
Realizada na Missão Paz, em São Paulo, iniciativa da Juventude Scalabriniana aproximou participantes da realidade de migrantes e refugiados e promoveu reflexão sobre os dons colocados a serviço da missão
Nos dias 26 e 27 de setembro, a Juventude Scalabriniana de São Paulo (Juves-SP) promoveu a Missão Juves 2026, reunindo mais de 150 jovens na Igreja Nossa Senhora da Paz, no Glicério, região central de São Paulo (SP). Realizada em sintonia com o Ano Vocacional Scalabriniano, a iniciativa teve como tema “Reaviva o dom de Deus que está em ti” (2Tm 1,6) e proporcionou aos participantes uma experiência de encontro com a realidade de migrantes e refugiados.
A Missão Juves é uma iniciativa voltada aos jovens que desejam conhecer e vivenciar, de maneira concreta, a missão scalabriniana junto às pessoas em mobilidade humana. Ao longo do encontro, os participantes foram convidados a compreender diferentes experiências migratórias e a refletir sobre como seus próprios dons podem ser colocados a serviço de Deus, da Igreja e do próximo.
Segundo Edélcia dos Santos, assessora da Juves-SP, a proposta da missão é proporcionar aos jovens uma experiência próxima da realidade migratória.
“A Missão Juves é uma missão que é preparada para jovens que se identificam com o carisma scalabriniano, que seguem os passos de Jesus através das pegadas de São João Batista Scalabrini. É voltada ao migrante e ao refugiado. O intuito da missão é fazer os jovens se sentirem, viverem e serem migrantes com os migrantes.”

Uma experiência de encontro
A realização da Missão Juves nas áreas da Missão Paz, obra scalabriniana localizada no Glicério, possibilitou aos participantes um contato direto com diferentes dimensões da mobilidade humana. A instituição reúne serviços de acolhida, atendimento e acompanhamento de migrantes e refugiados, além de iniciativas de pesquisa e reflexão sobre as migrações.
Para Lívia Sanches, participante da Paróquia e Basílica Menor Nossa Senhora da Boa Viagem, em São Bernardo do Campo, São Paulo, Brasil, a experiência deste ano teve um significado particular. Ela participa da Juves desde 2022 e esteve envolvida anteriormente em experiências de acolhida de jovens durante uma missão realizada em São Bernardo do Campo.
“Eu conhecia a Missão Paz um pouco por cima. Já tinham me falado algumas coisas, mas não fazia ideia da grandiosidade que é essa missão. Confesso que me surpreendeu muito”, relatou.

O contato com as histórias de migrantes também levou Lívia a identificar na escuta uma forma concreta de colocar seus dons a serviço. “Eu acho que o chamado é muito cotidiano. No dia a dia é que a gente constrói nossa relação com Deus, nossa participação na Igreja. Cada um participa de uma forma, cada um tem um dom que pode servir a Deus. Cada um é chamado para uma coisa.”
Durante a missão, ela teve a oportunidade de conversar com migrantes bolivianos e ouvir suas histórias e experiências comunitárias. A partir desse encontro, percebeu que a escuta pode ser uma forma de serviço.
“Eu sou uma pessoa que gosto muito de escutar a história das pessoas. Gosto de dar meu ouvido para a pessoa falar, para desabafar. Então acho que o meu dom, nesse sentido, seria o escutar.”
Conhecer para compreender a realidade migratória
O contato direto com a realidade atendida pela Missão Paz também ampliou a percepção da participante sobre a dimensão das migrações em São Paulo. Embora já tivesse contato com pessoas de diferentes nacionalidades por meio de sua comunidade em São Bernardo do Campo, Lívia afirmou que a experiência na capital paulista apresentou uma realidade mais ampla do que imaginava.
A experiência também permitiu perceber diferentes formas de contribuição para o acompanhamento e a integração das pessoas migrantes. Segundo Lívia, profissionais e voluntários podem colocar seus conhecimentos a serviço dessa realidade.

“Tem gente que se doa, que todo dia acorda e fala: ‘Eu vou me esforçar, vou dar o meu melhor, vou usar da minha especialidade’. Uma pessoa dá aula de português, outra é advogada, outra é médica. Cada um, na sua especialidade, consegue dar um pouco.”
Para ela, essa atuação contribui para ampliar as possibilidades de integração social dos migrantes. “Fico feliz de ver essas pessoas sendo reintegradas na sociedade, sendo cidadãs, tendo oportunidade de trabalhar, de ter acesso à saúde e de as crianças terem acesso à educação. Acho que isso é o mais importante.”
Reavivar os dons e colocá-los a serviço
Para esse ano, a experiência também foi pensada em comunhão com o Ano Vocacional Scalabriniano, celebrado entre abril de 2026 e abril de 2027. De acordo com Edélcia, a escolha do tema procurou ajudar os jovens a reconhecerem a dimensão vocacional presente na própria vida. “Gostaríamos que os jovens se lembrassem que, quando nasceram, quando foram batizados, Deus plantou um dom no seu coração, e é momento de ser reavivado, soprar as cinzas e dar vida a ele.”
A proposta não se limita, porém, à participação em uma atividade missionária específica. A Juves-SP busca estimular os jovens a reconhecerem que a missão pode ser vivida nos diferentes espaços em que estão inseridos, de acordo com suas realidades e possibilidades.

“A gente não precisa ir, necessariamente, para algum lugar muito longe para fazer uma missão ou vivenciar esse determinado chamado. Essa missão pode ser vivida na sua paróquia, pode ser vivida na sua cidade, conforme a sua realidade”, explicou Edélcia.
O tema “Reaviva o dom de Deus que está em ti” (2Tm 1,6) também provocou uma reflexão pessoal em Lívia. Ao longo de sua trajetória na Igreja, ela identificou diferentes formas de serviço, desde a música litúrgica até a comunicação e, agora, a escuta.
“Eu fiquei pensando bastante quando vi o tema. Achei muito profundo. Cada um tem o seu dom. Por um tempo, toquei órgão na Igreja e tinha esse chamado de levar a música durante a missa. Mas, por conta da correria da vida, acabei me afastando um pouco da música e me encontrei em outras áreas.”
Atualmente, Lívia também participa da Juves em sua paróquia e atua com comunicação nas redes sociais. A partir da experiência vivida em São Paulo, ela pretende levar essa reflexão também para sua comunidade em Sorocaba, onde atualmente participa da Paróquia Nossa Senhora Medianeira de Todas as Graças.
“Não tenha medo”
Para a participante, a Missão Juves também representa uma oportunidade de sair da própria realidade e encontrar pessoas, histórias e situações diferentes. Ao falar sobre a possibilidade de outros jovens participarem de futuras edições, Lívia destacou o desafio de deixar a zona de conforto e a dimensão comunitária da experiência.
“Eu diria: não tenha medo. Realmente dá medo, porque você sai muito da sua zona de conforto. É desafiador. Não é fácil, é cansativo, mas não tenha medo, porque vale muito a pena.”
A experiência, segundo ela, também pode transformar a forma como o jovem compreende sua própria vocação e sua participação na Igreja. “Você sai outra pessoa a cada ano. Parece clichê, mas realmente, se você se entrega, você sente. Cada ano que passa é uma missão transformadora. E, se você se encanta, quer vir na próxima.”

Juventude e missão
A realidade encontrada pelos jovens na Missão Paz dialoga diretamente com a proposta da Juventude Scalabriniana, que busca formar jovens capazes de reconhecer a presença de Deus na realidade e colocar seus dons a serviço da missão.
Para Edélcia, a experiência de contato com migrantes e refugiados permite aos participantes perceberem que a vocação missionária não depende necessariamente de grandes deslocamentos, mas pode começar nos espaços cotidianos. “Essa missão pode ser vivida na sua paróquia, pode ser vivida na sua cidade, conforme a sua realidade”, concluí.

Texto: Vitor da Cruz Azevedo, setor de conteúdo do Departamento Regional de Comunicação.
Fotos: Arquivo regional.




