
Em 1º de outubro, a Igreja celebra Santa Teresinha do Menino Jesus e da Santa Face, uma das figuras mais conhecidas da espiritualidade católica contemporânea. Maria Francisca Teresa Martin (do francês Marie Françoise Thérèse Martin) nasceu em Alençon, na França, em 2 de janeiro de 1873, e morreu no Carmelo de Lisieux em 30 de setembro de 1897, aos 24 anos.
Sua vida foi breve e marcada por acontecimentos aparentemente simples e intensos: a infância em uma família católica, a morte precoce da mãe, a mudança para Lisieux, a entrada no Carmelo aos 15 anos, a vida comunitária, a oração, o trabalho cotidiano e, nos últimos meses, uma grave enfermidade.
Ela nunca partiu para uma missão em outro país. Não fundou uma obra missionária nem percorreu territórios anunciando o Evangelho. Ainda assim, em 14 de dezembro de 1927, o Papa Pio XI proclamou Santa Teresa do Menino Jesus e da Santa Face, padroeira das missões. Setenta anos depois, em 19 de outubro de 1997, no Dia Mundial das Missões, São João Paulo II a proclamou Doutora da Igreja, por meio da Carta Apostólica Divini Amoris Scientia.
A história de Teresinha, portanto, apresenta uma questão fundamental para compreender sua espiritualidade: como uma religiosa que nunca deixou o Carmelo tornou-se Padroeira das Missões? A resposta está em sua história e nos próprios escritos da santa.
De Alençon a Lisieux
Teresa Martin era filha mais nova (a nona para ser mais exato) de Louis e Zélie Martin, ambos posteriormente canonizados pela Igreja. Foi batizada em 4 de janeiro de 1873, dois dias depois do nascimento. Em 28 de agosto de 1877, quando Teresa tinha quatro anos, sua mãe morreu vítima de câncer de mama. Após a morte de Zélie, Louis Martin mudou-se com as filhas para Lisieux, onde a família passou a viver em Les Buissonnets. A mudança marcou o início de uma nova etapa na vida da menina.
Em Lisieux, Teresa cresceu sob a influência de seu pai e das irmãs mais velhas: Marie, Pauline, Leonie e Céline. As cinco filhas de Louis e Zélie ingressariam posteriormente na vida religiosa, quatro no Carmelo de Lisieux e uma na Visitação.
A formação cristã recebida em família seria decisiva para sua compreensão de Deus. Em seus escritos autobiográficos, Teresa não apresenta a própria infância simplesmente como uma sequência de acontecimentos, mas procura identificar nela a ação providencial de Deus.
São João Paulo II, ao apresentar sua vida na Divini Amoris Scientia, recorda alguns desses acontecimentos: a morte de sua mãe em 1877, a transferência da família para Lisieux, a primeira experiência sacramental da penitência, a doença que sofreu em 1883 e que atribuiu a cura à intercessão de Nossa Senhora das Vitórias, e sua Primeira Comunhão, celebrada em 8 de maio de 1884.
Esses episódios ajudam a compreender uma característica fundamental de sua espiritualidade: Teresinha aprendeu a olhar para acontecimentos concretos à luz da fé.
A entrada no Carmelo aos 15 anos
A vocação religiosa amadureceu cedo. Teresa desejava entrar no Carmelo de Lisieux e seguir a vida contemplativa. A idade, entretanto, tornou-se um obstáculo: ela tinha apenas 14 anos.
Em novembro de 1887, durante uma peregrinação à Itália, pediu pessoalmente ao Papa Leão XIII autorização para entrar no Carmelo antes da idade normalmente permitida. O pedido não recebeu naquele momento a resposta que esperava. Poucos meses depois, a autorização foi concedida.
Em 9 de abril de 1888, aos 15 anos, Teresa entrou no Carmelo de Lisieux. Ali permaneceria até sua morte, nove anos depois. Em 10 de janeiro de 1889, recebeu o hábito carmelita. Em 8 de setembro de 1890, realizou sua profissão religiosa e, posteriormente, recebeu o véu.
A partir daquele momento, sua vida seria marcada por aquilo que posteriormente pareceria paradoxal: quanto mais sua existência se escondia aos olhos do mundo, mais universal se tornaria sua mensagem.
A construção da obra “História de uma alma”
Um dos equívocos mais comuns sobre Santa Teresinha é imaginar que ela escreveu uma autobiografia chamada História de uma Alma com a intenção de publicá-la. Não foi assim. A obra que conhecemos hoje nasceu da reunião de três manuscritos autobiográficos diferentes, escritos em circunstâncias distintas, entre 1895 e 1897.
O primeiro é o Manuscrito A. Em janeiro de 1895, Teresa recebeu de Madre Inês de Jesus, então prioresa do Carmelo (sua irmã mais velha Pauline, a segunda filha de Louis e Zélie), a ordem de registrar suas lembranças de infância. O texto foi entregue à Madre Inês em 21 de janeiro de 1896.
O Manuscrito B possui natureza diferente. Foi escrito durante um retiro espiritual, em setembro de 1896, a pedido da Irmã Maria do Sagrado Coração (sua irmã mais velha Marie). É nesse texto que aparecem algumas das páginas mais conhecidas da espiritualidade de Teresa, sobretudo sua busca pela própria vocação dentro da Igreja.
Já o Manuscrito C foi escrito em 1897, já durante a última doença de Teresa. A pedido da Madre Maria de Gonzaga, então prioresa, Teresa registrou sua experiência da vida religiosa no Carmelo. O texto permaneceu inacabado devido ao agravamento de sua saúde.
São João Paulo II confirmou essa estrutura ao apresentar os escritos que fundamentaram o reconhecimento de Teresa como Doutora da Igreja:
· O Manuscrito A descreve sua trajetória desde a infância até a profissão religiosa;
· Já o Manuscrito B concentra importantes páginas sobre sua experiência espiritual;
· Enquanto o Manuscrito C registra especialmente sua vida religiosa.
Depois de sua morte, os manuscritos foram reunidos e publicados em 1898 sob o título Histoire d'une âme (História de uma Alma, em tradução livre_)_.
O Papa Bento XVI, durante a Audiência Geral de 6 de abril de 2011, observou que a publicação dos escritos de Teresa fez com que uma jovem que havia vivido apenas 24 anos se tornasse uma das santas mais conhecidas e amadas da Igreja. O Papa identificou justamente em História de uma Alma a principal expressão de sua “ciência do amor”.
“De fato, a [obra] História de uma alma é uma história maravilhosa de Amor, narrada com tanta autenticidade, simplicidade e vigor que o leitor não pode deixar de se admirar! Mas qual é este Amor que encheu toda a vida de Teresa, desde a infância até à morte? Queridos amigos, este Amor tem um Rosto, tem um Nome, é Jesus! A Santa fala continuamente de Jesus.”
A pequena via de Santa Teresinha
A espiritualidade de Santa Teresinha do Meninos Jesus costuma ser resumida pela expressão “pequena via”. A expressão, porém, não significa uma espiritualidade fácil.
São João Paulo II foi explícito sobre isso ao proclamar Teresa Doutora da Igreja: “Os Pastores da Igreja, a começar pelos meus predecessores, os Sumos Pontífices deste século, que propuseram a sua santidade como exemplo para todos, puseram também em relevo que Teresa é mestra de vida espiritual, mediante uma doutrina, ao mesmo tempo simples e profunda, que ela bebeu nas fontes do Evangelho sob a guia do Mestre divino e, depois, comunicou aos irmãos e irmãs na Igreja com vastíssima eficácia” (Divini Amoris Scientia, 3).
A pequena via nasce de uma constatação espiritual, Teresa reconhece sua pequenez e, em vez de tentar superar essa condição pelas próprias forças, entrega-se à misericórdia de Deus. É nesse contexto que ganha sentido sua conhecida imagem do “elevador” que a levaria aos céus: diante da impossibilidade de subir sozinha a escada da perfeição, Teresa confia que Deus mesmo a elevará. “Vossos braços são o elevador que deve elevar-me até o céu, ó Jesus! Para isso, eu não preciso crescer, pelo contrário, preciso permanecer pequena, que o venha a ser sempre mais. Ó meu Deus, superastes minha expectativa e quero cantar as vossas misericórdias” (História de uma alma, Manuscrito C)
A confiança em Deus conduz Santa Teresinha a realizar com amor aquilo que lhe é possível fazer. Uma tarefa simples realizada por amor. Uma contrariedade suportada por amor. Uma oração oferecida por amor. Um serviço escondido realizado por amor. A pequena via não diminui a exigência da santidade. Ela desloca o centro da vida espiritual: não é a grandeza da obra que determina seu valor diante de Deus, mas a caridade com que ela é realizada.
Em 2023, o Papa Francisco retomou essa compreensão na Exortação Apostólica C’est la confiance, publicada por ocasião dos 150 anos do nascimento de Santa Teresinha do Menino Jesus. Logo no início do documento, o Santo Padre escolhe uma frase da própria santa para sintetizar sua espiritualidade: “Só a confiança e nada mais do que a confiança tem de conduzir-nos ao Amor.”
“No coração da Igreja, minha Mãe, eu serei o Amor”
É no Manuscrito B que encontramos uma das páginas decisivas para compreender a vocação de Santa Teresinha. Ao meditar sobre as diferentes vocações existentes na Igreja, ela se pergunta qual seria seu lugar no Corpo de Cristo. Queria ser apóstola, missionária, sacerdote. Queria anunciar o Evangelho, participar do martírio. Como conciliar todos esses desejos? A resposta aparece em sua célebre descoberta: “No coração da Igreja, minha Mãe, eu serei o Amor”.
A frase não é simplesmente uma bela declaração. Para Teresa, o amor é aquilo que coloca todas as vocações em movimento. Se a Igreja é o Corpo de Cristo, cada membro possui uma função. Santa Teresinha compreendeu que poderia participar da missão da Igreja amando.
Por isso, o amor não a afastou da missão. Foi justamente o amor que lhe revelou sua participação na missão e na vida missionária.
A carmelita missionária em clausura
Em 1895, Madre Inês confiou a Irmã Teresa do Menino Jesus e da Santa Face a oração e o acompanhamento espiritual do seminarista Maurício Bellière, que posteriormente seria ordenado sacerdote e enviado em missão à África. No ano seguinte, Madre Maria de Gonzaga confiou-lhe outro missionário: Pe. Adolfo Roulland, sacerdote das Missões Estrangeiras de Paris, destinado à China. Teresa manteve correspondência com ambos e os chamava de “irmãos espirituais”.
Mas qual foi a missão de Santa Teresinha? Era simples, ainda que grande em sentido espiritual, ela acompanhava pessoas que haviam recebido o envio missionário da Igreja. Em suas cartas, Teresa procurava encorajá-los, assegurava-lhes suas orações e oferecia por sua missão seus sofrimentos e sacrifícios.
São João Paulo II destacou esse aspecto durante a proclamação de Teresa como Doutora da Igreja: “Com o seu exemplo de santidade, de perfeita fidelidade à Mãe Igreja, em plena comunhão com a Sé de Pedro, assim como com as particulares graças por ela suplicadas para muitos irmãos e irmãs missionários, prestou um particular serviço à renovada proclamação e experiência do Evangelho de Cristo e à extensão da fé católica em todas as nações da terra” (Divini Amoris Scientia, 10).
É justamente aqui que sua vida contemplativa adquire uma dimensão missionária objetiva. Teresa não substituiu os missionários, ela se uniu à missão deles.
Padroeira das Missões
O Papa Pio XI proclamou Santa Teresa do Menino Jesus e da Santa Face padroeira das missões, juntamente com São Francisco Xavier, em 14 de dezembro de 1927.
O reconhecimento não se baseava em uma experiência de missão territorial. Teresa jamais deixou a clausura. Tratava-se de reconhecer que sua oração, seu sacrifício, sua união com Cristo e seu acompanhamento dos missionários constituíam uma verdadeira participação na missão da Igreja.
Em 1997, João Paulo II retomou essa questão durante a homilia da proclamação de Teresa como Doutora da Igreja: “Teresa foi iluminada de maneira particular sobre a realidade do Corpo místico de Cristo, sobre a variedade dos seus carismas, dons do Espírito Santo, sobre a força eminente da caridade, que é como que o próprio coração da Igreja, na qual ela encontrou a sua vocação de contemplativa e de missionária” (Divini Amoris Scientia, 8).
Essa é uma das chaves mais importantes para compreender Santa Teresinha do Menino Jesus. Ela não foi proclamada padroeira das missões apesar de ter vivido na clausura. Ela é padroeira das missões também por causa da maneira como viveu sua vocação contemplativa.
O que Santa Teresinha ensina aos missionários?
A resposta pode ser encontrada nos próprios acontecimentos de sua vida. Ela ensina que a missão nasce de uma relação pessoal com Cristo, que a oração não é uma atividade paralela, mas pode ser uma forma concreta de participação; que o missionário não trabalha isoladamente, mas unido a toda a Igreja e que a missão não termina naqueles que partem. Ela envolve também aqueles que permanecem, rezam, sustentam, acompanham e oferecem.
Por isso, a figura de Santa Teresinha do Menino Jesus possui uma ressonância especial para todos aqueles que atravessam fronteiras para servir. Ela lembra que, antes de ser uma tarefa, a missão é uma resposta de amor.
Para os missionários e para todos aqueles que participam da missão da Igreja, permanece o testemunho vivo de Santa Teresinha: “No coração da Igreja, minha Mãe, eu serei o Amor.”
Fontes consultadas: Manuscritos autobiográficos A, B e C, de Santa Teresa do Menino Jesus e da Santa Face; João Paulo II, Divini Amoris Scientia (1997) e Homilia pela proclamação de Santa Teresa como Doutora da Igreja (1997); Bento XVI, Audiência Geral de 6 de abril de 2011; Francisco, C’est la confiance (2023); Arquivos do Carmelo de Lisieux; Santuário de Lisieux.
Texto: Vitor da Cruz Azevedo, setor de conteúdo do Departamento Regional de Comunicação.
Foto: Les archives du Carmel de Liseux.




