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No terceiro domingo de agosto, a Igreja celebra a beleza da vocação à vida consagrada. Por meio de uma resposta livre e amorosa ao chamado de Deus, homens e mulheres, movidos pela ação do Espírito Santo, entregam-se inteiramente ao seguimento de Cristo mediante a profissão dos conselhos evangélicos da castidade, da pobreza e da obediência, tornando-se sinais vivos do Reino de Deus no meio do mundo.
Desde os primeiros séculos do cristianismo, homens e mulheres deixaram tudo para seguir mais de perto os passos de Jesus. Inspirados pelo Evangelho, compreenderam que o Senhor continua a dirigir, em todas as épocas, o mesmo convite dirigido aos primeiros discípulos: “Vem e segue-me” (Mt 19,21). A vida consagrada nasce precisamente dessa resposta generosa, tornando visível, na história, o desejo de conformar toda a existência à pessoa de Cristo, casto, pobre e obediente.
A Sagrada Escritura revela que esse chamado encontra seu fundamento no próprio Evangelho. Ao encontrar o jovem rico, Jesus propõe um caminho de entrega radical: “Se queres ser perfeito, vai, vende os teus bens, dá aos pobres… depois vem e segue-me” (Mt 19,21). Essas palavras manifestam uma vocação particular, suscitada por Deus na vida de alguns fiéis, para testemunhar de forma especial os valores do Reino dos Céus.
Essa mesma disponibilidade pode ser contemplada na resposta dos primeiros discípulos. Chamados às margens do mar da Galileia, “deixaram tudo e o seguiram” (Lc 5,11), colocando Cristo no centro de suas vidas. Também São Paulo reconhece o valor dessa entrega total ao afirmar que aquele que permanece livre para dedicar-se inteiramente ao Senhor pode preocupar-se “com as coisas do Senhor, procurando agradar ao Senhor” (1Cor 7,32-35). A vida consagrada, portanto, não nasce de uma iniciativa humana, mas da ação da graça, que convida alguns homens e mulheres a configurarem toda a sua existência ao mistério de Cristo para o serviço da Igreja e da humanidade.
Um dom concedido por Deus à Igreja
O Concílio Vaticano II recuperou, com grande profundidade, a identidade da vida consagrada ao dedicar todo o sexto capítulo da Constituição Dogmática Lumen Gentium. O Concílio recorda que a profissão dos conselhos evangélicos não constitui uma realidade paralela à vida da Igreja, mas um dom concedido pelo próprio Deus para sua santificação e edificação.
A Lumen Gentium afirma que “Os conselhos evangélicos de castidade consagrada a Deus, de pobreza e de obediência […] são um dom divino, que a mesma Igreja recebeu do seu Senhor e com a Sua graça sempre conserva” (LG, 43). Assim, a vida consagrada possui uma missão específica: tornar visível, por meio da própria existência, a primazia absoluta de Deus e a realidade futura do Reino dos Céus.
Os conselhos evangélicos
O Decreto Perfectae Caritatis, promulgado pelo Concílio Vaticano II, aprofunda o significado da vida religiosa ao recordar que sua renovação autêntica depende de um contínuo retorno ao Evangelho e ao carisma dos fundadores.
A profissão da pobreza, da castidade e da obediência não representa uma renúncia estéril, mas uma escolha de amor. Pela pobreza evangélica, o religioso testemunha que Deus é sua verdadeira riqueza; pela castidade consagrada, manifesta que seu coração pertence inteiramente a Cristo; pela obediência, une sua vontade a vontade do Pai, seguindo o exemplo de Jesus, “que se fez obediente até a morte, e morte de cruz” (Fl 2,8).
Ao mesmo tempo, o Concílio insiste que cada instituto deve conservar fielmente o espírito e a inspiração de seu fundador, renovando continuamente sua missão sem perder sua identidade carismática. Essa fidelidade garante que os diversos carismas continuem respondendo, com criatividade e coragem, às necessidades da Igreja e do mundo.
“Despertai o mundo”
Ao proclamar o Ano da Vida Consagrada, em 2014, o Papa Francisco dirigiu uma Carta Apostólica a todos os consagrados, convidando-os a renovar a alegria de sua vocação. O Santo Padre resume esse caminho em três atitudes fundamentais: fazer memória agradecida do passado, viver o presente com paixão e abraçar o futuro com esperança.
Recordando a história dos diversos institutos religiosos, Papa Francisco convida cada consagrado a nunca perder o entusiasmo do primeiro chamado, reconhecendo que toda vocação nasce da iniciativa amorosa de Deus. Ao mesmo tempo, pede coragem para enfrentar os desafios do mundo contemporâneo sem abandonar o carisma recebido.
Em uma das passagens mais conhecidas da Carta Apostólica, o Papa manifesta sua expectativa para a vida religiosa: “Espero que desperteis o mundo”. Trata-se de um convite para que os consagrados sejam testemunhas proféticas, capazes de anunciar o Evangelho não apenas por palavras, mas principalmente pela coerência de uma vida totalmente entregue a Cristo.
A grandeza da vida consagrada
Ao dirigir-se aos primeiros Missionários da Congregação, São João Batista Scalabrini recordava que a consagração religiosa é, antes de tudo, uma iniciativa de Deus. Não é o ser humano quem escolhe a missão por mérito próprio; é Cristo quem chama, envia e sustenta aqueles que deseja associar à sua obra redentora.
Inspirado nas palavras de Jesus “Não fostes vós que me escolhestes; fui eu que vos escolhi e vos constituí para irdes e produzirdes fruto” (Jo 15,16), Scalabrini recordava aos seus missionários a grandeza da vocação recebida. Para ele, participar da missão da Igreja é uma honra incomparável, pois significa colaborar diretamente com a obra da salvação, tornando-se instrumento da graça de Deus na vida de tantas pessoas.
Entretanto, o santo bispo advertia que não basta responder generosamente ao primeiro chamado. A perseverança é a marca da verdadeira vocação. “Não é suficiente ter iniciado bem; é necessário perseverar até o fim”, exortava ele aos seus religiosos. Essa fidelidade cotidiana torna possível enfrentar as dificuldades da missão, conservar vivo o entusiasmo apostólico e produzir os frutos que o Senhor espera de cada vocação.
Scalabrini também insistia que a fecundidade da vida consagrada não depende, em primeiro lugar, do número de religiosos ou da grandeza das obras realizadas, mas da intensidade com que vivem unidos a Cristo. Mesmo poucos, dizia ele aos seus missionários, podem realizar grandes coisas quando permanecem animados pelo mesmo Espírito que impulsionou os Apóstolos. Essa convicção continua atual e recorda que toda vocação floresce quando permanece enraizada na oração, na comunhão fraterna e na fidelidade ao Evangelho.
Texto: Vitor da Cruz Azevedo, setor de conteúdo do Departamento Regional de Comunicação.
Foto: Arquivo Regional.