
“Não é este o jejum que eu desejo: soltar as correntes injustas, remover os laços do jugo, libertar os oprimidos e quebrar todo jugo?” (Is 58,6)
A Palavra do profeta Isaías atravessa os séculos com uma força que nos interpela: ela liga indissoluvelmente a fé à justiça, a oração à libertação concreta dos oprimidos. Neste horizonte se insere o Dia Mundial de Oração e Reflexão contra o Tráfico de Pessoas, que celebramos em 8 de fevereiro, memória de Santa Josefina Bakhita, e que este ano se reúne em torno do tema “A paz começa com a dignidade: um apelo global para acabar com o tráfico de pessoas”.
Bakhita, freira canossiana originária do Sudão, foi sequestrada e vendida como objeto quando era apenas uma criança, no final do século XIX. Hoje ela se tornou testemunha luminosa de uma verdade essencial: a dignidade não pode ser apagada, mesmo quando é pisoteada. Sua vida nos lembra que a paz autêntica nasce do pleno reconhecimento do valor de cada pessoa e, onde isso é negado, também a comunhão e a fraternidade entre os povos se tornam impossíveis.
Em 2014, o Papa Francisco condenou com palavras muito duras este crime, afirmando que “o tráfico de seres humanos é uma chaga no corpo da humanidade contemporânea, uma chaga na carne de Cristo”. Infelizmente, ainda hoje não se trata de uma realidade marginal ou distante: de acordo com o Relatório Global sobre Tráfico de Pessoas 2024 do Escritório das Nações Unidas contra Drogas e Crime (UNODC), em 2022 o número de vítimas de tráfico identificadas globalmente aumentou 25% em relação a 2019.
O mesmo relatório destaca que as mulheres representam cerca de 61% das vítimas, enquanto os menores constituem cerca de 38% do total, com um aumento particularmente significativo de crianças e adolescentes envolvidos em redes de exploração.
Há poucos dias, foi divulgada a notícia de uma grande operação internacional, coordenada pela Interpol, contra o tráfico de pessoas e migrantes, que envolveu 14.000 agentes da lei em 119 países. A operação, denominada Liberterra III, ocorreu em meados de novembro de 2025 e resultou na prisão de 3.744 suspeitos, dos quais mais de 1.800 por crimes relacionados ao tráfico de seres humanos e ao tráfico de migrantes. As vítimas potenciais colocadas sob proteção foram 4.400.
Esses dados demonstram que o tráfico é um fenômeno criminoso que atravessa setores econômicos fundamentais – do trabalho doméstico à agricultura, da indústria manufatureira ao setor hoteleiro – e assume múltiplas formas: exploração sexual, trabalho forçado, escravidão e servidão, casamentos forçados, mendicância compulsória, tráfico de órgãos, exploração reprodutiva. De modo particular, afeta migrantes e pessoas em condições de vulnerabilidade, aproveitando-se das desigualdades estruturais, dos conflitos e da falta de alternativas seguras.
Essa realidade representa uma ferida profunda no coração da nossa identidade cristã. A Escritura ensina que cada ser humano é criado por amor, à imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1,26). Quando essa verdade é negada, como lembrou São João Paulo II em 1988, “o ser humano é exposto às formas mais humilhantes e aberrantes de ‘instrumentalização’, que o tornam miseravelmente escravo do mais forte”. O Concílio Vaticano II definiu essas práticas como “vergonhosas”, denunciando sem ambiguidade a escravidão, a prostituição e as condições de trabalho que reduzem a pessoa a um instrumento de lucro (Gaudium et Spes, 27).
Também nosso Fundador, São João Batista Scalabrini, denunciou com lucidez profética essas dinâmicas, falando de “corretores de carne humana” e desmascarando um sistema econômico e social que construía riqueza sobre a negação da dignidade dos mais pobres. Mas, ao mesmo tempo, Scalabrini compreendeu que a sua proteção não podia ser confiada a iniciativas isoladas: empenhou-se em promover uma colaboração concreta entre a Igreja, as instituições civis e as associações, convencido de que só uma responsabilidade partilhada poderia prevenir a exploração.
Essa visão de cooperação continua extremamente atual, como demonstra o Protocolo de Palermo das Nações Unidas de 2000, que tem entre seus objetivos prevenir e combater o tráfico transnacional de pessoas, proteger e assistir as vítimas de exploração e promover a cooperação entre os países. Nesta perspectiva insere-se também o compromisso do Grupo Santa Marta, rede internacional criada pelo Papa Francisco, que reúne autoridades civis, forças policiais e líderes religiosos na luta contra o tráfico, e da qual os Missionários Scalabrinianos fazem parte, como expressão concreta de uma aliança global a serviço da dignidade humana.
A Igreja, neste caminho, é chamada a uma tarefa específica: acompanhar as vítimas em um caminho de cura, reintegração e recuperação da dignidade, oferecendo o que o Papa Francisco definiu como “o bálsamo da misericórdia divina” em um discurso dirigido aos membros do Grupo Santa Marta em 2018. Este compromisso não é opcional, mas parte integrante da missão evangélica e condição para a renovação de toda a sociedade.
Como lembrou o Papa Francisco na Páscoa de 2018, “nós, cristãos, acreditamos e sabemos que a ressurreição de Cristo é a verdadeira esperança do mundo, aquela que não decepciona”. É uma força que continua a gerar frutos de liberdade e dignidade, mesmo nos sulcos marcados pela injustiça, entre os refugiados, os deslocados e as vítimas do tráfico de pessoas.
Neste Dia Mundial de Oração contra o Tráfico, como Missionários Scalabrinianos renovamos nosso compromisso ao lado dos migrantes e das pessoas mais vulneráveis, nos locais de fronteira onde a dignidade está mais exposta à violência. Rezemos para que caiam as correntes daqueles que são oprimidos pelas novas formas de escravidão e para que cresça uma consciência capaz de reconhecer que não pode haver paz sem dignidade.
Convidamos todos a participar da oração à qual a Igreja nos convida no dia 8 de fevereiro de 2026, fazendo nosso o apelo do Papa Leão XIV para trabalhar por “uma paz desarmada e uma paz desarmante, humilde e perseverante. Uma paz que vem de Deus, Deus que nos ama a todos incondicionalmente”. Que a Sagrada Família de Nazaré, forçada a fugir para o Egito, nos ajude sempre a caminhar ao lado dos migrantes e a ser testemunhas de luz, como foram São João Batista Scalabrini e Santa Josefina Bakhita.
Texto: Pe. Leonir Mario Chiarello, CS - Superior Geral da Congregação dos Missionários de São Carlos Scalabrinianos.
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