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No quarto domingo de agosto, a Igreja volta seu olhar para a vocação leiga. Em muitas comunidades, ainda é comum associar a vocação do cristão leigo aos serviços desempenhados dentro do ambiente paroquial: catequese, liturgia, pastoral da acolhida, Ministros Extraordinários da Sagrada Comunhão (MESCE), entre tantos outros. Embora essas expressões sejam fundamentais para a vida eclesial, elas representam apenas uma parte da missão confiada aos leigos pela Igreja.
O Concílio Vaticano II marcou uma profunda renovação da compreensão sobre a identidade e a missão dos fiéis leigos. Eles são chamados a ser presença de Cristo no coração da sociedade, testemunhando o Evangelho nos ambientes familiares, profissionais e políticos.
Essa vocação encontra sua origem nas próprias palavras de Jesus: “Vós sois o sal da terra… Vós sois a luz do mundo” (Mt 5,13-16). O discípulo missionário não existe para permanecer isolado, mas para iluminar a realidade onde vive, promovendo a justiça, a verdade, a caridade e a dignidade da pessoa humana.
Um chamado que nasce do Batismo
A vocação do leigo não é uma função adquirida por escolha pessoal, mas uma identidade recebida no Batismo. São Pedro recorda que todo cristão participa da missão de Cristo ao afirmar: “Vós sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo adquirido por Deus, para anunciar as grandezas daquele que vos chamou das trevas para a sua luz maravilhosa” (1Pd 2,9). É justamente essa participação no sacerdócio comum dos fiéis que fundamenta a missão evangelizadora dos leigos.
A Constituição Dogmática Lumen Gentium ensina que os leigos, incorporados a Cristo pelo Batismo e constituídos como Povo de Deus, participam, à sua maneira, das funções sacerdotal, profética e régia de Cristo. Sua vocação específica consiste em buscar o Reino de Deus tratando das realidades temporais e ordenando-as segundo o projeto divino (LG 31).
Isso significa que o lugar privilegiado da santificação do leigo não é apenas nas delimitações paroquiais, mas também na escola, na universidade, no hospital, na empresa, na política, nos meios de comunicação, na cultura, na ciência e na família.
A missão acontece no mundo
Durante muitos anos, difundiu-se a ideia de que quanto maior fosse a participação do leigo nas atividades internas da Igreja, maior seria sua vivência vocacional. Entretanto, a Igreja recorda que sua missão própria acontece justamente no interior das realidades temporais.
O Documento 105 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) afirma que a presença dos cristãos leigos na sociedade não é opcional, mas parte integrante da própria missão evangelizadora da Igreja. Os ambientes onde se constroem as relações humanas, econômicas, culturais e políticas constituem verdadeiros espaços de evangelização e exigem cristãos capazes de testemunhar sua fé com coerência, competência e compromisso.
Essa perspectiva amplia significativamente a compreensão da missão leiga. Evangelizar não significa apenas anunciar explicitamente a Palavra, mas também transformar estruturas injustas, defender a vida, promover a paz, cuidar da Casa Comum, combater a corrupção, valorizar a família, exercer com ética a profissão e construir uma cultura do encontro.
Um protagonismo que nasce da comunhão
A missão dos leigos não substitui o ministério ordenado nem atua de forma independente da Igreja. Pelo contrário, trata-se de uma missão vivida em profunda comunhão com os pastores e com todo o Povo de Deus. Quando cada vocação compreende sua identidade e sua missão específica, a Igreja manifesta com maior plenitude sua riqueza e diversidade de dons.
O Documento 105 da CNBB insiste que os cristãos leigos precisam ser protagonistas da evangelização, assumindo responsabilidades tanto na comunidade eclesial quanto na transformação da sociedade, iluminando as realidades temporais com os valores do Evangelho.
Um chamado para o nosso tempo
Os desafios contemporâneos tornam ainda mais urgente a presença de leigos bem formados, maduros na fé e comprometidos com a Doutrina Social da Igreja. A vocação leiga consiste em viver o Evangelho onde a Igreja institucional nem sempre consegue chegar. A missão do cristão leigo começa quando ele sai da igreja ao final da Missa e continua na segunda-feira, no ambiente de trabalho, na universidade, na política, nas redes sociais, na família e em todos os espaços onde a vida acontece.
Ali, sustentado pela graça dos sacramentos e pela força da Palavra de Deus, ele é chamado a testemunhar que Cristo continua presente no mundo por meio da vida de cada batizado.
Como recorda São Paulo: “Tudo o que fizerdes, fazei-o de coração, como para o Senhor e não para os homens” (Cl 3,23). É nessa entrega cotidiana, silenciosa e perseverante que floresce a autêntica vocação dos cristãos leigos: ser sinal do Reino de Deus no coração da sociedade.
O leigo é também um apostolo
Muito antes de o Concílio Vaticano II aprofundar a missão dos cristãos leigos na vida da Igreja, São João Batista Scalabrini já defendia o protagonismo dos fiéis leigos na evangelização. Seus escritos revelam uma compreensão da vocação batismal, reconhecendo que a missão da Igreja não pertence apenas aos ministros ordenados, mas a todos aqueles que receberam a graça do Batismo.
Em uma de suas exortações mais conhecidas, dirigida aos leigos, Scalabrini faz um convite: “Leigos, também vós deveis ser apóstolos.” Para o Bispo de Piacenza, o apostolado se manifesta de diversas formas: pela palavra que edifica, pelo exemplo de uma fé vivida sem respeito humano, pela prática da caridade e pelo compromisso com a justiça e o bem comum. “Nas extremas necessidades da Igreja”, escreve, “todo cristão deve ser um apóstolo, ardente e generoso.”
Essa compreensão nasce da convicção de que a evangelização não pode ficar restrita ao espaço eclesial. Scalabrini reconhece que existem ambientes onde a presença do sacerdote encontra limitações, enquanto o leigo pode testemunhar Cristo com naturalidade. “O leigo pode encontrar-se onde o padre não pode ir”, afirma. “Frequentemente, uma exortação sua é mais bem acolhida que a que vem da boca do padre.” Por isso, conclui: “Também o laicato tem o seu apostolado, a sua missão apostólica.”
O fundador dos Missionários de São Carlos vai ainda mais longe ao afirmar que “cada cristão nasce apóstolo”. Segundo ele, todo batizado tem a responsabilidade de defender a fé, promover a glória de Deus e contribuir para que o Evangelho transforme a sociedade. Para Scalabrini, a ausência desse zelo missionário é incompatível com a ação do Espírito Santo, pois quem verdadeiramente O acolhe torna-se naturalmente testemunha de Cristo.
São João Batista Scalabrini dirige aos leigos palavras que continuam inspirando a Igreja de hoje: “Não sois uma velhice que chega ao ocaso, mas uma juventude que nasce.” Trata-se de um envio missionário. Aos leigos cabe contribuir para que o espírito do Evangelho permeie a cultura, a política, a economia, a educação, os meios de comunicação e todas as realidades humanas, tornando Cristo presente no coração do mundo.
Texto: Vitor da Cruz Azevedo, setor de conteúdo do Departamento Regional de Comunicação.
Foto: Arquivo Regional.