Dia Mundial de Oração e Reflexão contra o Tráfico de Pessoas: fé, dignidade humana e compromisso com a liberdade

Celebrado anualmente em 8 de fevereiro, o Dia Mundial de Oração e Reflexão contra o Tráfico de Pessoas convida a Igreja e a sociedade a voltarem o olhar para uma das mais graves violações da dignidade humana no mundo contemporâneo. Instituída pelo Papa Francisco em 2014, a data coincide com a memória litúrgica de Santa Josefina Bakhita, mulher africana que experimentou na própria carne a dor da escravidão e se tornou, na fé cristã, um sinal vivo de esperança, libertação e reconciliação.

Este dia se configura como um chamado à consciência e à ação. O tráfico de pessoas, descrito pelo Papa Francisco como “O tráfico de seres humanos é uma ferida no corpo da humanidade contemporânea, uma chaga na carne de Cristo. Trata-se de um delito contra a humanidade” (Discurso do Papa Francisco aos participantes no Encontro sobreo Tráfico de Pessoas, 10 de abril de 2014), manifesta-se como um sistema de coação, engano e deslocamento que submete pessoas a condições de exploração e abuso, restringindo sua liberdade por meio de violência, ameaças e controle psicológico, e negando-lhes a dignidade e o direito de viver em segurança.

A dignidade humana no coração da missão da Igreja

A realidade concreta do tráfico humano atinge milhões de pessoas no mundo e revela vulnerabilidades específicas: mulheres e meninas representam cerca de 72% das vítimas identificadas e, globalmente, uma em cada três vítimas é criança, segundo dados da UNODC (2020). As finalidades da exploração são diversas: de exploração sexual e trabalho forçado a situações de casamentos forçados, mendicância, adoções ilegais e tráfico de órgãos. Ainda de acordo com o estudo, esse crime se sustenta em contextos de desigualdade socioeconômica, migração insegura e políticas excludentes que empurram pessoas para rotas perigosas.

A reflexão da Igreja sobre a dignidade da pessoa humana encontra um de seus pilares na Constituição Pastoral Gaudium et Spes, do Concílio Vaticano II, promulgada por São Paulo VI em 1965. O documento afirma que “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo”.

À luz dessa visão, o combate ao tráfico de pessoas não é apenas uma questão social ou jurídica, mas uma exigência profundamente evangélica. Cada ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus, possui uma dignidade inalienável que não pode ser reduzida a mercadoria, força de trabalho descartável ou objeto de exploração.

Santa Josefina Bakhita: da escravidão à liberdade em Cristo

Nascida por volta de 1869, no Sudão, Josefina Bakhita foi sequestrada ainda criança por traficantes de escravos. Submetida a anos de violência, humilhações e maus-tratos, percorreu diferentes mercados de escravidão até ser comprada por um diplomata italiano, que a levou para a Europa.

Na Itália, Bakhita teve contato com a fé cristã e, ao descobrir um Deus que a amava e a chamava pelo nome, encontrou um sentido novo para sua própria história. Em 1896, ingressou na Congregação das Irmãs Canossianas e, como religiosa, dedicou sua vida ao serviço, à humildade e ao testemunho silencioso de que a verdadeira liberdade nasce do encontro com Cristo.

Canonizada em 2000 por São João Paulo II, Santa Josefina Bakhita tornou-se padroeira das vítimas do tráfico humano. Sua história ecoa, ainda hoje, na vida de milhares de pessoas que continuam sendo exploradas em diferentes partes do mundo.

Fraternidade, cuidado e justiça social

O impacto humano do tráfico é profundo e duradouro: danos emocionais e psicológicos, riscos à integridade física, criminalização e deportação, dificuldades de reintegração social e a chamada “escravidão econômica”, quando vítimas são forçadas a pagar dívidas impostas por traficantes. Essas feridas evidenciam a urgência de respostas que integrem proteção, acolhida e restauração da autonomia.

Nas Cartas Encíclicas Laudato Si’ e Fratelli Tutti, o Papa Francisco amplia o horizonte da reflexão cristã ao relacionar a crise socioambiental e a cultura do descarte com as múltiplas formas de exploração humana. Em Laudato Si’, o Pontífice recorda que tudo está interligado: a degradação do meio ambiente, a pobreza e a violação dos direitos humanos fazem parte de uma mesma lógica que prioriza o lucro em detrimento da vida.

Já na Encíclica Fratelli Tutti, o Papa propõe a fraternidade e a amizade social como caminhos para a construção de um mundo mais justo. O tráfico de pessoas, nesse sentido, revela o colapso das relações humanas quando o outro deixa de ser reconhecido como irmão e passa a ser visto como meio para fins econômicos ou criminosos.

Evangelização que se faz compromisso

Na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, o Papa Francisco reafirma que a evangelização não pode se dissociar da promoção humana. Anunciar o Evangelho implica, necessariamente, denunciar tudo aquilo que fere a dignidade da pessoa e comprometer-se com a transformação das estruturas de pecado que geram exclusão, violência e exploração.

É nessa perspectiva que a Igreja compreende sua missão junto às vítimas do tráfico de pessoas: acolher, proteger, promover e integrar. Esses quatro verbos, frequentemente destacados pelo Magistério, expressam uma pastoral que não se limita à assistência imediata, mas busca a reconstrução da vida, da autonomia e da esperança.

Diretrizes pastorais e a atuação junto aos migrantes

As causas sistêmicas do tráfico incluem a desigualdade de poder entre homens e mulheres, a cultura de objetificação e um modelo econômico que prioriza o lucro em detrimento dos direitos humanos. Estimativas da OIT indicam que o tráfico humano figura entre os negócios ilegais mais lucrativos do mundo, com receitas globais na casa das centenas de bilhões de dólares por ano, grande parte vinculada à exploração sexual. A redução de vias legais e seguras de migração, aliada a retóricas de racismo e xenofobia, aumenta a invisibilidade das vítimas e dificulta a responsabilização criminal.

As Diretrizes Pastorais sobre o Tráfico de Pessoas, elaboradas pela Seção de Migrantes e Refugiados do Dicastério para a Promoção do Desenvolvimento Humano Integral, reforçam a necessidade de uma ação articulada entre Igreja, sociedade civil e organismos públicos. O documento destaca a importância da prevenção, da formação das comunidades e da criação de redes de proteção capazes de identificar situações de risco e oferecer respostas concretas às vítimas.

A atuação dos Missionários de São Carlos em defesa das vítimas de tráfico humano

Ainda em seu tempo, São João Batista Scalabrini afirmou que “(...) os direitos do homem são inalienáveis”. Este pensamento é um eixo espiritual e pastoral que sustenta a missão dos Missionários de São Carlos – Scalabrinianos junto às pessoas em mobilidade humana. Diante da chaga do tráfico de pessoas, essa convicção se traduz em presença concreta, proximidade pastoral e compromisso institucional com a vida, a liberdade e o futuro dos mais vulneráveis.

À luz dessa herança, a atuação scalabriniana compreende o migrante, o refugiado e a vítima do tráfico não como números em estatísticas globais, mas como rostos, histórias e vocações. Defender a inalienabilidade dos direitos humanos significa afirmar que ninguém pode ser reduzido a produto, força de trabalho descartável ou objeto de exploração.

Essa visão encontra expressão concreta na ação em rede. Como recorda o Pe. Márcio Toniazzo, Diretor Executivo da Scalabrini International Migration Network (SIMN), em sintonia com as Nações Unidas, o enfrentamento ao tráfico de pessoas se estrutura em quatro verbos fundamentais: prevenir, proteger, promover e perseguir. A persecução cabe ao Estado; já a prevenção e a proteção constituem campos privilegiados da missão eclesial e da atuação da Rede SIMN.

No cotidiano da Congregação, esses verbos ganham corpo em iniciativas que começam antes mesmo da partida dos migrantes, com a orientação para projetos migratórios seguros, passam pelo acolhimento das vítimas em estruturas de proteção e se estendem à promoção da autonomia, por meio de acompanhamento psicológico, formação profissional e orientação pastoral, favorecendo a reinserção social e econômica.

Esse compromisso, não raro, implica riscos. Como explica Pe. Márcio, há missionários que enfrentam ameaças por proteger migrantes e denunciar redes de exploração, sinal eloquente da seriedade e da coragem que marcam esse serviço eclesial. Ao mesmo tempo, a missão se abre ao horizonte da esperança. Em Uganda, por exemplo, projetos da Congregação junto a jovens em situação de vulnerabilidade oferecem educação e alternativas à reincidência em conflitos armados. Ali, muitos sonham em tornar-se médicos, professores e advogados para reconstruir seus países em paz, sonhos que se tornam, nas palavras do próprio Diretor Executivo da Rede SIMN, um antídoto contra o tráfico e a exploração.

Assim, ao proclamar que os direitos do homem são inalienáveis, a espiritualidade scalabriniana se traduz em uma pastoral que acompanha, defende e promove a vida em movimento. No Dia Mundial de Oração e Reflexão contra o Tráfico de Pessoas, essa herança se renova como um chamado a unir fé e ação, contemplação e compromisso, para que nenhuma pessoa em mobilidade seja deixada à margem da história, da proteção e da esperança.


Texto: Vitor da Cruz Azevedo, setor de conteúdo do Departamento Regional de Comunicação.

Foto: Adobe Stock.

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