
A acolhida é cultura, é humanidade e é religiosidade. Reconhecer o outro como um irmão nos humaniza a todos. Jesus Cristo valorizou a acolhida e por isso a ressaltou como caminho de perfeição. A Igreja a assumiu como projeto e, São João Batista Scalabrini, em nome da Igreja, fundou duas congregações cujos carismas é a acolhida.
O bispo Scalabrini passava perto da estação ferroviária de Milão e ali viu uma multidão de migrantes abandonada à própria sorte. Como aquele ferido da história contada por Jesus na parábola do Bom Samaritano. Mas o bispo, diferentemente do sacerdote e do levita, viu, teve compaixão, e desde então nunca mais deixou de agir para acompanhar, proteger e fortalecer os migrantes.
O termo carisma significa “graça”, “favor” ou “benevolência”, de modo que ela é a graça, o favor e a benevolência de Deus para com seus filhos. São João Batista Scalabrini (funda a Congregação em 28 de novembro de 1887) percebeu que a urgência do seu tempo exigia que a benevolência de Deus acompanhasse os milhares de imigrantes italianos pelos caminhos das Américas. De fato, seus primeiros missionários foram enviados aos Estados Unidos e ao Brasil.
São João Batista Scalabrini, entregando a cruz missionária aos seus enviados, pedia que acompanhassem, protegessem e promovessem os migrantes em nome de Deus. O que significava na prática que deviam “ser migrantes com os migrantes”. Assim o fizeram, realizaram o mesmo trajeto, abarrotados, mais de 20 dias nos navios, enfrentado perigos. E quando chegaram na missão, tiveram de começar tudo do zero, sendo construtores, professores, enfermeiros, diretores espirituais, animadores de comunidades etc.
São João Batista Scalabrini sabia que o desafio da imigração ultrapassava completamente as forças de seus missionários. Havia necessidade em forma de gritos provenientes de todos os lugares. “Aqui a gente vive e morre como animais”, diziam os apelos sintetizando os gritos dos imigrantes. Sem desanimar, Dom Scalabrini, continuou trabalhando na confiança plena no Deus da vida, que acharia o modo de não desamparar seus filhos. São João Batista Scalabrini expressa assim a sua confiança: “Onde está o povo que trabalha e sofre, ali está a Igreja. E a Igreja é mãe, amiga e padroeira do povo.”
Em pleno século XXI ressoam ecos daquele tempo em milhares de migrantes pelo mundo inteiro, que da mesma forma seguem gritando por dignidade. A mobilidade humana, na sua pluralidade, migrações, fronteiras, refugiados, trabalhadores do mar etc., continua desafiando. E o carisma (o olhar de Deus para seus filhos e filhas) assumido por Scalabrini, continua atual e urgente através dos Scalabrinianos, nos pequenos espaços de testemunhos: paróquias, casas de acolhida, nas fronteiras, nas missões, procurando conjugar a dignidade integral dessas pessoas, alimentados pela fé, acolhendo, protegendo e promovendo em nome de Jesus.
A mobilidade humana é um campo imenso, e os Scalabrinianos sabem que não conseguirão resolver todos os problemas, mas confiando em Deus, procuram ser um pequeno e frágil sinal de humanidade, de fé, de ânimo para os migrantes, convidando, desse modo, a toda a Igreja a somar forças em comunhão deste carisma compartilhado com as Missionárias de São Carlos, as Seculares Scalabrinianas, com os leigos e leigas Scalabrinianos e com todos os que se abrem para a acolhida, para todos os que, como o Bom Samaritano, reconhecem no outro um irmão ou uma irmã.
Texto: Oscar Ruben López Maldonado.
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