Caravaggio: Maria, a Mãe que nos cativou!

1. Convidado pelo vosso digníssimo Pároco a dizer-vos algumas palavras sobre Maria, falar-vos-ei de acordo com o que me ditará o coração.

Se, na alegria do meu espírito, me pergunto qual é o motivo da vossa numerosa afluência, da vossa piedosa procissão que vi com emoção, do júbilo sereno que brilha em vosso semblante, dessa religiosa piedade que vos anima, eu sinto ressoar em tudo o que nos circunda o nome de uma Mãe divina; vejo uma multidão de filhos que me apontam a venerada imagem daquela que os anjos saúdam como sua rainha e os homens proclamam como sua alegria e glória do novo Israel. Tu, a glória de Jerusalém, tu, a honra do nosso povo!

Maria Santíssima, Mãe de Deus e Mãe nossa! Eis a criatura que, aparecendo no mundo envolta em luz divina, cativou as mais sublimes inteligências e atraiu todos os corações. Eis a Mãe dos homens que, elevada sobre um trono glorioso, enfeitado para ela com coroas colhidas entre as mais esplêndidas, com o amor, a arte, as bênçãos dos povos, é carregada em triunfo eterno através das vicissitudes e quedas dos impérios e das gerações humanas! E eis a causa da alegria comum, ó meus caros ouvintes.

2. Este ano todo o mundo se move e se comove em torno de Maria: é fé, é alegria, é entusiasmo. Um grito impossível de conter, imenso, irresistível prorrompe de todos os peitos, ressoa concorde em todas as línguas, repercute em todas as partes da terra: Viva Maria! É este grito que se repete hoje, se repetirá amanhã, se repetirá sempre, até o fim do mundo.

Nenhum grito, ó meus amados irmãos, é mais afetuoso, mais santo, mais oportuno; porque, não obstante as zombarias do incrédulo e os sorrisos de desdém do ímpio, a verdadeira devoção a Maria testemunha algumas grandes e solenes verdades e dessa maneira oferece um remédio mais eficaz, sempre que a maldade humana não o recuse, para as grandes chagas do nosso tempo.

E quais são essas chagas? Um racionalismo orgulhoso de diferentes seitas, que nega o pecado original, exalta excessivamente as forças do homem e faz de si mesmo o critério da verdade, a norma do bem e a fonte de toda a felicidade humana, eis o erro capital da nossa época.

Um crasso materialismo, que não faz caso da consciência e da honra, que não busca senão gozar e enriquecer-se: enriquecer-se como meio e gozar como fim, eis o vício capital da nossa idade.

A volta a Jesus Cristo, o único Salvador do mundo, o caminho, a verdade, a vida das almas, eis a suprema necessidade dos nossos tempos.

Mas, como satisfazer esta necessidade, como destruir este vício, dissipar este erro? Elevemos, meus irmãos queridos, elevemos a sagrada imagem de Maria, e nela, como que fixando o nosso olhar num raio de uma estrela amiga, encontraremos a humildade da mente, a dignidade do coração, a obediência amorosa a Jesus Cristo.

Em seus privilégios muito singulares, reconheceremos a condição infeliz e a corrupção original dos pobres filhos de Adão; na pureza, na candura’ na celeste beleza da sua alma, veremos o aviltamento de um coração ávido e sensual; no milagre das suas divinas grandezas, a necessidade e os benefícios de um Deus Redentor.

3. Quando se fala de Maria, a alma se eleva aos pensamentos alegres o coração palpita em doces emoções, um raio de esperança brilha sobre a fronte novamente serena. Na presença desta excelsa senhora, linda como o paraíso, que com materna ternura nos estende os braços e nos convida ao seu coração, quem não se sente confortado? Quem se recusa a lançar-se entre seus braços, como a criança ao colo de sua mãe?

Não existe coisa alguma, por quanto grande e desejável, que não possamos esperar dela. Jamais ela se deixa vencer em generosidade. Encontram se junto a mim, ela nos diz, todos os tesouros das riquezas celestes, para que eu os dê a quem me honra e me ama: “Estão comigo as riquezas para que torne ricos os que me amam”.

Honrar a Virgem é o mesmo que assegurar-se seu patrocínio, impetrar suas graças para a Igreja, apressar o seu triunfo.

4. Sim, sim, nos grita com um tom cheio de misteriosa confiança o doce, forte, suavíssimo Pontífice Pio X.

Pode rugir a tempestade, o céu pode cobrir-se novamente de nuvens, diz ele, mas ninguém se assuste. Se olharmos para Maria, o Senhor se aplacará e nos perdoará tudo. O arco-íris aparecerá entre as nuvens, eu o vejo, e as águas do dilúvio não voltarão mais a exterminar os viventes. Oh, certamente, se tivermos verdadeira confiança em Maria, a Virgem poderosíssima esmagará sempre, com seu pé virginal, a cabeça da serpente.

Oh sim, que se realizem esses votos! E nós, ó meus amados irmãos, apressemos seu cumprimento na medida das nossas forças. Unamos nossas vozes num só coro de admiração e louvor e todos juntos, com entusiasmo filial e cheios de confiança em Nossa Senhora do Rosário, digamos:

Ó Virgem Santíssima do Rosário, que sois o nosso refúgio e a nossa esperança, guardai-nos benignamente e impetrai-nos do vosso divino Filho a graça de vivermos como verdadeiros cristãos, livres de toda culpa. De modo especial, protegei a nossa juventude, afastando dela tudo o que pode corromper-lhe a inocência e a fé.

Protegei a Igreja e o seu augusto Chefe, dai-lhe a força de que ele necessita para levar a bom termo a urgente obra da restauração universal em Cristo, para a salvação das almas e também da sociedade civil.

Ó bendita do céu e da terra, iluminai as mentes, reconfortai os corações, apagai o ódio, dai-nos a paz. Ó mãe piedosa, socorrei os infelizes, dai alento aos desanimados, fortalecei os fracos, consolai aqueles que choram, intercedei em favor do clero e do povo, do rebanho e do pastor, e fazei que, depois de ter-vos amado e glorificado na terra, possamos amar-vos, louvar vos e bendizer-vos também no céu, pelos séculos dos séculos. Amém.

E agora uma alegre notícia: o Sumo Pontífice Pio X se dignou de me encarregar para trazer-lhes a sua bênção Apostólica…


(Homilia sobre Nossa Senhora, proferida no Santuário de Caravaggio, 17/10/1904)

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