
A Comissão Episcopal Especial para o Enfrentamento ao Tráfico Humano, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dedica o mês de julho à conscientização e mobilização contra o tráfico de pessoas. A iniciativa, intitulada “Mês de Luta pela Liberdade”, tem como lema: “Tráfico de pessoas existe, e enfrentá-lo é a nossa missão!”
A mobilização se inspira na Campanha Coração Azul, promovida pela Organização das Nações Unidas (ONU), e reforça as ações em torno do Dia Mundial de Combate ao Tráfico de Pessoas, celebrado em 30 de julho. Instituída em 2013, a data visa chamar atenção para uma das mais graves e silenciosas violações dos direitos humanos.
Escravidão moderna: rostos, números e feridas
Segundo o relatório Estimativas Globais da Escravidão Moderna, elaborado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), a Walk Free e a Organização Internacional para as Migrações (OIM), essa forma de escravidão moderna atinge 50 milhões de pessoas. Desse total, 28 milhões são vítimas de trabalho forçado e 22 milhões, de casamentos forçados. As mulheres representam quase 70% das vítimas, e 25% são menores de idade.
Esse crime atinge pessoas, entre homens, mulheres e crianças, nas mais variadas formas: Uma menina em Bangladesh está prestes a ser dada em casamento a um homem adulto; um menino na Itália trabalha no campo há horas sem descanso; um homem tenta cruzar uma fronteira confiando sua vida a um traficante.
Um crime global, um desafio pastoral
Casos como o de dois jovens brasileiros enganados por falsas ofertas de trabalho e mantidos em cárcere em Mianmar revelam a sofisticação e o alcance do tráfico de pessoas, que movimenta US$ 150 bilhões por ano, sendo dois terços oriundos da exploração sexual de mulheres e crianças. Os lucros médios por vítima variam de US$ 34.800 em economias avançadas a US$ 3.900 na África.
O Relatório Global sobre Tráfico de Pessoas 2024 divulgado pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes (UNODC) divulgado em novembro do ano passado, aponta que mais de 2,5 milhões de pessoas são vítimas do tráfico atualmente. Mulheres e meninas são as principais afetadas pela exploração sexual, enquanto meninos, em sua maioria, são traficados para trabalho forçado ou para mendicância e criminalidade. No Brasil, regiões de fronteira como o Sul e a Amazônia são especialmente vulneráveis. A pobreza e a desinformação continuam sendo terreno fértil para o aliciamento de vítimas, em especial entre migrantes e refugiados, cujas situações precárias os tornam alvos fáceis.
Missionários de São Carlos – Scalabrinianos: presença, denúncia e esperança
Frente a esse cenário alarmante, os Missionários de São Carlos – Scalabrinianos atuam com ações concretas de prevenção, acolhida, denúncia e reintegração. A Congregação, fundada por São João Batista Scalabrini, mantém viva sua missão de “ouvir o grito dos pobres expatriados”, como dizia o fundador no século XIX.
Inspirados por esse carisma, os Scalabrinianos desenvolvem projetos de acolhida e proteção para migrantes e vítimas do tráfico, por meio de casas de apoio, centros de escuta, paróquias, portos, centros de formação e campanhas educativas. Também atuam junto a forças policiais, instituições públicas e organizações da sociedade civil, promovendo ações conjuntas para combater as redes de exploração.
Em sua mensagem para o Dia de Oração pelas Vítimas de Tráfico Humano, celebrado em 8 de fevereiro (data em que Igreja também recorda a memória litúrgica de Santa Josefina Bakhita), Pe. Leonir Mário Chiarello, Superior Geral da Congregação, reforçou:
“Somos chamados a nos tornar embaixadores da esperança. Nossa esperança brota da certeza de que, em cada ato verdadeiramente cristão, acreditamos no extraordinário, em um Deus que se fez Homem por nós e nunca abandona ninguém. Confiamos no impossível, caminhando ao lado daqueles que sofrem sofrimentos indescritíveis.”
A missão inclui ainda formação de agentes pastorais, capacitação de lideranças comunitárias, assistência jurídica e psicológica, além da promoção de políticas públicas voltadas à migração segura e à dignidade humana. Para os Scalabrinianos, tráfico e migração são realidades interligadas, que exigem olhar atento, políticas integradas e ação pastoral comprometida.
Como enfatizou o Superior Geral dos Scalabrinianos em sua mensagem: “Que a Sagrada Família de Nazaré, forçada a fugir para o Egito, nos ajude a caminhar sempre ao lado dos migrantes, refugiados e vítimas do tráfico, e a ser testemunhas da luz como foram São João Batista Scalabrini e Santa Josefina Bakhita”.
Texto: Vitor da Cruz Azevedo, Setor de Conteúdo do Departamento Regional de Comunicação.
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