Santidade no Cotidiano: A Vocação dos Leigos

Estamos chegando ao final do mês vocacional, tempo especial em que a Igreja dedica cada domingo a uma vocação específica. Já refletimos sobre a vocação ao ministério ordenado, a vocação familiar e sobre a vida religiosa consagrada. Agora, no 4º domingo de agosto, voltamos o olhar para a vocação dos leigos, homens e mulheres que, vivendo no mundo, são chamados a transformar a realidade à luz do Evangelho.

A dignidade do chamado leigo

A vocação laical não é “menor” ou “secundária” em relação às demais. Pelo contrário, é essencial para a missão da Igreja. O Concílio Vaticano II ensina que:

“Por leigos entendem-se aqui todos os cristãos que não são membros da sagrada Ordem ou do estado religioso reconhecido pela Igreja, isto é, os fiéis que, incorporados em Cristo pelo Batismo, constituídos em Povo de Deus e tornados participantes, a seu modo, da função sacerdotal, profética e real de Cristo, exercem, pela parte que lhes toca, a missão de todo o Povo cristão na Igreja se no mundo.” (Lumen Gentium, 31)

Isso significa que o batismo confere a cada fiel leigo a missão de santificar o mundo de dentro para fora, como fermento (Mt 13,33).

A vocação leiga na Sagrada Escritura

Desde o início, Deus chama homens e mulheres comuns a participarem de sua obra. No Antigo Testamento, vemos exemplos como José, filho de Jacó, que administrou o Egito (Gn 41), ou Ester, que intercedeu pelo povo de Israel (Est 4). No Novo Testamento, os primeiros cristãos, mesmo sem abandonar seus trabalhos e famílias, testemunhavam Cristo na sociedade (At 2, 42-47).

São Paulo lembra que todos formamos um só corpo em Cristo, mas com diferentes membros e funções “Ora, vocês são o corpo de Cristo, e cada um de vocês, individualmente, é membro desse corpo.” (1Cor 12, 27). O leigo tem, portanto, um lugar insubstituível no Corpo Místico da Igreja.

Missão no mundo

O Catecismo da Igreja Católica afirma que: “A iniciativa dos cristãos leigos é particularmente necessária quando se trata de descobrir, de inventar meios para impregnar, com as exigências da doutrina e da vida cristã, as realidades sociais, políticas e econômicas.” (899)

A missão própria do leigo é ordenar as realidades temporais segundo o coração de Deus:

  • Na família, como primeiros educadores da fé;
  • No trabalho, vivendo a justiça e a ética cristão;
  • Na política, buscando o bem comum e a dignidade da pessoa humana;
  • Na cultura, levando a beleza do Evangelho às artes, à ciência e à vida social.

São João Batista Scalabrini, enquanto Bispo de Piacenza, sempre buscou integrar o elemento leigo em suas iniciativas. De acordo com o Santo Fundador da Congregação dos Missionários de São Carlos – Scalabrinianos, os leigos também devem ser apóstolos “(...) podeis, vós, embora leigos, exercer, no pequeno mundo que vos circunda, o apostolado da palavra, usando uma linguagem que edifique, nas conversas, nas instruções, no corrigir.”

Santidade no contidiano

São João Paulo II recordava que os leigos são chamados à “santidade no cotidiano”, transformando as pequenas coisas em caminho de salvação (Christifideles Laici, 17). Ser leigo é descobrir que cada gesto, quando unido a Cristo, se torna parte da construção do Reino.

O Pai dos Migrantes também refletia sobre esse chamado universal à santidade. Para ele, o caminho de santificação não passa por dons extraordinários ou fenômenos místicos, mas pela vivência fiel dos deveres de cada dia:

“O que formou os Santos mais ilustres, o que a Igreja reconhece, não foram os dons extraordinários, as aparências luminosas, os grandes milagres, as visões, os êxtases. Foi aquela fidelidade, aquela exatidão, com que cumpriram constantemente os deveres de seu estado os cumpriram por causa de Deus.”

Portanto, o caminho à santidade para os leigos não se realiza através de coisas grandiosas ou incomuns, mas na virtude que floresce no ordinário: humildade, mansidão, bondade, caridade para com o próximo e amor total a Deus. É na vida cotidiana, na família, no trabalho, na comunidade, que o leigo é chamado a viver o Evangelho em plenitude.

Um chamado atual e urgente

No mundo de hoje, marcado pela indiferença e pelo secularismo, o testemunho dos leigos é indispensável. Papa Francisco, em sua catequese de 20 de novembro de 2024, enfatizou que os leigos não podem ser considerados cristãos de “segunda categoria”, nem auxiliares do clero, mas membros vivos e corresponsáveis na missão da Igreja:

“Os leigos não são os últimos, não são uma espécie de colaboradores externos, nem ‘tropas auxiliares’ do clero. Não! Têm carismas e dons próprios, com os quais contribuem para a missão da Igreja. (…) Não há cristãos de segunda classe. Cada um tem o seu carisma pessoal e até comunitário, e todos são chamados a colocá-lo a serviço do bem comum.”

O Sumo Pontífice destacou ainda que os carismas não devem ser confundidos apenas com dons extraordinários, mas que, em sua maioria, são simples e ordinários, adquirindo valor extraordinário quando vividos no Espírito Santo e com amor no cotidiano.

Essa consciência renova a vida e a missão da Igreja, pois mostra que todo batizado é protagonista na evangelização, chamado a servir e edificar a comunidade com os dons que recebeu de Deus.

Rezemos pelas vocações leigas

Neste 4º Domingo de Agosto, a Igreja recorda: cada leigo tem um lugar insubstituível na missão de Cristo. Sua vida, vivida na fé, torna-se sal da terra e luz do mundo (Mt 5,13-16).

Que a Virgem Maria, modelo de fé e serviço laical, ensine-nos a viver nossa vocação no ordinário da vida, com o extraordinário da graça divina.


Texto: Vitor da Cruz Azevedo, setor de conteúdo do Departamento Regional de Comunicação.

Foto: Arquivo Regional.

Nós utilizamos cookies para aprimorar e personalizar a sua experiência em nosso site. Ao continuar navegando, você concorda em contribuir para os dados estatísticos de melhoria.

Concordo