
O que significa, afinal, ser santo?
Para muitos, a palavra ainda remete a figuras distantes, representadas nos altares, cujas vidas parecem pertencer a uma realidade muito diferente da nossa. Pensamos em grandes milagres, martírios e feitos extraordinários. Mas será que a santidade está reservada àqueles que realizaram obras excepcionais ou existe um caminho possível para quem vive as preocupações, as responsabilidades e os desafios de cada dia?
A Solenidade de Todos os Santos oferece uma resposta que ultrapassa a simples recordação daqueles que a Igreja reconhece oficialmente como santos. A celebração contempla também a multidão incontável de homens e mulheres que viveram na fidelidade a Deus e agora participam da glória celeste, como anuncia o livro do Apocalipse: “Vi uma grande multidão que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas” (Ap 7,9).
Essa multidão nos recorda que a santidade não pertence a uma época, a uma cultura ou a uma condição social. Ela é fruto da graça divina acolhida por pessoas concretas, com suas histórias, limitações e circunstâncias. Mais do que admirar os santos, somos convidados a compreender o que suas vidas revelam sobre o próprio Deus e sobre o destino para o qual fomos criados.
Uma vocação que nasce do encontro com Cristo
A santidade não começa com a tentativa de realizar grandes feitos, mas com a resposta ao amor de Deus. Pelo Batismo, somos incorporados a Cristo e chamados a participar de sua vida. Essa graça inaugura um caminho de conversão, no qual toda a existência é progressivamente orientada pelo Evangelho.
O Concílio Vaticano II, na Constituição Dogmática Lumen gentium, afirma com clareza: “É claro a todos, que os cristãos de qualquer estado ou ordem, são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade.” (n. 40). Não há, portanto, uma categoria de cristãos vocacionada à santidade e outra dispensada dela. A diferença está na maneira como cada pessoa responde a esse chamado nas circunstâncias particulares de sua vida.
O Catecismo da Igreja Católica reforça essa compreensão ao ensinar que os cristãos “(...) são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição” (CIC, n. 2013). Essa plenitude não significa ausência de fragilidades, mas uma vida que, sustentada pela graça, aprende a amar como Cristo amou.
Na Exortação Apostólica Gaudete et exsultate, o Papa Francisco recorda que a santidade se desenvolve nas condições concretas da existência: “Todos somos chamados a ser santos, vivendo com amor e oferecendo o próprio testemunho nas ocupações de cada dia.” (n. 14).
Essa afirmação muda a maneira de olhar para a própria vida. A família, o trabalho, os estudos, as responsabilidades profissionais e o serviço à comunidade deixam de ser realidades separadas da experiência de fé. São, ao contrário, lugares onde o cristão pode aprender a amar, exercitar as virtudes e permitir que Deus transforme suas atitudes. A santidade não exige que todos façam as mesmas coisas, mas que cada um viva sua vocação em união com Cristo.
“Vivamos cristãmente e seremos santos”
Essa compreensão encontra uma expressão particularmente significativa nos escritos de São João Batista Scalabrini. Ao refletir sobre a santidade, ele procurava desfazer a ideia de que somente pessoas dotadas de dons extraordinários poderiam alcançar a perfeição cristã.
“Acredita-se, facilmente, que, para chegar à santidade, é necessário distinguir-se por dons extraordinários e tornar-se singulares por ações luminosas”, observava Scalabrini. Em seguida, esclarecia que não era necessário realizar prodígios ou possuir capacidades excepcionais. Para ele, o caminho passava pela fidelidade à lei de Deus e pelo cumprimento dos deveres próprios de cada estado de vida. A conclusão oferecida pelo santo é simples: “Não são os milagres, os dons extraordinários, que fazem os Santos, e os maiores Santos, mas a virtude”.
Ao recordar aqueles que permaneceram no ambiente da vida doméstica, sem reconhecimento público, Scalabrini destacava que também ali era possível alcançar a santidade, quando as ocupações ordinárias eram realizadas com reta intenção e por amor a Deus. Por isso, sintetizou sua reflexão em uma frase que atravessa o tempo: “Vivamos cristãmente e seremos Santos”.
Essa perspectiva não diminui a exigência do Evangelho. Pelo contrário, revela que a santidade exige uma transformação profunda, que alcança não apenas as grandes decisões, mas também as intenções, as palavras e os pequenos gestos. Ser santo pode significar escolher a verdade quando a mentira parece mais conveniente, perdoar quando o orgulho grita por distância, agir com justiça quando ninguém está observando ou permanecer fiel ao bem mesmo quando não há reconhecimento.
Scalabrini, porém, não atribuía essa transformação exclusivamente à força de vontade humana. Ao afirmar que “os Santos são prodígios da graça de Deus”, reconhecia que a santidade é, antes de tudo, obra divina. É Deus quem renova o coração humano, sem anular sua liberdade, e o capacita a vencer o egoísmo para viver segundo Cristo. O esforço pessoal é necessário, mas a fonte da santidade permanece na graça que o Senhor oferece e na resposta livre de quem a acolhe.
A santidade pode ser encontrada no próximo
A vida de São João Batista Scalabrini também ajuda a compreender que a santidade não pode ser reduzida a uma experiência individual, limitada à relação privada entre a pessoa e Deus. Sua preocupação com os migrantes, especialmente com aqueles que partiam da Itália em condições difíceis, manifesta uma fé que se traduzia em responsabilidade concreta diante do sofrimento humano.
Essa dimensão encontra fundamento nas próprias palavras de Jesus: “Era migrante e me acolhestes” (Mt 25,35). No Evangelho de São Mateus, o Senhor identifica-se com os famintos, os estrangeiros, os enfermos e aqueles que necessitam de cuidado. A caridade para com o próximo não aparece como um complemento opcional da vida cristã, mas como expressão concreta do amor a Deus.
A esse respeito, a Gaudete et exsultate recorda que a santidade está inseparavelmente ligada ao reconhecimento de Cristo nos mais necessitados (n. 95-96). A oração, a participação na Eucaristia e a vida sacramental alimentam a comunhão com Deus; essa comunhão, por sua vez, deve produzir frutos de misericórdia e justiça.
O horizonte de esperança da Solenidade de Todos os Santos
Ao contemplar a Solenidade de Todos os Santos, a Igreja não nos apresenta heróis inalcançáveis, mas testemunhas de que a graça divina pode transformar vidas reais. Homens e mulheres que conheceram dificuldades, enfrentaram provações e, cada um à sua maneira, perseveraram no caminho de Cristo. Sua memória sustenta a esperança de que a santidade também é possível em nosso tempo.
Scalabrini expressava essa confiança ao perguntar: “Um grande número de pessoas se tornaram santos antes de nós. O que eles fizeram, por que não podemos nós também fazer?”. A pergunta não convida à comparação, mas à confiança naquele que chama e sustenta seus filhos.
Celebrar a Solenidade de Todos os Santos é, assim, reconhecer que fomos criados para a comunhão com Deus e que essa vocação começa a tomar forma nas escolhas de hoje. Não sabemos quais serão os acontecimentos extraordinários de nossa história, mas sabemos que podemos responder ao Senhor nas responsabilidades que já nos foram confiadas.
Talvez a santidade comece justamente quando deixamos de esperar circunstâncias perfeitas para amar, servir e fazer o bem. Quando compreendemos que o caminho para o céu passa também pela maneira como cuidamos da família, exercemos nossa profissão, participamos da comunidade e acolhemos quem necessita de ajuda.
Afinal, a pergunta que a Solenidade de Todos os Santos deixa diante de nós não é se seremos capazes de realizar grandes feitos, mas se permitiremos que Deus transforme nossa vida. Porque a santidade não consiste em parecer extraordinário aos olhos do mundo, mas em aprender, pela graça, a viver cada vez mais unidos a Cristo. E, como nos recorda São João Batista Scalabrini, esse caminho começa na fidelidade concreta de quem decide viver cristãmente.
Texto: Vitor da Cruz Azevedo, setor de conteúdo do Departamento Regional de Comunicação.
Foto: Adobe Stock.




