
A Campanha da Fraternidade nasceu em 1962, em Nísia Floresta, Rio Grande do Norte, Brasil, por iniciativa de Dom Eugênio de Araújo Sales. À época bispo auxiliar de Natal e responsável pelo Secretariado Nacional de Ação Social, o sacerdote buscava uma forma de garantir sustentabilidade à Caritas Brasileira e fortalecer a ação sociocaritativa da Igreja com recursos próprios.
A inspiração não surgiu no vazio. Experiências como a mobilização da Juventude Agrária Católica durante a seca de 1958, o Movimento de Educação de Base (MEB), o Serviço de Assistência Rural (SAR) e a pedagogia popular desenvolvida no interior potiguar revelavam que evangelização e transformação social caminham juntas. Também a experiência da campanha Misereor, obra episcopal da Igreja Católica na Alemanha, contribuiu para moldar a proposta brasileira.
Desde o início, a Campanha da Fraternidade foi concebida como uma ação ampla, em tempo determinado, com arrecadação financeira, mas com um objetivo muito maior do que a coleta: promover a fraternidade cristã e sustentar a dignidade da pessoa humana. Fraternidade é seu foco permanente; o tema anual apenas mostra onde essa fraternidade está ferida e pede caridade.
Em 1963, reunidos em Roma durante o Concílio Vaticano II, os bispos brasileiros decidiram assumir a iniciativa em âmbito nacional. Coube a Dom Helder Camara, então secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, enviar a circular que oficializou a Campanha como ação comum da Igreja no Brasil. Em 1964, já sob coordenação da CNBB e da Caritas, realizou-se a primeira Campanha da Fraternidade.
Ao longo de mais de seis décadas, a natureza da Campanha tornou-se cada vez mais clara: trata-se de uma grande mobilização evangelizadora realizada na Quaresma, com três objetivos permanentes consolidados:
Despertar o espírito comunitário e cristão na busca do bem comum;
Educar para a vida em fraternidade;
Renovar a consciência da responsabilidade de todos na ação evangelizadora em vista de uma sociedade justa e solidária.
A Coleta Nacional da Solidariedade, realizada no Domingo de Ramos, permanece como gesto concreto dessa proposta. Do total arrecadado, 60% permanecem nas dioceses, compondo os Fundos Diocesanos de Solidariedade; 40% são destinados ao Fundo Nacional de Solidariedade, que apoia projetos sociais em todo o país. A contribuição, porém, não é mero ato financeiro: ela deve ser fruto de consciência formada e conversão autêntica.
Fraternidade e Moradia
Em 2026, a Campanha propõe o tema “Fraternidade e Moradia”, com o lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14).
A escolha evidencia uma das mais graves expressões da desigualdade social brasileira: o déficit habitacional, a precariedade das moradias, a expansão de favelas e ocupações, o crescimento da população em situação de rua e a ausência de políticas públicas suficientes para garantir o direito constitucional à habitação.
A moradia é apresentada não apenas como abrigo físico, mas como condição básica para o exercício de outros direitos: saúde, educação, trabalho e convivência familiar. A falta de casa é sinal e síntese de múltiplas insuficiências econômicas, sociais e culturais.
O texto-base recorda que a Quaresma é tempo de conversão não apenas individual, mas também comunitária e social, conforme ensina o Concílio Vaticano II. O pecado tem consequências estruturais; por isso, a penitência deve assumir também dimensão pública. A Campanha, inserida nesse tempo litúrgico, torna-se proposta concreta de transformação.
O método adotado (ver, iluminar e agir) conduz o processo:
Ver, com realismo, a situação da moradia no Brasil;
Iluminar, à luz da Palavra de Deus, da Tradição e do Magistério;
Agir, propondo caminhos concretos de compromisso cristão.
O lema “Ele veio morar entre nós” remete ao mistério da Encarnação. Deus não permaneceu distante das fragilidades humanas; fez da história sua morada. À luz desse mistério, torna-se impossível ignorar irmãos e irmãs privados de um teto.
A convergência com o carisma scalabriniano
O tema da moradia dialoga diretamente com o carisma adotado por São João Batista Scalabrini. No final do século XIX, ao contemplar o drama dos migrantes italianos, o então Bispo de Piacenza, na Itália, compreendeu que a mobilidade humana não era apenas deslocamento geográfico, mas experiência concreta de vulnerabilidade: ruptura de vínculos, exploração no trabalho e, não raramente, ausência de moradia digna.
Mais de um século depois, esse mesmo carisma se expandiu para outras nacionalidades, dando espaço também para outras realidades migratórias. Quando olhamos para o cenário do Brasil, os números brasileiros revelam a atualidade dessa percepção.
Segundo um estudo da Fundação João Pinheiro, publicado em 24 de abril de 2024, o Brasil possui um déficit superior a 6 milhões de moradias. Esse número considera famílias que vivem em coabitação forçada, em habitações precárias, em imóveis improvisados ou que comprometem parcela excessiva da renda com aluguel.
Além do déficit quantitativo, existe a chamada inadequação habitacional, que, de acordo com a pesquisa Déficit Habitacional do Brasil, divulgada em 07 de maio de 2024, atinge mais de 25 milhões de domicílios no país. São casas sem saneamento básico adequado, sem regularização fundiária, sem acesso pleno a infraestrutura urbana ou localizadas em áreas de risco.
Levantamentos do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua, da Universidade Federal de Minas Gerais (OBPopRua/UFMG), indicam que o número de pessoas em situação de rua no país ultrapassou 327 mil em 2024, um aumento de cerca de 25% em relação ao ano anterior. Estimativas mais recentes apontam que essa população ultrapassou 350 mil pessoas, com concentração maior no Sudeste.
Quando olhamos para o fenômeno migratório, o cenário torna-se ainda mais sensível. Migrantes internos e internacionais frequentemente ocupam moradias superlotadas ou áreas periféricas com infraestrutura insuficiente. A dificuldade de acesso a emprego formal e a documentação regular impacta diretamente o acesso à moradia digna.
Para o migrante, o refugiado ou o marítimo, a casa não é apenas abrigo físico. Ela representa reconstrução de identidade, proteção da família, inserção social e possibilidade de futuro. Sem moradia estável, aumentam os riscos de exploração laboral, evasão escolar de crianças, insegurança alimentar e marginalização.
É precisamente nesse ponto que a Campanha da Fraternidade 2026 encontra profunda convergência com a missão da Congregação dos Missionários de São Carlos - Scalabrinianos. Defender o direito à moradia significa, na prática, defender o direito do migrante de reconstruir a própria vida com dignidade. A tradição da Igreja reconhece a moradia como expressão concreta do princípio da dignidade da pessoa humana e da destinação universal dos bens. A casa é condição para o exercício de outros direitos fundamentais: saúde, educação, trabalho e convivência familiar.
Assim, ao propor o tema “Fraternidade e Moradia”, a Igreja no Brasil não trata de uma pauta circunstancial, mas de uma questão estrutural que atravessa economia, política urbana, justiça social e pastoral. Unindo memória histórica, dados concretos e profundidade teológica, a Campanha reafirma que a evangelização não se reduz ao discurso. Ela exige transformação das realidades que negam dignidade.
Se Cristo veio morar entre nós, a fé cristã nos impede de naturalizar que milhões não tenham onde morar. Fraternidade, neste contexto, não é conceito abstrato, é responsabilidade e compromisso missionário.
Texto: Vitor da Cruz Azevedo, setor de conteúdo do Departamento Regional de Comunicação.
Foto: Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).




