
A recente prisão de Nicolás Maduro em uma ação conduzida pelos Estados Unidos reacendeu o alerta internacional sobre a instabilidade política e social na Venezuela e seus possíveis desdobramentos no cenário migratório regional. Na fronteira norte brasileira, em Roraima, a entrada diária de venezuelanos segue estável, com cerca de 700 pessoas por dia atravessando por Pacaraima, evidenciando que, mesmo diante de mudanças geopolíticas significativas, a migração venezuelana permanece um fenômeno contínuo e complexo.
Para analisar esse cenário e refletir sobre os desafios humanitários atuais e a resposta da Igreja, entrevistamos o Pe. Paolo Parise, CS, diretor do Centro de Estudos Migratórios (CEM) da Missão Paz, em São Paulo, Brasil. Confira:
CS: Considerando a recente prisão de Nicolás Maduro em uma ação dos Estados Unidos, como o senhor avalia os possíveis impactos dessa situação no fluxo migratório venezuelano, especialmente para países vizinhos?
PP: Eu diria que, neste momento, o cenário é realmente imprevisível. Diante de todos os acontecimentos recentes, não há como afirmar se haverá um aumento, uma diminuição ou até mesmo um retorno dos venezuelanos que atualmente vivem em países vizinhos, inclusive no Brasil. Há dois ou três dias, participei de uma reunião com agências das Nações Unidas e instituições que atuam com migrantes venezuelanos em diversas regiões do Brasil, e o consenso era justamente esse: não há clareza sobre o que pode acontecer. Estamos vivendo um cenário quase de guerra, que exige prudência, cautela e muita atenção, sobretudo à fronteira de Roraima, que funciona como um verdadeiro termômetro da situação. Antes do Natal, a média de entrada em Pacaraima, na fronteira entre Venezuela e Brasil, era de aproximadamente 700 venezuelanos por dia, e esse número se mantém até hoje. Ou seja, independentemente dos acontecimentos mais recentes na Venezuela, o fluxo segue relativamente estável. Tenho afirmado em algumas entrevistas que precisamos estar preparados para três possíveis cenários: um aumento do fluxo, que naturalmente se manifestaria primeiro em Roraima; um movimento de retorno, por exemplo, de venezuelanos que vivem no Sul do Brasil e precisariam passar por São Paulo em direção à Venezuela; ou a manutenção do fluxo atual. Diante desse cenário imprevisível, precisamos estar atentos a todas essas possibilidades.
CS: Agências internacionais de direitos humanos alertam para possíveis agravamentos das condições de vida na Venezuela após essa ação internacional. Como essa realidade reforça os desafios humanitários que já acompanhamos nas últimas décadas?
PP: Essa situação apenas aprofunda desafios que já são históricos. A Venezuela vive, há anos, uma crise política, econômica e social que afeta diretamente a vida da população, especialmente dos mais vulneráveis. Quando se soma a isso um cenário de instabilidade internacional, o risco de agravamento das condições de vida aumenta significativamente. Isso impacta diretamente os fluxos migratórios, pois muitas pessoas se veem obrigadas a deixar o país não por escolha, mas por necessidade. Para quem atua no campo humanitário, o desafio é permanente: garantir proteção, acolhida e dignidade em contextos cada vez mais complexos e instáveis.
CS: Como a Congregação dos Missionários de São Carlos – Scalabrinianos pode se preparar para responder a essas necessidades emergentes?
PP: A Congregação dos Missionários de São Carlos já vem lidando há muitos anos com o fenômeno da migração, inclusive a migração venezuelana, assim como outras. Independentemente da nacionalidade ou do status migratório, a Congregação atua com todos. Já acolhemos haitianos, sírios, afegãos e, atualmente, continuamos acompanhando os venezuelanos. A nossa preocupação central é sempre a pessoa do migrante, acima de qualquer outra característica. Evidentemente, quando há um aumento do fluxo, cresce também a demanda por acolhida e serviços. No caso específico dos venezuelanos, a Congregação colaborou com a Operação Acolhida e com o programa de interiorização em várias cidades onde atua, como Florianópolis, Manaus, Cuiabá e Porto Alegre. Essa colaboração já existe e se estende tanto aos migrantes interiorizados quanto àqueles que chegam de forma espontânea. O grande desafio atual é econômico. As agências da ONU, como o ACNUR e a OIM, enfrentam sérias dificuldades financeiras, em parte devido aos cortes de recursos humanitários promovidos pelos Estados Unidos. Diante disso, é necessário buscar novas fontes de apoio para continuar respondendo às necessidades básicas: acolhida, alimentação, regularização migratória, acesso ao trabalho, aprendizado do idioma e atendimento jurídico.
CS: Em um cenário como o atual, quais ações concretas a Congregação tem desenvolvido para acolher, proteger e promover a dignidade das pessoas venezuelanas em mobilidade?
PP: As ações da Congregação são marcadas por uma preocupação integral com a pessoa migrante. Isso significa olhar para o ser humano em todas as suas dimensões: espiritual, física, psicológica, social e cultural. Não se trata apenas de atender necessidades imediatas, mas de acompanhar a pessoa em seus desafios de vida. Por isso, há iniciativas voltadas ao acesso ao trabalho, à aprendizagem do idioma, ao atendimento médico e psicológico, à formação profissional e, quando necessário, à acolhida em espaços de abrigo. Ao mesmo tempo, existe uma atenção à dimensão espiritual, sempre com respeito à identidade religiosa e cultural de cada pessoa. A acolhida é incondicional. Outro aspecto fundamental é evitar o assistencialismo. O migrante não é visto como um “coitado”, mas como protagonista da própria história, alguém que precisa de apoio em um momento de vulnerabilidade. Em São Paulo, por exemplo, na Missão Paz, há iniciativas específicas muito importantes, como os cursos profissionalizantes. Um exemplo foi a parceria com a Volvo, que ofereceu formação para migrantes na área de mecânica. Durante o curso, os participantes recebiam salário e podiam avançar em diferentes níveis de formação, conforme suas capacidades. Isso permitiu que muitos aprofundassem ou adquirissem uma profissão e ingressassem rapidamente no mercado de trabalho.
CS: Por fim, diante de uma realidade tão complexa, qual mensagem de esperança o senhor deixaria às comunidades cristãs e à sociedade em geral sobre a resposta da Igreja aos migrantes venezuelanos?
PP: A primeira coisa que eu diria é que precisamos lembrar que os migrantes são pessoas, não números ou estatísticas. É fundamental evitar estereótipos e preconceitos que, infelizmente, ainda recaem sobre quem migra, como a ideia de que o migrante é uma ameaça ou um perigo. Também é importante recordar que ninguém é “migrante” em si, mas uma pessoa em situação de migração. A própria história bíblica nos ajuda a compreender isso. Celebramos recentemente o mistério do Natal e, logo no início do Evangelho de São Mateus, vemos que a Sagrada Família precisou fugir para o Egito para escapar da perseguição de Herodes. Ou seja, a experiência da migração e do refúgio já marca a história da salvação. A migração faz parte da história humana e pode se tornar uma página sagrada dessa história, pois carrega a presença de Deus. Como nos recorda o Evangelho de São Mateus, no capítulo 25: “Eu era estrangeiro e me acolhestes”. Essa é a base da resposta cristã: reconhecer no migrante o próprio Cristo que pede acolhida.
Texto: Vitor da Cruz Azevedo, setor de conteúdo do Departamento Regional de Comunicação.
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