Nós utilizamos cookies para aprimorar e personalizar a sua experiência em nosso site. Ao continuar navegando, você concorda em contribuir para os dados estatísticos de melhoria.

Muitas vezes, ao ouvirmos a palavra “vocação”, nossa mente projeta imediatamente a imagem de um altar, de uma igreja ou de um claustro silencioso. No entanto, reduzir esse conceito apenas a funções religiosas é limitar a beleza do plano de Deus para o ser humano. Afinal, o que é, de fato, a vocação? Longe de ser um enigma reservado para poucos escolhidos, ela é uma realidade viva, um diálogo de amor que começa no instante em que somos gerados e se estende por toda a nossa existência.
A palavra tem origem no verbo latim vocare, que significa “chamar”. No contexto cristão, a vocação não diz respeito a uma carreira que escolhemos por conta própria ou a um teste de aptidão profissional. Ela é, fundamentalmente, a resposta do ser humano a uma iniciativa que vem de Deus. É o Criador que toma a palavra primeiro, chamando cada um de nós pelo nome para ocupar um lugar único e insubstituível no mundo.
Uma vocação comum
A Igreja ensina de forma muito clara que existe uma “vocação comum”, uma plataforma sobre a qual todas as outras escolhas se apoiam: a vocação universal à santidade.
Essa verdade foi resgatada pelo Concílio Vaticano II, por meio da Constituição Dogmática Lumen Gentium (o documento sobre a identidade da Igreja). No seu capítulo 5, o texto afirma que “É claro a todos, que os cristãos de qualquer estado ou ordem, são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade ” (LG. 40). Isso significa que a santidade é a meta para o pai de família, a estudante, o trabalhador, o jovem e o idoso.
O Papa Francisco, em sua Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate, humanizou ainda mais esse conceito ao cunhar a expressão “os santos ao pé da porta”. O Pontífice explica que a santidade não exige necessariamente grandes êxtases ou milagres extraordinários, mas sim a vivência do amor nas pequenas coisas do cotidiano: no trabalho bem-feito, na paciência com os filhos, na honestidade nos negócios e na fidelidade a Deus no dia a dia.
Um caminho, muitas direções
Uma vez que compreendemos que o nosso objetivo final é a santidade, o Espírito Santo nos conduz por estradas diferentes para realizar essa missão. É a partir desse tronco comum que brotam as chamadas “vocações específicas”. Elas são os mapas práticos que mostram como cada pessoa vai viver o seu chamado à santidade no mundo.
A Igreja organiza essas respostas em quatro grandes caminhos, que funcionam como diferentes formas de servir e amar:
O Ministério Ordenado: O caminho daqueles que consagram a vida para ser a presença viva de Jesus como pastores da comunidade, por meio do sacramento da ordem (bispos, padres e diáconos).
A vida religiosa consagrada: A entrega total de homens e mulheres (como freiras, monges e religiosos) que deixam tudo para viver os votos de pobreza, castidade e obediência, sendo sinais visíveis de Jesus Cristo servo, pobre e casto na Terra.
O Matrimônio: A vocação de construir uma família, onde o amor entre o homem e a mulher se torna um sacramento e a casa se transforma em uma “Igreja Doméstica”, o primeiro berço da fé e das vocações.
A vida leiga: O chamado da grande maioria dos batizados, cuja missão é transformar a sociedade por dentro, levando os valores do Evangelho para a política, a economia, a educação, as ciências e as relações humanas.
Um chamado cotidiano
Para desmistificar a ideia de que a santidade é algo inalcançável, as palavras de São João Batista Scalabrini, fundador da Congregação dos Missionários de São Carlos – Scalabrinianos, trazem uma luz reconfortante e prática. O santo explica que o verdadeiro chamado não consiste em realizar prodígios miraculosos, mas em viver com amor a realidade comum de cada dia. Scalabrini recorda que a resposta de Jesus ao jovem rico foi simples: “Se queres chegar à vida eterna, observa os mandamentos“. A santidade, portanto, está ao alcance de todos através da fidelidade cotidiana:
“Acredita-se, facilmente, que, para chegar à santidade, é necessário distinguir-se por dons extraordinários e tornar-se singulares por ações luminosas. Não, meus filhos. Para ser santo não é necessário nem predizer o futuro, como os profetas, nem operar prodígios como os taumaturgos, nem ir pregar o Evangelho a povos e bárbaros, como os Apóstolos, nem derramar o próprio sangue, como os mártires. Nada disso. (…) A vida cristã está toda aqui. Observar fielmente a lei de Deus, cumprir com exatidão os deveres do próprio estado.”
O Santo dos Migrantes aponta para o maior exemplo da nossa fé: a Virgem Maria. As Escrituras não narram milagres estrondosos feitos por ela durante a sua vida terrena. Maria viveu uma vida simples e escondida, e nem por isso deixou de ser a mais santa de todas as criaturas.
“(…) Não são os milagres, os dons extraordinários, que fazem os Santos, e os maiores Santos, mas a virtude. Muitos Santos que hoje veneramos, nunca saíram do círculo da vida doméstica, mas tudo faziam continuamente para cumprir os deveres, atentos em nobilitar suas ocupações ordinárias, mediante a reta intenção, agindo sempre com fins sobrenaturais.“
Descobrir a própria vocação é compreender este ensinamento de Scalabrini: o seu chamado à santidade realiza-se precisamente ali onde você se encontra, transformando a rotina do seu trabalho, do seu lar e dos seus deveres numa oferta de amor a Deus.
Texto: Vitor da Cruz Azevedo, setor de conteúdo do Departamento Regional de Comunicação.
Foto: Arquivo Regional.