
A migração é um processo complexo de mudança que impacta a vida em diversas dimensões: física, emocional, psicológica, cultural, social, espiritual e econômica. Por sua natureza, trata-se de um momento delicado, que exige compreensão e cuidado para que a vida da pessoa migrante possa continuar a fluir em seu novo contexto.
Embora existam riscos para a saúde mental durante o processo migratório, esses impactos costumam ser transitórios e variam de acordo com fatores como personalidade, saúde física e emocional, preparo para a migração, motivo da mudança (voluntária ou forçada) e as características do país de acolhida, incluindo legislação, presença de xenofobia e condições sociais.
A migração representa uma ruptura e, ao mesmo tempo, uma crise: rompe-se com o ambiente conhecido e seguro, e inicia-se um processo de reconfiguração de identidade e pertencimento. No início, é comum sentir confusão espacial e temporal, medo do futuro e uma espécie de luto silencioso pelos vínculos afetivos, culturais e geográficos abandonados.
Entre os sintomas mais frequentes estão estresse, alterações no apetite e sono, irritabilidade, insônia, e manifestações psicossomáticas relacionadas à adaptação ao novo ambiente e às exigências imediatas: regularizar documentos, encontrar moradia e trabalho, aprender a língua local, acessar os serviços de saúde e validar estudos.
Migrantes forçados — que fogem de guerras, perseguições ou desastres — vivenciam essas reações de forma ainda mais intensa. É comum, por exemplo, o sentimento de culpa entre os que migram sozinhos por não terem conseguido salvar seus familiares. Em alguns casos, surgem sintomas compatíveis com transtorno de estresse pós-traumático, como flashbacks, pesadelos, insônia, sudorese, evitação de locais ou pessoas e alterações de humor.
É importante destacar que essas reações não devem ser, automaticamente, interpretadas como patologias. Muitas vezes, são respostas humanas a um processo desafiador. Contudo, há casos em que migrantes já tinham histórico de transtornos mentais ou desenvolveram quadros psicóticos durante a migração. Essas situações exigem acompanhamento especializado. No Brasil, a ausência de um responsável legal para autorizar internações — especialmente no caso de migrantes desacompanhados — ainda é um desafio discutido por entidades como a “Rede de Cuidados em Saúde para Imigrantes, Refugiados e Apátridas”, da qual a Missão Paz é cofundadora.
Diante disso, é fundamental a presença de profissionais da psicologia em espaços de acolhida. Psicólogos e psicólogas são formados para compreender as relações humanas, as fases do desenvolvimento, os modos de comunicação, os sentimentos, os valores e as respostas diante de situações de crise. Esse olhar é ainda mais necessário quando se trata de pessoas que vivem um recomeço em outro país.
Na Missão Paz, o trabalho do Serviço Psicossocial se baseia em escuta dialógica e abordagem intercultural. A escuta é construída com o migrante como sujeito de sua própria história, promovendo reflexão sobre o passado, fortalecimento no presente e abertura para o futuro. Migrantes que também atuam como psicólogos têm uma contribuição valiosa, pois aliam experiência vivida e formação teórica.
Além disso, vale destacar o trabalho da Pastoral da Escuta, que oferece atenção, presença e empatia aos migrantes atendidos na Missão. Embora nem todo cuidado psicológico exija um profissional, o ideal é que os agentes pastorais também recebam formação para lidar com essas situações com sensibilidade e responsabilidade.
Por fim, como recorda o saudoso Papa Francisco, todos somos chamados a acolher, proteger, promover e integrar os migrantes. E, nesse caminho, os cuidados psicológicos são parte essencial do processo de humanização e dignificação de quem busca recomeçar a vida em outra terra.
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Texto: Berenice Young, Psicóloga da Missão Paz.
Foto: Adobe Stock.


