Papa Leão XIV pede proteção integral para crianças migrantes e refugiadas
Na mensagem para o 112º Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, celebrado em 27 de setembro, Pontífice denuncia as violências enfrentadas por menores e propõe uma mudança de perspectiva nas políticas migratórias, com foco na dignidade e nos direitos humanos

Não podemos permanecer indiferentes, nem habituar-nos a tanto sofrimento.” O apelo do Papa Leão XIV marca a mensagem para o 112º Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, que será celebrado em 27 de setembro. Com o tema “Mesmo uma só destas crianças”, inspirado no Evangelho, o documento coloca no centro da reflexão as crianças e os adolescentes que vivem situações de migração forçada, deslocamento e refúgio.

Na mensagem, o Pontífice chama a atenção para os milhões de menores que, todos os anos, são obrigados a deixar seus locais de origem em consequência de guerras, pobreza, violência, catástrofes ambientais e outras situações de emergência. Para além dos números, o Santo Padre destaca as histórias de crianças que perderam familiares, foram separadas de seus pais, testemunharam situações de violência ou enfrentaram trajetos migratórios marcados por riscos e condições extremas.

Crianças entre os grupos mais vulneráveis

O Papa alerta que a condição migratória pode ampliar situações de vulnerabilidade já existentes na infância. Entre os riscos mencionados estão tráfico de pessoas, exploração, violência sexual, casamentos forçados, recrutamento por grupos armados e mortes durante as rotas migratórias. Leão XIV retoma, nesse contexto, uma expressão utilizada pelo Papa Francisco em sua mensagem para o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado de 2017, quando classificou as crianças migrantes como “três vezes mais vulneráveis”, por serem menores, estrangeiras e indefesas.

Diante dessa realidade, o Romano Pontífice afirma que a resposta da sociedade não pode ser orientada apenas pela dimensão quantitativa das migrações. Cada criança, segundo ele, deve ser reconhecida como pessoa dotada de dignidade e direitos próprios. “Não se trata de números ou estatísticas. O Evangelho convida-nos a não fazer cálculos: mesmo um só.”

A reflexão do Papa Leão XIV parte das palavras de Jesus no Evangelho: “Quem receber um menino como este, em meu nome, é a mim que recebe”. A partir dessa perspectiva, o acolhimento de uma criança migrante é apresentado não apenas como uma questão humanitária, mas também como uma expressão concreta da fé cristã.

Comunidades são chamadas à acolhida e integração

Ao abordar o papel das comunidades cristãs, o Papa pede que o acolhimento de crianças migrantes e refugiadas não seja tratado como responsabilidade exclusiva de instituições especializadas ou organizações sociais.

Para o Santo Padre, as comunidades eclesiais devem promover uma integração efetiva, reconhecendo migrantes e refugiados como membros da comunidade e criando espaços de convivência entre crianças e adolescentes locais e aqueles que chegaram de outros países.

A proposta busca superar uma perspectiva limitada ao assistencialismo. Além de atender necessidades imediatas, Papa Leão destaca a importância de combater solidão, isolamento e rejeição, favorecendo ambientes de encontro, respeito mútuo, solidariedade e amizade.

O Pontífice também reconhece o trabalho realizado por famílias, educadores, voluntários, profissionais e comunidades que acompanham crianças migrantes e ajudam a tratar feridas que, muitas vezes, permanecem invisíveis. “Com o seu empenho, testemunham que o amor pode vencer a indiferença.”

Responsabilidade compartilhada

A proteção das crianças migrantes, segundo Leão XIV, exige uma atuação articulada entre comunidades de fé, sociedade civil e instituições públicas. No âmbito inter-religioso, Papa Leão XIV defende a cooperação entre diferentes tradições religiosas para a criação de redes de proteção e espaços seguros, capazes de respeitar a identidade cultural dos menores e prevenir situações de exploração e radicalização.

Às instituições civis, o Pontífice pede a aplicação efetiva do princípio do interesse superior da criança, além de instrumentos jurídicos de proteção, medidas que favoreçam o reagrupamento familiar e políticas capazes de reduzir os impactos provocados pela separação entre crianças e seus familiares.

O Santo Padre também ressalta que a proteção deve começar antes da chegada aos países de trânsito ou destino. Para isso, considera necessário enfrentar as causas que levam crianças e famílias a abandonar seus locais de origem.

Da gestão migratória à proteção dos direitos

Um dos principais pontos da mensagem é o pedido para que o debate sobre migração seja deslocado de uma perspectiva centrada exclusivamente no controle e na gestão dos fluxos para uma abordagem baseada na proteção integral dos direitos humanos. “Urge uma mudança de perspectiva: é necessário deslocar o eixo do debate da mera gestão dos fluxos para a tutela plena e imediata dos direitos humanos.

A proposta apresentada pelo Papa envolve uma resposta articulada entre proteção, acolhimento e integração, especialmente diante das situações que atingem crianças e adolescentes. Nesse sentido, Papa Leão afirma que o sofrimento dos menores migrantes não pode ser tratado como uma realidade distante. O clamor dessas crianças, segundo o Pontífice, interpela tanto a fé cristã quanto a responsabilidade social e política.

Jesus, Maria e José: uma família marcada pelo exílio

Ao concluir a mensagem, Papa Leão XIV confia as crianças migrantes e refugiadas à proteção da Virgem Maria, recordando que a própria Sagrada Família conheceu a experiência do deslocamento e do exílio.

O Evangelho de Mateus relata a fuga de José, Maria e Jesus para o Egito diante da perseguição de Herodes (Mt 2,13-15). A referência estabelece uma conexão entre a experiência da Sagrada Família e a realidade de tantas crianças que hoje são obrigadas a deixar seus lares para preservar a própria vida.

Ao colocar uma única criança no centro da reflexão, o Pontífice reforça uma perspectiva fundamental para o enfrentamento das migrações forçadas: por trás de cada número existe uma pessoa, uma história e uma dignidade que não pode ser relativizada.


Texto: Vitor da Cruz Azevedo, setor de conteúdo do Departamento Regional de Comunicação.

Foto: Vatican Media.

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