Deixai vir a mim os pequeninos: Uma reflexão sobre o Dia mundial contra o trabalho infantil

No dia 12 de junho, celebramos o Dia Mundial contra o Trabalho Infantil, uma data que convoca toda a sociedade a enfrentar uma realidade ainda cruel. Segundo o relatório conjunto da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e do UNICEF, publicado em 2024, aproximadamente 138 milhões de crianças em todo o mundo estão envolvidas em trabalho infantil, sendo 54 milhões delas submetidas a atividades perigosas, que colocam em risco sua saúde, segurança ou desenvolvimento.

Embora tenha ocorrido uma redução global de cerca de 22 milhões de casos desde 2020, o progresso é extremamente lento. Para atingir a meta de erradicar o trabalho infantil até 2025, conforme estipulado pela Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU), seria necessário acelerar em mais de 11 vezes o ritmo atual de redução. A região mais afetada continua sendo a África Subsaariana, com cerca de 87 milhões de crianças nessa condição (OIT/UNICEF, Child Labour Global Estimates 2024).

Entre essas milhões de crianças exploradas, aquelas que são migrantes ou refugiadas se encontram em situação ainda mais crítica. São obrigadas a deixar suas terras por causa de guerras, mudanças climáticas, crises econômicas ou perseguições. Em muitos casos, viajam desacompanhadas ou com familiares igualmente vulneráveis, tornando-se alvos fáceis para redes de exploração.

A dignidade ferida que clama ao céu

A Igreja, Mãe e Mestra zelosa, tem sido voz profética na denúncia dessa chaga social. Em sua mensagem para o Dia Mundial do Migrante e Refugiado em 2017, o Papa Francisco afirmou: “(...) entre os migrantes, as crianças constituem o grupo mais vulnerável, porque, enquanto assomam à vida, são invisíveis e sem voz: a precariedade priva-as de documentos, escondendo-as aos olhos do mundo; a ausência de adultos, que as acompanhem, impede que a sua voz se erga e faça ouvir. Assim, os menores migrantes acabam facilmente nos níveis mais baixos da degradação humana, onde a ilegalidade e a violência queimam numa única chama o futuro de demasiados inocentes, enquanto a rede do abuso de menores é difícil de romper.

Ainda nessa mensagem, o Sumo Pontífice declara: “Como responder a esta realidade? Em primeiro lugar, tornando-se consciente de que o fenómeno migratório não é alheio à história da salvação; pelo contrário, faz parte dela. Relacionado com ele está um mandamento de Deus: «Não usarás de violência contra o estrangeiro residente nem o oprimirás, porque foste estrangeiro residente na terra do Egito» (Ex 22, 20); «amarás o estrangeiro, porque foste estrangeiro na terra do Egito» (Dt 10, 19). Este fenómeno constitui um sinal dos tempos, um sinal que fala da obra providencial de Deus na história e na comunidade humana tendo em vista a comunhão universal”.

Esse apelo ecoa o coração do Evangelho, que nos pede a acolhida dos pequeninos (Mt 18,6). O Dicastério Para a Doutrina da Fé, no documento Dignitas Infinita (02 de abril de 2024), reforça a defesa da infância ao denunciar práticas que atentam contra a dignidade humana, como a exploração infantil, o tráfico e a escravidão contemporânea.

A atuação Scalabriniana contra o trabalho infantil

Inspirada pelo carisma de São João Batista Scalabrini, a Congregação dos Missionários de São Carlos – Scalabrinianos tem uma longa tradição de serviço à vida e à dignidade humana, especialmente junto aos migrantes. Suas Obras Sociais de Atenção a Crianças e Adolescentes atuam com o objetivo de garantir proteção integral, desenvolvimento humano e inclusão social de crianças e adolescentes, migrantes ou não, em contextos de vulnerabilidade.

Essas obras oferecem:

  • Acompanhamento psicossocial e apoio educacional;

  • Oficinas de cidadania, cultura e direitos humanos;

  • Atividades socioeducativas, esportivas e recreativas;

  • Fortalecimento dos vínculos familiares e comunitários;

  • Articulação com a rede de proteção da infância e juventude.

Por meio dessas ações, os Missionários de São Carlos reafirmam seu compromisso com uma cultura de paz, solidariedade e justiça desde a infância.

· Lar da Criança Primo e Palmira Pandolfo Mantido pela Associação Beneficente São Carlos, o Lar foi fundado há mais de 50 anos para acolher crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade. Atualmente, assiste mais de 110 meninas da comunidade, com infraestrutura completa: biblioteca, parque infantil, quadra coberta e áreas verdes. Um espaço de acolhimento, dignidade e reconstrução.

· Instituto Cristóvão Colombo (ICC) Fundado com o nome de Orfanato Cristóvão Colombo pelo Venerável Pe. José Marchetti, o ICC é uma das mais antigas instituições sociais do Estado de São Paulo. Hoje, dedica-se ao atendimento de crianças e adolescentes, por meio do Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos (SCFV). As ações promovem acesso à cultura, lazer, alimentação saudável e oficinas que favorecem o desenvolvimento integral.

·  Patronato Júlio Mailhos Fundado com a missão de oferecer apoio educacional, psicológico e social, o Patronato atende meninos em situação de vulnerabilidade, promovendo não só a escolarização, mas também a formação de valores, o fortalecimento da autoestima e o protagonismo na construção de uma vida digna.

Fé em ação concreta

Neste Dia Mundial contra o Trabalho Infantil, a Igreja nos convida a olhar com os olhos de Cristo para as crianças vítimas da exploração. A missão dos Missionários Scalabrinianos mostra que é possível resistir ao escândalo do trabalho infantil com ações concretas, promovendo cuidado, proteção e esperança. “Deixai vir a mim os pequeninos” (Mt 19,14) não é apenas um chamado espiritual, mas um apelo urgente para que a infância não seja sacrificada pela miséria ou pela indiferença.


Texto: Vitor da Cruz Azevedo, Setor de Conteúdo do Departamento Regional de Comunicação.

Foto: Adobe Stock.

Nós utilizamos cookies para aprimorar e personalizar a sua experiência em nosso site. Ao continuar navegando, você concorda em contribuir para os dados estatísticos de melhoria.

Concordo