
Houve, há muito tempo, um homem chamado Francisco, que morava no povoado de Assis. Seu olhar transparente o levou a nomear toda a realidade criada como obra de Deus e, por isso, irmãos e irmãs. O irmão sol aquece e ilumina, a irmã terra permite o cultivo das plantas e a colheita. Todos os animais são irmãos e merecem cuidado e respeito. Toda a criação louva o Criador. As criaturas podem se olhar e se reconhecer irmãos. Eis o sonho universal de fraternidade, que significa reconhecer o outro como irmão.
O princípio da fraternidade universal é claro: somos irmãos porque criaturas de um mesmo Pai, Deus. Delimitando mais um pouco, para nós, cristãos, somos irmãos em Cristo, porque nele fomos amados e resgatados. Jesus falava da acolhida como uma atitude concreta, que ele exemplificou com a parábola do Bom Samaritano. Não é suficiente ser um perfeito religioso, como o sacerdote que viu o ferido e desviou, ou um conhecedor das leis, como o levita que também fingiu não ver o ser humano necessitado. Acolher significa ver, enxergar, sentir compaixão e agir, como fez o samaritano, eis o sentido pleno da acolhida.
A acolhida, em sentido amplo, além de ver o outro como um irmão, pede o cuidado que este exige. Nesse sentido, a Igreja desde seus primórdios se dedicou às questões sociais. Pensemos no ministério inicial do diaconado na Igreja como um braço preocupado com a dimensão social das pessoas. Preparavam alimento, visitavam doentes, se preocupavam com questões práticas. A doutrina concernente ao social fez história com o Papa Leão XIII com a Rerum Novarum (1891). E ultimamente, o Papa Francisco, com seu olhar holístico, manifestou preocupação com a Igreja, com a natureza e com o ser humano: publicou como tentativa de resposta ou iluminação Evangelii Gaudium, Laudato Si’ e Fratelli Tutti.
Na Evangelii Gaudium o Papa Francisco motiva para que se recupere a ideia de uma igreja acolhedora capaz de ir ao encontro das pessoas. O Laudato Si’ é um grito pela defesa da criação de Deus e a Fratelli Tutti é uma proposta de fraternidade universal, a partir de uma “cultura do encontro”, no diálogo e respeito mútuo na busca do bem comum.
Jesus Cristo, no momento de enviar seus discípulos a anunciarem a iminência do Reino do Pai, disse que quem fosse capaz de acolhê-los, acolheria o próprio Senhor (Cf. Mt 10,40). O enviado vai em representação de quem envia. Jesus fala em nome de quem o enviou ao mundo, ou seja, o Pai. E os discípulos, por sua vez, falam em nome de Jesus. Assim, quem acolhe os outros, acolhe o próprio Jesus.
O convite que recebemos todos enquanto cristãos é que sejamos capazes de reconhecer no outro, no irmão, a própria presença de Jesus. O outro é possibilidade de acolhermos Deus. Para o cristianismo, dessa forma, a acolhida se torna critério de autenticidade da vivência religiosa cristã. Olhar o outro exige reconhecimento. O outro é um irmão; um filho, uma filha do mesmo Deus que nos criou. Esta consciência não costuma ser automática, exige um exercício constante, que passa pela capacidade de enxergar, se comover e agir, tal o samaritano, que Jesus colocou como modelo de acolhida.
Texto: Oscar Ruben López Maldonado.
Foto: Arquivo regional.



