”, recorda.
Inspirados pela experiência do Movimento de Cursilhos de Cristandade (MCC), a Congregação dos Missionários de São Carlos – Scalabrinianos estruturaram um retiro fundamentado no processo de conversão vivido por São Paulo.
“Os padres buscaram inspiração no itinerário de Saulo que, depois de três dias de silêncio e reflexão, mudou radicalmente de vida e até de nome, passando a ser Paulo. A partir dessa experiência, prepararam um roteiro de palestras, meditações, celebrações e momentos de oração que dessem às pessoas a oportunidade de fazer também uma profunda experiência de encontro com Cristo”, destaca Pe. Joel.
Pouco depois surgiram também os retiros femininos e as experiências voltadas aos jovens, como o Convívio Betânia e o Convívio Tabor.

Espiritualidade do encontro e acolhida
Ao longo das últimas cinco décadas, o Convívio Damasco consolidou-se como uma experiência de espiritualidade, formação e vivência comunitária. Embora possua características próprias, o movimento mantém Cristo como centro de toda a caminhada.
“Cada Movimento da Igreja tem seu carisma e seu jeito de ser, mas, em todos os movimentos, o objetivo fundamental é sempre o mesmo: Jesus Cristo. O Convívio Damasco tem uma característica muito própria dentro da Igreja: é um movimento aberto e acolhedor, que não exclui ninguém. O retiro propõe um caminho de conversão a partir de três encontros fundamentais: consigo mesmo, com Deus e com os irmãos. É uma experiência que toca profundamente a vida das pessoas”, afirma Pe. Ivo Pretto.
Segundo o Missionário Scalabriniano, a experiência do retiro busca levar os participantes a uma mudança concreta de vida. “Diferentemente de outros movimentos, o Convívio trabalha muitos momentos e sinais que revelam aquilo que chamamos de ‘surpresas de Deus’, experiências que tocam profundamente os corações”, ressalta.

Para Pe. Joel, o retiro vai além de um simples momento espiritual e busca despertar compromisso concreto com a comunidade e a missão da Igreja. “Após a realização do retiro, os participantes são vivamente motivados a se inserirem nas pastorais e nos serviços das comunidades onde vivem. O objetivo não é apenas viver uma emoção passageira, mas despertar cristãos comprometidos com a vida da Igreja”, afirma.
Expansão missionária e frutos do movimento
A história do Convívio Damasco também é marcada pela forte dimensão missionária herdada de São João Batista Scalabrini. Ainda nos primeiros anos do movimento, os Padres Scalabrinianos e leigos convivistas começaram a levar os retiros para outras regiões do Brasil e para o Paraguai.
“Eles realizavam os Convívios com o espírito e o carisma scalabriniano de preparar, evangelizar e proporcionar uma experiência de Cristo na vida daqueles migrantes que estavam longe da pátria. Muitas vezes, essas pessoas necessitavam ainda mais desse momento profundo de renovação espiritual, conversão e fortalecimento da fé”, recorda Pe. Joel Ferrari.
O Pe. Antônio Geraldo Dalla Costa, CS, Vigário Paroquial da Paróquia Santo Antônio, acompanhou diretamente esse processo de expansão missionária do movimento, especialmente no Paraná e no Paraguai.

“A minha experiência de Convívio começou em maio de 1993, quando fui transferido para Foz do Iguaçu para substituir na Paróquia São José Operário o Pe. Luigi. Fiz o meu primeiro Convívio junto com ele e, depois disso, acompanhei cerca de 200 convívios como diretor espiritual, em Foz do Iguaçu, Cascavel, São Miguel do Iguaçu e também no Paraguai”, relembra.
Segundo o Missionário, após a morte do Pe. Luigi Salvucci, em setembro de 1993, o trabalho de continuidade do movimento tornou-se ainda mais intenso.
“Em Foz do Iguaçu, demos continuidade ao movimento por dez anos. Todos os anos eram realizados cinco convívios de homens e cinco convívios de mulheres. Sempre houve mais procura do que vagas. A maioria dos candidatos era convidada pelos próprios convivistas que desejavam que parentes e amigos também vivessem aquela experiência transformadora”, afirma.
O crescimento levou à abertura de novos núcleos em São Miguel do Iguaçu, Cascavel e diversas regiões paraguaias. “Sentimos a necessidade da expansão para novos locais. Em São Miguel do Iguaçu contamos com o apoio do Pe. Antônio Stella. No Paraguai, especialmente em Santa Fé e Santa Rita, houve grande entusiasmo dos missionários e das comunidades. Em Cascavel, os primeiros convívios aconteceram em 2001 com apoio de monitores de Foz do Iguaçu”, recorda Pe. Antônio.

Até julho de 2000, somente em Foz do Iguaçu haviam sido realizados 138 convívios, reunindo mais de 20 mil participantes. Atualmente, o movimento reúne mais de 50 mil convivistas espalhados pelo Rio Grande do Sul, Paraná, Mato Grosso do Sul e Paraguai.
“Onde a sementinha foi lançada com generosidade, produziu muitos frutos na vida cristã de muitas pessoas. Houve muito entusiasmo, muita alegria de ser cristão. Com o passar dos anos, muitos se envolveram no movimento com grande dedicação”, destaca Pe. Antônio.
O Missionário Scalabriniano também relembra os desafios enfrentados pelo movimento ao longo das décadas, especialmente após a transferência ou falecimento de alguns dos padres que lideravam o Convívio. “Com a ausência de diretores espirituais engajados, houve períodos de esfriamento. O movimento se sentiu órfão em alguns momentos. Mas onde encontrou outros padres com entusiasmo, a chama se reavivou e o movimento voltou a crescer”, afirma.
Renovar a missão para os novos tempos
Diante dos desafios contemporâneos da evangelização, os Missionários Scalabrinianos acreditam que o Convívio Damasco continua sendo um importante instrumento de formação cristã e fortalecimento da fé.
“Acredito que o Convívio possui uma proposta profunda e um método concreto capaz de proporcionar às pessoas uma verdadeira experiência de encontro com Deus, assim como foi a experiência de São Paulo com Cristo Jesus. É uma experiência que faz diferença na vida daqueles que têm essa oportunidade”, afirma Pe. Joel Ferrari.
Para Pe. Ivo Pretto, o jubileu de 50 anos representa também um novo chamado missionário para o movimento. “Levando em consideração o caminho percorrido e os abundantes frutos já colhidos, busca-se continuar a caminhada formativa em busca de conhecimento, vivência cristã e compromisso missionário. Pessoalmente, sinto que chegou o momento de motivar na mente e no coração dos convivistas o compromisso de ser ‘missionário de Jesus’. Esse objetivo palpita forte em meu coração”, ressalta.

Já Pe. Antônio Dalla Costa acredita que o futuro do movimento dependerá da capacidade de manter vivo o entusiasmo missionário que marcou sua origem.
“O Convívio nasceu e se desenvolveu na Congregação Scalabriniana. Ele continuará atual se encontrar pessoas generosas, capazes de lançar com entusiasmo a boa sem ente, com fidelidade criativa, para continuar sendo uma resposta válida para os homens de hoje”, conclui.
Texto: Vitor da Cruz Azevedo, setor de conteúdo do Departamento Regional de Comunicação.
Fotos: Arquivo pessoal.




