Segundo dia da 12ª Assembleia Regional aprofunda diagnóstico migratório e desafios pastorais
Programação articulou análise de dados, experiências missionárias e protagonismo do laicato na missão junto aos migrantes

Nesta quarta-feira, 15 de abril, a 12ª Assembleia Regional da Região Nossa Senhora Mãe dos Migrantes (RNSMM) seguiu com seu segundo dia de atividades, em Guaporé, Rio Grande do Sul, Brasil. O encontro reúne mais de 100 participantes, entre Missionários, Religiosos e Leigos Scalabrinianos, e tem como objetivo avaliar a execução do Projeto Regional 2025–2030.

Diagnóstico migratório orienta reflexão pastoral e missionária

A programação teve início com a explanação do Pe. Marco Strona, Diretor Acadêmico do Centro de Estudos Migratórios Latino-Americanos (CEMLA), que apresentou o tema “Diagnóstico migratório dos países que compõem a RNSMM”, oferecendo uma análise estruturada da realidade migratória em nível global, regional e nos países que integram a Região. Logo no início, Pe. Marco ressaltou os limites e a importância da leitura dos dados.

“Sabemos que nem sempre é fácil estabelecer uma coincidência exata entre os dados e a realidade da migração. Esses números devem ser lidos como uma ocasião de reflexão”, afirmou.

Ao abordar o cenário global, Pe. Marco destacou o crescimento contínuo da migração internacional nas últimas décadas e os fatores que impulsionam os deslocamentos forçados. “É provável que as mudanças climáticas e os efeitos ambientais, que já estão agravando as crises humanitárias atuais, obriguem mais de 216 milhões de pessoas a se deslocarem dentro de seus próprios países até 2050”, pontuou.

No recorte latino-americano, o Diretor Acadêmico do CEMLA evidenciou a transformação das dinâmicas migratórias. Segundo ele, a Região passou a assumir um papel mais complexo no cenário global: “Hoje, já não é possível falar apenas de países de origem ou de destino. Todos os países podem ser considerados, ao mesmo tempo, de origem, de trânsito e de destino”, explicou.

A análise incluiu dados atualizados dos países que compõem a RNSMM (Brasil, Chile, Peru, Argentina, Paraguai, Bolívia e Uruguai), evidenciando o crescimento da população migrante e os principais desafios enfrentados, especialmente no acesso a direitos e na inclusão social.

Ao tratar da relação entre migração, trabalho e desenvolvimento, Pe. Marco destacou a contribuição dos migrantes para as economias e, ao mesmo tempo, alertou para os riscos de dependência estrutural em alguns países. “As remessas representam uma ajuda vital para milhões de famílias, mas também podem indicar uma falta de investimento no crescimento interno, gerando dependência”, observou.

Outro ponto central da explanação foi a crítica às narrativas negativas sobre a migração. Para o Sacerdote, a forma como o fenômeno é comunicado influencia diretamente a percepção social e as políticas adotadas. “Se a atenção se concentra exclusivamente nos aspectos negativos, permanece uma imagem substancialmente negativa do migrante e do refugiado”, afirmou. Ele também chamou atenção para a dimensão humana e identitária da experiência migratória. “O migrante não é apenas um número ou uma categoria. É uma pessoa em caminho, cuja história precisa ser escutada e compreendida”, destacou.

Ao final da apresentação, os participantes foram provocados a refletir sobre os desafios pastorais que emergem desse contexto. “Qual é o relato que emerge desses dados: um relato de crise ou um relato de transformação?”, questionou.

Atuações missionárias evidenciam desafios e respostas concretas

A segunda sessão da manhã, conduzida pelos Missionários Scalabrinianos Pe. Paolo Parise, Vigário Regional e 1º Conselheiro, e Pe. Luiz Carlos Do Arte, 5º Conselheiro, aprofundou a reflexão a partir de experiências concretas da Missão Scalabriniana, articulando dados, práticas pastorais e desafios emergentes.

Ao apresentar a sistematização de dados das Casas do Migrante e Centros de Acolhida, Pe. Paolo evidenciou a importância da organização das informações como instrumento pastoral e estratégico. “Esse é um exercício que exige disciplina, mas é fundamental, porque significa visibilidade. Quando conseguimos apresentar esses dados, isso também se traduz em possibilidades de financiamento e fortalecimento do apostolado”.

Os números apresentados evidenciam o alcance do trabalho desenvolvido na rede. “Praticamente sete mil pessoas foram documentadas neste trimestre”, destacou Pe. Paolo, além de atendimentos nas áreas social, jurídica, saúde e inserção laboral. A reflexão também apontou a necessidade de consolidar esse processo em nível regional e global: “Quem sabe possamos, em nível de Região, manter esse exercício constante de coleta de dados”, foi proposto pelo Missionário.

Durante a sessão, foram realizadas apresentações específicas. O primeiro tópico foi a experiência da pastoral junto a estudantes internacionais, apresentada pelo Pe. Walter Arévalos Reyes, CS, Vigário Paroquial da Paróquia Nossa Senhora da Rocca, a partir da realidade de Rosário, na Argentina. Ao descrever o contexto, destacou a vulnerabilidade dos jovens migrantes. “Mais de 60% da Faculdade de Medicina de Rosário são estudantes brasileiros, muitos deles jovens, longe da família e em situação de fragilidade”, explicou.

Segundo Pe. Walter, a pastoral vai além de um simples espaço de encontro. “Não é apenas uma pastoral para reunir jovens, mas, muitas vezes, para salvá-los”, afirmou, referindo-se aos riscos de dependência química e exploração. O Missionário também apontou as dificuldades acadêmicas e econômicas enfrentadas pelos estudantes. “Eles chegam com dificuldades no idioma, enfrentam exigências acadêmicas muito altas e vivem uma pressão econômica constante”, relatou.

Em seguida, foi realizada a apresentação sobre o Centros Stella Maris Scalabrinian Catholic Network, conduzida pelo Pe. Frandry Tamar, CS, Diretor do Apostolado do Mar de Santos. O Missionário Scalabriniano ressaltou a importância da missão junto aos trabalhadores marítimos. “O porto deve ser um lugar de acolhida, onde as pessoas possam encontrar apoio, escuta e dignidade”, destacou Pe. Tamar.

Já no campo educativo, a Rede de Escolas Scalabrinianas, na Argentina, foi apresentada como espaço estratégico de evangelização e incidência social. “As escolas verdadeiras comunidades, com centenas de famílias, muitas delas migrantes, que confiamos à nossa missão”, sublinhou o Representante Legal da Escola Nossa Senhora da Rocca, Pe. Carlos Alberto Villar Ospina, CS.

Também foi evidenciado o trabalho com crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade, reforçando a importância de uma abordagem integral aos mais jovens.  “Não se trata apenas de atender a criança, mas de acompanhar toda a família”, afirmou Pe. Antenor João Dalla Vecchia, CS, Diretor do Instituto Cristóvão Colombo (ICC), em São Paulo, Brasil.

Movimento Leigo Scalabriniano destaca desafios e potencial de crescimento

No período da tarde, a programação foi enriquecida com o momento dedicado ao Movimento Leigo Scalabriniano (MLS), que trouxe à Assembleia um retrato atual da presença, organização e desafios dos grupos nas diferentes áreas da Região.

Os representantes do MLS destacaram que, embora haja um compromisso concreto com a missão junto aos migrantes e nas comunidades locais, os grupos enfrentam desafios como o número reduzido de membros, a dificuldade de renovação, especialmente com a participação de jovens, e a necessidade de maior visibilidade do trabalho realizado.

Ao mesmo tempo, foi evidenciado que a atuação dos Leigos Scalabrinianos permanece marcada por forte engajamento pastoral, sobretudo no acompanhamento de migrantes, na vida paroquial e nas ações de acolhida e integração. Entre as propostas apresentadas, destacam-se o investimento na formação contínua, o fortalecimento das parcerias, a ampliação do voluntariado e uma maior inserção nos espaços educativos, especialmente nas escolas, vistas como ambientes estratégicos para a formação de novos agentes comprometidos com o carisma scalabriniano.

O momento também reforçou a dimensão espiritual e missionária do laicato, apontando para a necessidade de cultivar a identidade e a alegria próprias do serviço.  A apresentação do Movimento Leigo Scalabriniano evidenciou, assim, não apenas os desafios, mas também a vitalidade e o potencial de crescimento do laicato na Região, reafirmando seu papel essencial na missão junto aos migrantes e refugiados.

Outras apresentações

A programação do segundo dia da 12ª Assembleia Regional da RNSMM foi concluída com a apresentação da atuação da Scalabrini International Migration Network (SIMN), conduzida pelo Pe. Ildo Griz, representante da América Latina na rede.


Texto: Vitor da Cruz Azevedo, setor de conteúdo do Departamento Regional de Comunicação.

Fotos: Arquivo Regional.

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