Sede mediadores de Deus

Dom Scalabrini, ao construir a sua obra religiosa e social para os emigrantes, procurou a colaboração de todos: da Santa Sé e do Governo, do clero e do laicato, e de todas as pessoas de “boa vontade”, pois “a caridade não conhece partido”, afirmava Scalabrini. O fundador do instituto religioso (masculino, feminino e leigo) para os emigrantes estava convencido de que nenhuma força humana válida, mesmo ligada a tendências diferentes da católica, poderia sentir-se alheia à obra de assistência à emigração nacional.

Em resposta ao seu convite, muitas pessoas de boa vontade comprometeram-se a colaborar com ele nesta obra de “redenção moral do emigrante”. No seu projeto de assistência aos migrantes, quis incluir, de modo explícito, a participação e colaboração dos leigos. A eles se dirigia com estas palavras: “Reconhecei, ó leigos, a nobreza e grandeza da vossa missão”, exortando-os a vivê-la dignamente. “Vós, leigos, podeis hoje muitíssimo; podeis chegar aonde nós, por preconceitos comuns, não temos acesso; podeis realizar com sucesso muitas obras que nós, pelas dificuldades dos tempos, não podemos. Sede, pois, mediadores de Deus”.

A Associação São Rafael: uma rede de caridade e proteção para os migrantes

Ao lado do seu instituto religioso para a assistência dos emigrantes, Scalabrini promoveu também a presença e colaboração dos leigos, constituindo, em 19 cidades italianas, os “Comités para a emigração”, sob a direção do marquês Volpi Landi de Piacenza.

Em 1889, deu forma concreta ao seu programa, fundando a Associação São Rafael, composta principalmente por leigos e missionários. Atuava sobretudo nos portos de partida e chegada dos migrantes e a bordo dos navios que, carregados de emigrantes, atravessavam o oceano rumo às Américas, com o objetivo de atender às suas necessidades espirituais e materiais. Entre as suas tarefas:

  1. proteger os emigrantes das especulações vergonhosas de certos agentes de emigração;

  2. instituir um escritório para a colocação dos emigrantes desembarcados nos portos da América;

  3. prestar auxílio em caso de desastres ou enfermidades, tanto durante a viagem quanto após o desembarque;

  4. combater com determinação — permita-se a expressão — os “traficantes de carne humana”;

  5. garantir assistência religiosa durante a travessia, após o desembarque e nos lugares onde os emigrantes se estabelecerão;

  6. promover leis mais justas em matéria de emigração, especialmente nos aspetos sanitários dos navios e dos locais de assentamento, e favorecer a alfabetização, intervindo junto dos governos para promover a adoção de leis em favor dos emigrantes (como aconteceu com a lei italiana de 1901).

Hoje, ao lado dos Missionários Scalabrinianos presentes em 35 países, foram constituídos, ou estão a ser constituídos, grupos de leigos que abraçaram o carisma de Scalabrini. Em sinergia com eles, anunciam o Evangelho com a palavra e o exemplo, trabalham pelo reconhecimento dos direitos humanos e civis dos migrantes e contribuem para a construção de uma humanidade mais fraterna, respeitadora da dignidade e dos direitos de todos.

Muitas coisas mudaram desde o tempo de Scalabrini. A migração, hoje, por um lado, reproduz os mesmos esquemas trágicos dos séculos XIX e XX e, por outro, revela uma realidade nova, mais diversa e complexa. Assistimos a uma mistura de povos, culturas e religiões. Aumenta, de forma impressionante, o número de refugiados e deslocados, vítimas de guerras, pobreza e mudanças climáticas. Ao mesmo tempo, cresce a presença de pessoas pertencentes a religiões não cristãs em países de antiga tradição cristã. Tudo isso revela o rosto complexo e heterogéneo da convivência humana, não isento de tensões e incompreensões. Como testemunhas de imensas tragédias (milhares de migrantes que morrem no Mediterrâneo, em rios de fronteira ou ao atravessar desertos), muitas vezes somos incapazes de perceber a profunda transformação de uma nova humanidade que está a tomar forma diante dos nossos olhos, mesmo através dessas tragédias. Esta realidade interpela a todos, e, de modo particular, os cristãos, a assumir uma solidariedade concreta e uma colaboração ativa.


Texto: Pe. Giovanni Terragni, CS – Arquivista Geral.

Foto: Arquivo Regional.

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