
Há biografias que se organizam por marcos, objetivos e metas, e há aquelas que se deixam compreender melhor como caminhos. A do Missionário Scalabriniano Padre Paolo Parise, atual Vigário Regional da Região Nossa Senhora Mãe dos Migrantes (RNSMM), pertence à segunda categoria. Sua história não é linear, é marcada por mudanças sucessivas que, mais do que geográficas, são interiores. Cada mudança de país, de missão ou de contexto pastoral parece ter reconfigurado não apenas sua atuação, mas também sua maneira de compreender o próprio Evangelho.
Nascido no norte da Itália, a cerca de 90 quilômetros de Veneza, em 29 de novembro de 1967, Pe. Paolo cresceu em uma família profundamente integrada à vida da Igreja. A fé era um elemento central na dinâmica familiar: pais, irmãs e comunidade participavam ativamente da Igreja. Foi nesse ambiente que surgiu, ainda jovem, o desejo de seguir a vida religiosa.
Antes de tomar uma decisão definitiva, percorreu um caminho de discernimento, conhecendo diferentes realidades, dioceses, congregações e experiências pastorais. A identificação com o carisma adotado por São João Batista Scalabrini, fundador da Congregação dos Missionários de São Carlos – Scalabrinianos, aconteceu de forma gradual, mas segura. “Foi ali que entendi que deveria responder ao chamado de Deus”, resume Pe. Paolo. No dia 17 de agosto de 1994 fez sua Profissão Perpétua dos Votos e em 29 de abril de 1995 foi ordenado Presbítero.
Durante a formação, passou por cidades como Bassano, Piacenza e Loreto. Mais do que um percurso acadêmico, esse período foi marcado pelo contato com migrantes, experiência que se tornaria central em sua vocação. Ainda jovem, teve a oportunidade de conhecer diferentes contextos de mobilidade humana na Europa.
No sul da Itália, na região da Puglia, presenciou de perto a realidade de trabalhadores migrantes explorados em colheitas agrícolas. Em outros países, como Alemanha, França e Suíça, viu diferentes formas de acolhidas, mas também situações de preconceito e exclusão. Essas vivências ajudaram a ampliar sua compreensão sobre fenômeno migratório.

A mudança mais significativa veio com o envio para o Brasil, onde faria seus estudos de teologia. A decisão, no início, não foi fácil. “Eu não queria vir”, admite o Missionário Scalabriniano. A adaptação exigiu esforço: nova língua, nova cultura, novos hábitos. Mas, com o tempo, a experiência se transformou em crescimento. “Depois de um ano, percebi que foi uma riqueza. Hoje, não sou mais o mesmo”.
No Brasil, sua atuação começou em Vicente de Carvalho, na Baixada Santista, e depois se consolidou no Grajaú, periferia da zona sul de São Paulo. Ali, teve contato com uma realidade muitas vezes pouco percebida: a migração interna. Família de diferentes regiões chegavam em busca de melhores condições de vida. Apesar de estarem no mesmo país, enfrentavam dificuldades semelhantes às de migrantes internacionais, como discriminação por origem, sotaque ou costumes. Ao mesmo tempo, traziam uma riqueza cultural e religiosa diversa, marcada por diferentes expressões de fé.
No Grajaú, um dos desafios mais evidentes era a violência. Diante disso, Pe. Paolo Parise participou da criação do “Evento pela Paz, uma iniciativa que reuniu jovens e lideranças locais em torno da promoção da cultura de paz. O projeto chegou a doze edições e se tornou referência na região. Em 2010, iniciou uma nova etapa ao chegar à Missão Paz, onde atuaria por cerca de 15 anos. A instituição é uma das principais referências no acolhimento a migrantes e refugiados no Brasil. Durante esse tempo, atuou como Diretor do Centro de Estudos Migratórios (CEM/Missão Paz), como Vigário Paroquial da Paróquia Nossa Senhora da Paz e como Pároco da Paróquia Pessoal Italiana São Francisco de Assis e Santa Catarina de Sena.
Nesse período, acompanhou de perto os diferentes fluxos migratórios, marcados por crises humanitárias: haitianos, venezuelanos, sírios e afegãos. O trabalho envolvia desde acolhida inicial até processos mais longos de integração social, cultural e profissional. “Não se trata apenas de números, mas de pessoas”, afirma Pe. Paolo. Para o Missionário, cada migrante carrega uma história marcada por perdas, expectativas e recomeços.
Na Missão Paz, também enfrentou o desafio do diálogo com diferentes culturas e religiões. A convivência com pessoas de diversas origens exigia abertura, escuta e respeito, sem perder a identidade da missão. Ao refletir sobre sua passagem pela Missão Paz, Pe. Paolo evita qualquer leitura individualista. “A gente entra numa história que já existe e que continua depois”, afirma o Missionário. A instituição, fundada no contexto da migração italiana, em 1939, e ampliada a partir da década de 1970 para acolher migrantes internos, é vista como expressão concreta da evolução do carisma scalabriniano: de uma pastoral voltada a um grupo específico para uma atuação mais ampla.

Essa consciência de continuidade acompanha também sua nova missão. Após mais de uma década e meia em São Paulo, Pe. Paolo Parise se prepara para assumir funções no Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, no Vaticano. Criado no contexto da reforma da Cúria, em 2017, promovida pelo Papa Francisco, o organismo reúne áreas como migração, meio ambiente, saúde e direitos humanos.
No novo cargo, o Missionário Scalabriniano trabalhará diretamente com a questão migratória, agora em uma perspectiva global. A mudança amplia o alcance de sua atuação, mas não altera o ponto de partida. “Acredito que levo comigo as histórias das pessoas que encontrei”, declara. A experiência concreta, segundo ele, é essencial para não transformar o fenômeno migratório em algo distante ou abstrato.

O momento de transição é atravessado por sentimentos distintos. Há saudade “antes mesmo de sair”, como ele mesmo afirma, e há também uma percepção de missão cumprida. Não no sentido de esgotamento, mas de etapa concluída. A continuidade do trabalho, agora nas mãos de outros Coirmãos Missionários e de uma equipe numerosa de colaboradores e voluntários, reforça a ideia de que a missão é sempre maior do que quem a executa.
Se há um eixo que unifica sua trajetória, ele aparece de forma explícita na referência ao Evangelho de São Mateus, capítulo 25. Ali, Cristo se identifica com o estrangeiro, o faminto, o doente. Para o Scalabriniano, essa passagem oferece a chave para compreender a própria experiência missionária. “Quando atuamos com o migrante, estamos atuando com Jesus Cristo”, afirma. A frase, recorrente em sua fala, não busca efeito retórico. Ela indica uma leitura teológica da realidade: o encontro com o outro, especialmente o migrante, torna-se lugar de revelação divina.

Ao deixar o Brasil rumo ao Vaticano, Pe. Paolo Parise não abandona essa perspectiva. Ao contrário, parece levá-la consigo como critério. Sua trajetória sugere uma possibilidade: a de que, mesmo em meio a fluxos massivos e estruturas complexas, ainda é possível começar pelo essencial: reconhecer Cristo no rosto do irmão.
E, a partir deles, reconstruir e construir caminhos.
Texto: Vitor da Cruz Azevedo, setor de conteúdo do Departamento Regional de Comunicação.
Foto: Arquivo Regional, Web Rádio Migrantes e Agência O Globo




