
Ao celebrarmos hoje a festa de São João Batista Scalabrini, voltamos a contemplar a figura de um pastor que, em uma época marcada por profundas mudanças sociais, para responder a um apelo de Deus para cuidar das necessidades de pessoas concretas e zelar por sua dignidade, soube transformar as feridas da história em um anúncio concreto de esperança e fraternidade. No contexto do ano vocacional scalabriniano, cujo tema é “reavivar o dom que está em ti”, somos convidados a reacender o carisma que herdamos de nosso fundador Scalabrini. Mutuae Relationes afirma que «o próprio “carisma dos fundadores” (ET 11) se revela como uma experiência do Espírito transmitida aos seus discípulos para ser por eles vivida, guardada, aprofundada e constantemente desenvolvida em sintonia com o corpo de Cristo em perene crescimento» (Mutuae Relationes 11, 1978).
É essa experiência do Espírito que animou Scalabrini e que nos foi transmitida que somos convidados a viver, guardar, aprofundar e desenvolver constantemente “em sintonia com o corpo de Cristo em perene crescimento”.
Este ano, essa reflexão assume um significado particular à luz da nova Carta Encíclica Magnifica Humanitas do Papa Leão XIV: assim como a Rerum Novarum de Leão XIII abordou a questão operária na época da revolução industrial, assim hoje o Santo Padre convida a Igreja a interrogar-se sobre as novas formas de desigualdade, exploração e exclusão geradas pela economia digital.
A Encíclica coloca uma questão decisiva: como defender a dignidade da pessoa em um mundo em que a tecnologia corre o risco de transformar o ser humano em um dado, uma função, um serviço? São questões que tocam profundamente também o carisma scalabriniano e sua transmissão ao longo da história, em sintonia com a Igreja em constante crescimento e atenta aos sinais dos tempos.
Scalabrini e as feridas da modernidade
Quando São João Batista Scalabrini fundou a Congregação dos Missionários de São Carlos em 1887, o mundo vivia grandes transformações: a revolução industrial, as migrações em massa, a exploração dos trabalhadores, a pobreza generalizada. Milhões de italianos deixavam sua terra rumo às Américas, muitas vezes enganados por falsas promessas, privados de proteção e entregues a novas formas de escravidão. Scalabrini compreendeu, antecipando os grandes temas da Doutrina Social, que a emigração não era apenas um problema assistencial, mas uma questão humana, social e espiritual que exigia um cuidado específico.
Com extraordinária coragem pastoral, Scalabrini convidou a Igreja a sair de suas seguranças para compartilhar a vida concreta das pessoas. Em 1891, escrevia aos seus sacerdotes: «Nos nossos dias, é quase impossível reconduzir a classe operária à Igreja, se não mantivermos com ela uma relação contínua fora da Igreja. Devemos sair do templo, ó veneráveis irmãos, se quisermos exercer uma ação salutar no templo. Sair, mas para santificar».
E ainda:
«Meus queridos, o mundo avança e não devemos ficar para trás por causa de alguma dificuldade de formalismo ou de um ditame de prudência mal entendida».
Scalabrini compreendeu que a missão da Igreja passa pela proximidade concreta com os mais necessitados, com os excluídos e com aqueles que são obrigados a partir. Uma intuição, uma experiência no Espírito, um carisma que continua até hoje a iluminar a missão scalabriniana nas novas fronteiras geográficas e digitais do mundo e que exige discernimento, empenho e respostas corajosas, rápidas e orientadas para a preservação da dignidade de cada pessoa, em sintonia com o caminho da Igreja.
A tecnologia a serviço da fraternidade
Hoje, de fato, as rápidas transformações tecnológicas estão mudando profundamente as relações humanas, o trabalho e até mesmo a forma de viver a mobilidade. Para compreender esse desafio do nosso tempo, a encíclica recorre a duas imagens profundamente simbólicas. A primeira é a de uma nova “Babel”: uma sociedade cada vez mais conectada e tecnologicamente avançada, mas muitas vezes incapaz de gerar relações autênticas, escuta mútua e fraternidade. O risco, adverte o Papa Leão XIV, é o de uma humanidade fragmentada pelo individualismo, pelo medo e por uma tecnologia que, se desprovida de orientação ética, pode isolar as pessoas em vez de aproximá-las.
Nessa perspectiva, ressoa também o ensinamento de Bento XVI na Carta Encíclica Caritas in Veritate, onde ele lembrava que a técnica, por si só, não é suficiente para garantir o verdadeiro progresso humano. Na mesma linha, o Papa Leão XIV reitera que a tecnologia não é neutra e que todo desenvolvimento deve ser orientado para o bem comum.
A segunda imagem é a da reconstrução das muralhas de Jerusalém: um povo ferido e disperso que reencontra a unidade ao reparar, em conjunto, a sua casa comum. É um convite a reconstruir laços de fraternidade e responsabilidade compartilhada, zelando pela dignidade de cada pessoa. É precisamente aqui que o carisma de Scalabrini revela toda a sua profecia. Nosso fundador viu na migração não uma ameaça, mas uma possibilidade de encontro entre povos e culturas, todos guiados a construir a fraternidade universal: “é instrumento daquela Providência que preside aos destinos humanos e os guia, mesmo através das catástrofes, rumo à meta, que é o aperfeiçoamento do homem na terra e a glória de Deus nos céus”.
As novas fronteiras da dignidade humana
Nesse cenário, o Papa Leão XIV destaca com veemência a questão migratória como um dos grandes bancos de prova da justiça social contemporânea. O Santo Padre afirma com clareza que «a maneira como uma sociedade os trata mostra se a sua ideia de justiça é guiada pelo medo ou pela fraternidade». Retomando o magistério do Papa Francisco, Leão XIV nos exorta a reconhecer nos migrantes não «simplesmente um problema a ser gerenciado», mas «uma imagem viva do Povo de Deus em caminho» (Magnifica Humanitas, 81).
A encíclica convida nossa sociedade a um duplo compromisso: por um lado, salvaguardar o direito à esperança daqueles que são forçados a partir, garantindo vias seguras e legais, acolhimento digno e caminhos reais de integração; por outro, promover também o direito das pessoas de permanecer em sua terra em paz, segurança e dignidade, enfrentando as causas profundas das migrações forçadas, incluindo as injustiças econômicas e a crise climática.
Como Missionários de São Carlos, somos chamados mais uma vez a “sair do templo” para habitar as novas fronteiras da mobilidade humana e das transformações contemporâneas, acompanhando com coragem e concretude aqueles que são obrigados a partir, defendendo os mais vulneráveis, salvaguardando a dignidade do trabalho humano e promovendo um uso ético das novas tecnologias como instrumentos para salvaguardar e promover a dignidade das pessoas.
Nesta festa, confiamos à Santíssima Virgem Maria os migrantes, os refugiados, os marítimos, os itinerantes e todos aqueles que vivem o abandono e a solidão. Pedimos ao Senhor, por intercessão de São João Batista Scalabrini, a graça de sermos construtores e guardiões da comunhão e da esperança.
Feliz festa de São João Batista Scalabrini a toda a família scalabriniana.
Texto: Pe. Leonir Mário Chiarello, CS – Superior Geral da Congregação dos Missionários de São Carlos – Scalabrinianos.
Foto: Arquivo Regional.




