No primeiro domingo de agosto, a Igreja volta o seu olhar e suas orações para aqueles que receberam o Sacramento da Ordem: os bispos, padres e diáconos. A vocação ao Ministério Ordenado não se confunde com uma escolha de carreira ou com a ocupação de um cargo de liderança institucional. Ela é, fundamentalmente, um mistério de eleição divina, enraizado nas Sagradas Escrituras e atualizado constantemente pelo Magistério da Igreja. Trata-se do chamado para estender, no tempo e no espaço, a própria missão de Jesus Cristo, o Bom Pastor.

A iniciativa e o envio

A raiz do sacerdócio cristão está inteiramente ligada à pessoa de Jesus. Os Evangelhos narram que o chamado ao ministério nasce de uma noite de oração e de uma escolha livre do Mestre: “Subiu, depois, ao monte, chamou os que ele quis, e eles foram ter com ele” (Mc 3, 13).

Essa vocação possui uma dupla finalidade bíblica, expressa no versículo seguinte: “Constituiu doze para que ficassem com ele e para enviá-los a pregar”. O ministro ordenado é, primeiramente, aquele que é chamado a “estar com o Senhor” na intimidade da oração e da contemplação. Em seguida, ele é “enviado” para ser a presença viva de Cristo no meio do povo, agindo in persona Christi Capitis (na pessoa de Cristo Cabeça), especialmente ao perdoar os pecados por meio do sacramento da reconciliação e ao atualizar o sacrifício da cruz na Mesa do Altar.

A identidade do ministério ordenado

Para compreender o que significa ser um ministro ordenado, o Magistério da Igreja oferece bases fundamentais. Na Exortação Apostólica Pastores Dabo Vobis (1992), São João Paulo II aprofundou a formação dos sacerdotes no mundo contemporâneo. O documento parte da promessa bíblica do livro de Jeremias: “Dar-vos-ei pastores segundo o meu coração” (Jr 3, 15).

A Pastores Dabo Vobis enfatiza que o sacerdócio não é um direito do homem, mas um dom absolutamente gratuito da Santíssima Trindade. O texto explica que a identidade do padre é essencialmente relacional: ele é um homem tirado do meio do povo, consagrado por Deus e devolvido ao povo para servir (n. 11). O documento sublinha que a vida espiritual do ministro ordenado deve ser marcada pelo “amor pastoral”, que é a capacidade de dar a vida pelas ovelhas, imitando a caridade de Cristo.

O ministro ordenado como outro Cristo

Ampliando essa percepção, as palavras de São João Batista Scalabrini nos ajudam a dimensionar a grandeza e a responsabilidade do caráter sacerdotal. Para o Pai dos Migrantes, o presbítero carrega uma dignidade que ultrapassa a compreensão humana, pois ele é o próprio canal por onde Deus continua agindo na história.

“Quem é este homem que tem nas mãos a vida e a salvação das almas, e de algum modo, a vida e a salvação de um Deus? Admirai, mais uma vez, a dignidade e o poder do padre católico! Jesus Cristo não somente vive nele uma vida real, mas, por meio dele, exerce continuamente todas as funções divinas que constituem a santificação das almas e a salvação do mundo. Portanto, o padre católico não é somente Jesus Cristo vivendo no homem, o que é privilégio de todos os cristãos: ele é Jesus Cristo operante no homem e com o homem, cumpre a obra divina da reparação; ele é Jesus Cristo que fala, Jesus Cristo que se sacrifica, Jesus Cristo que perdoa, Jesus Cristo que salva; e em todos os lugares: no púlpito, no altar, no tribunal da penitência, revestido da mesma dignidade d’Ele, porque revestido da mesma autoridade! Sacerdote, outro Cristo!”

Essa atuação divina por meio do sacerdote se manifesta de duas formas práticas indispensáveis para a comunidade: a transmissão da Verdade e a distribuição da Graça.

“Quando nós falamos é como se Deus falasse, porque Ele fala não só pelo seu Filho, mas através de nós, continuadores da sua obra. O padre é, na verdade, o homem de Deus na comunicação da verdade. Ele a distribui a todos, grandes e pequenos, como Deus dá a luz do sol ao cedro e ao fio da erva. Ele se eleva, sem se engrandecer, abaixa-se, sem se diminuir. Tanto as mentes elevadas, desejosas de altas e profundas especulações, quanto o povo e as crianças, cuja inteligência tem necessidade de simplicidade e de clareza, encontram nele resposta a todas as interrogações que nossa natureza instintivamente faz a si mesma (…) o que mais importa: a inabalável certeza e a perfeita segurança na sua fé.”

As quatro proximidades do Papa Francisco

Atualizando essa rica teologia para os desafios do nosso tempo, o Papa Francisco proferiu um discurso luminoso durante o Simpósio Internacional Para uma Teologia Fundamental do Sacerdócio (2022). O Pontífice alertou que, para manter a alegria e a fidelidade ao chamado original diante das dificuldades modernas, o sacerdote precisa cultivar o que ele chamou de “as quatro proximidades”:

  1. Proximidade com Deus (Vida de Oração): Sem a intimidade com o Senhor na oração diária, o ministério torna-se apenas uma profissão burocrática e o padre esvazia-se facilmente.

  2. Proximidade com o Bispo (Obediência): A relação com o pastor da diocese não é uma submissão cega, mas um vínculo de comunhão. Caminhar com o bispo protege o padre do isolamento.

  3. Proximidade entre os Presbíteros (Fraternidade): Os padres não são lobos solitários. Francisco insiste na fraternidade sacerdotal, onde os ministros cuidam uns dos outros, evitam as divisões e partilham as alegrias e dores do ministério.

  4. Proximidade com o Povo de Deus: O sacerdote não é um colaborador, mas um pastor que tem o “cheiro das ovelhas”. O Papa reforça que o ministério ordenado só ganha sentido quando vivido no serviço generoso ao povo que lhe foi confiado.

Celebrar a vocação ao Ministério Ordenado neste mês vocacional é, portanto, agradecer a Deus por estes homens que decidiram deixar tudo para que a verdade e a graça divina, trazidas por Scalabrini e guardadas pela Igreja, nunca faltem nas nossas vidas. É também assumir o compromisso diário de rezar pela fidelidade de nossos padres.


Texto: Vitor da Cruz Azevedo, setor de conteúdo do Departamento Regional de Comunicação.

Foto: Arquivo Regional.

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