
A acolhida não é um preceito religioso; ela, em primeiro lugar, expressa valores humanos culturais. No entanto, converteu-se em elemento essencial da proposta religiosa tanto do Judaísmo quanto do Cristianismo.
A acolhida é uma necessidade para quem vive na intempérie do caminho, especialmente em época que não existiam hospedarias ou a facilidade de transportes. De modo que o peregrino que bate na porta oportuniza para o anfitrião de se comportar como um irmão com ele. Na verdade, dependendo da situação, a não acolhida poderia significar a própria morte. Eis a gravidade da importância da acolhida.
É paradigmática a narração do livro do Gênesis sobre a acolhida realizada por Abraão de três pessoas que chegaram até a sua tenta em pleno deserto. Ele estava sentado na sombra, na entrada de sua tenda e ao ver os três homens correu para acolhê-los. Ofereceu-lhes hospitalidade em forma de água para lavar os pés, a sombra da tenda, e pão para saciar a fome da caminhada (Cf. Gn 18, 1-15). Desse insólito encontro surge uma promessa quando um dos homens disse a Sara que seria mãe de uma criança, apesar de sua idade avançada. Finalmente há uma revelação, essas pessoas eram anjos de Deus.
Sem a pretensão de uma exegese, podemos vislumbrar alguns ensinamentos da passagem bíblica. A acolhida pode propiciar bênção, pode ser ocasião de encontro com o próprio Deus. Pode salvar vidas. Quem acolhe oferece uma oportunidade a Deus de agir em nós e a través de nós.
No Novo Testamento a tradição da acolhida continua, inclusive, como exigência da vivência cristã. Jesus colocou ao lado de outros tópicos de práticas a acolhida ao migrante como condição para ingressar na plenitude do Reino. “Pois eu estava com fome, e vocês me deram de comer; eu estava com sede, e me deram de beber; eu era estrangeiro, e me acolheram em sua casa; eu estava sem roupa, e me vestiram; eu estava doente, e cuidaram de mim; eu estava na prisão, e vocês foram me visitar” (Mt 25, 35-36).
Percebe-se que são práticas humanas simples, mas fundamentais, e realizadas a partir da fé podem render bons frutos. Muitos já realizavam tais práticas sem a pretensão de serem premiados, mas o faziam porque tinham uma consciência humana, sem esperar recompensa. Grande a supressa quando Jesus mostrou que essas práticas são preciosas aos olhos de Deus. Que nesses gestos Deus se faz presente.
A acolhida pode ser uma profunda expressão de humanidade, por isso foi elevada na qualidade de preceito. Todos os que se alimentam da fé, além de se comportarem como seres humanos, são chamados a amar Deus acolhendo o outro. A acolhida é ocasião para receber Deus na casa e na vida e oportunizar que a bênção tenha possibilidade de se manifestar sobre os que são capazes de acolher. Acolher é um gesto humano, acolher é um gesto que nos lembra de Deus, porque Deus costuma se esconder em cada gesto de encontro e de acolhida. Abraão acolheu Deus, sem saber, nos três peregrinos. Jesus exalta aos que são capazes de acolher dizendo que ele próprio foi um migrante que encontrou acolhida.
A Palavra de Deus é um convite para a prática de gestos humanos, que de tão humanos ultrapassam a humanidade, como é o caso da acolhida, revelando o próprio Deus de Amor.
Texto: Oscar Ruben López Maldonado.
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