Desde 1971, a Igreja Católica no Brasil dedica o mês de setembro ao estudo e aprofundamento da Sagrada Escritura. A escolha está ligada à Festa de São Jerônimo, celebrada em 30 de setembro, tradutor da Bíblia para o latim (a Vulgata) e considerado padroeiro dos estudos bíblicos. Em cada edição, a Igreja propõe a leitura e reflexão de um livro da Escritura, alternando entre o Antigo e o Novo Testamento. Neste ano, a atenção volta-se para a Carta de São Paulo aos Romanos, considerada por muitos estudiosos como o texto mais denso e teologicamente articulado do apóstolo.

O contexto histórico da Carta

A Carta aos Romanos foi escrita por São Paulo no final de sua terceira viagem missionária, por volta do inverno do ano 56 d.C., durante sua permanência em Corinto. Nesse período, o apóstolo preparava-se para regressar a Jerusalém, levando a coleta feita junto às comunidades da Ásia e da Grécia em favor da Igreja-Mãe. Ao escrever aos cristãos de Roma, comunidade que não havia fundado, Paulo confiou a entrega da carta a Febe, diaconisa da Igreja de Cencréia, porto vizinho de Corinto (Rm 16,1-2).

Paulo já conhecia alguns membros da comunidade cristã da capital do Império, mas sua intenção não era apenas manter vínculos pessoais. A carta revela dois grandes objetivos:

  1. Um objetivo missionário: Paulo havia recebido do Ressuscitado a missão de anunciar o Evangelho aos gentios, até os confins da terra (Gl 2,9; Rm 15,15-16). O Ocidente do Império representava o horizonte de sua missão, e a Espanha figurava como seu próximo destino. Roma, nesse sentido, seria uma etapa fundamental de apoio e envio (Rm 15,24-28).

  2. Um objetivo teológico-pastoral: Paulo precisava esclarecer seu ensinamento diante de acusações e distorções. O núcleo de sua pregação afirmava que a salvação não é fruto da observância da Lei de Moisés, mas dom gratuito de Deus, alcançado pela fé em Jesus Cristo, que nos justificou pelo seu sacrifício na cruz. Alguns opositores, porém, deturpavam sua mensagem, insinuando que tal doutrina incentivaria o pecado. A Carta aos Romanos responde a esse mal-entendido, mostrando que a verdadeira vida cristã é resposta livre e responsável, conduzida pela ação do Espírito Santo, e não mera submissão externa a normas legais.

A maturidade teológica de Paulo

A Carta aos Romanos ocupa um lugar central no conjunto dos escritos paulinos. É considerada a obra-prima teológica do apóstolo, fruto de anos de reflexão, oração e experiência missionária. Nela, Paulo sintetiza o coração do Evangelho recebido por revelação de Cristo: todos, judeus e gentios, estão sob o domínio do pecado, mas todos podem alcançar a justificação pela fé em Jesus Cristo (Rm 3,21-26).

Os 16 capítulos apresentam uma verdadeira síntese da fé cristã nascente, abordando temas como:

  • a universalidade do pecado e da graça;

  • a justificação pela fé;

  • a vida nova no Espírito;

  • a relação entre Israel e os gentios no plano salvífico;

  • o chamado à vida comunitária em Cristo.

Atualidade da Carta

A Carta aos Romanos continua a ser, ainda hoje, fonte de reflexão para a teologia, a pastoral e a espiritualidade cristã. Ela convida cada fiel a reconhecer que a salvação é pura iniciativa do amor de Deus e, ao mesmo tempo, chama à responsabilidade de viver segundo o Espírito, em liberdade e amor.

Como recorda São Jerônimo: “Ignorar as Escrituras é ignorar o próprio Cristo.” O Mês da Bíblia é, portanto, oportunidade privilegiada para redescobrir a força transformadora da Palavra de Deus e para deixar-se conduzir pelo mesmo Espírito que inspirou Paulo a escrever sua carta à comunidade de Roma.


Texto: Pe. Antônio César Seganfredo, CS.

Foto: Arquivo Regional.

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