A experiência da migração revela, em nossos dias, a realidade das fronteiras que separam povos, culturas e nações. Essas barreiras, muitas vezes, criam divisões entre “nós” e “eles”, alimentando preconceitos, xenofobia e exclusões sociais. A fé cristã, no entanto, proclama um Deus que não conhece limites e cujo amor rompe todas as barreiras.

O amor universal que acolhe a todos

A Sagrada Escritura mostra que o amor de Deus não está restrito a uma nação ou a um povo específico. No livro do profeta Jonas, vemos o contraste entre a mentalidade nacionalista de Israel e o coração misericordioso de Deus. Jonas resiste ao chamado de anunciar a Palavra em Nínive, cidade estrangeira e considerada pecadora. No entanto, o Senhor lhe mostra que Sua misericórdia é universal: “E não hei de eu ter compaixão de Nínive, a grande cidade, na qual há mais de cento e vinte mil pessoas que não sabem distinguir a mão direita da esquerda?” (Jn 4,11).

A mesma mensagem ecoa no Novo Testamento. Jesus rompeu fronteiras culturais e religiosas ao dialogar com a samaritana (Jo 4,1-26), ao elogiar a fé do centurião romano (Mt 8,5-13) e ao narrar a parábola do Bom Samaritano (Lc 10,25-37). Em cada gesto, Cristo mostrou que o amor de Deus não se restringe a identidades étnicas ou sociais, mas se abre a todos sem distinção.

A Igreja, sinal de unidade na diversidade

O Concílio Vaticano II recorda que “(…) o Povo de Deus encontra-se entre todos os povos da terra, já que de todos recebe os cidadãos, que o são dum reino não terrestre, mas celeste.” (Lumen Gentium, 13). A Igreja é chamada a ser sacramento de unidade, reunindo filhos e filhas de Deus “de toda tribo, língua, povo e nação” (Ap 7,9). O Papa Francisco, em sua encíclica Fratelli Tutti, reforça que a fraternidade não pode se limitar a fronteiras geográficas ou culturais, mas deve se traduzir em acolhida, solidariedade e construção de uma única família humana.

Em sua mensagem para o 108º Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, em 2022, o Santo Padre afirmou: “Ninguém deve ser excluído. O plano divino é essencialmente inclusivo e coloca, no centro, os habitantes das periferias existenciais. Entre estes, há muitos migrantes e refugiados, deslocados e vítimas de tráfico humano. A construção do Reino de Deus é feita com eles, porque, sem eles, não seria o Reino de Deus quer.”

O Deus que caminha com os migrantes

A fé cristã nos convida a reconhecer que Deus não abandona aqueles que são obrigados a deixar sua terra natal em busca de dignidade. Ele caminha com cada migrante, refugiado, deslocado ou pessoa marginalizada. Como afirma o Salmo 146,9: “O Senhor protege o estrangeiro, ampara o órfão e a viúva”.

O exemplo de São João Batista Scalabrini, patrono dos migrantes, ecoa esta verdade. Ao perceber o sofrimento dos italianos que deixavam a pátria em busca de vida melhor, ele fundou uma missão de Igreja além-fronteiras, inspirada no coração de Deus que acolhe a todos.

A esperança não decepciona

Num mundo marcado por divisões e intolerâncias, a mensagem cristã é clara: o amor divino é sem fronteiras. Ele não se limita por nacionalidade, cultura ou situação social. Cabe aos cristãos testemunhar essa verdade em gestos concretos de solidariedade e hospitalidade.

A missão da Igreja é continuar a proclamar que “não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher, pois todos vós sois um só em Cristo Jesus” (Gl 3,28).

Assim, anunciar um “Deus sem fronteiras” é reafirmar que Seu amor é universal, capaz de gerar esperança, restaurar a dignidade e abrir caminhos de fraternidade para todos os povos.


Texto: Pe. Alfredo J. Gonçalves, CS (edição e adequação por Vitor da Cruz Azevedo, setor de conteúdo do Departamento Regional de Comunicação).

Foto: Adobe Stock.

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