
Todos os anos, em 15 de agosto, a Igreja celebra a Solenidade da Assunção da Bem-Aventurada Virgem Maria. Para muitos fiéis, a data está profundamente ligada às devoções marianas, às procissões e às celebrações litúrgicas. Entretanto, por trás dessa solenidade existe uma das afirmações mais importantes da fé católica sobre a Virgem Maria: ao terminar o curso de sua vida terrena, a Mãe de Jesus foi elevada à glória do Céu em corpo e alma.
A Assunção é um dogma de fé, solenemente definido pelo Papa Pio XII em 1º de novembro de 1950, por meio da Constituição Apostólica Munificentissimus Deus. O documento afirma que a “(...) pronunciamos, declaramos e definimos ser dogma divinamente revelado que: a imaculada Mãe de Deus, a sempre virgem Maria, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celestial”.
A definição dogmática, porém, não surgiu de maneira isolada. O Sumo Pontífice apresenta em seu documento uma longa trajetória de fé, liturgia, tradição e ensinamento eclesial que testemunhava a crença da Igreja na glorificação de Maria. Décadas mais tarde, São João Paulo II retomaria esse ensinamento em suas catequeses e homilias, ajudando a compreender que a Assunção revela aquilo que Deus promete realizar em todos aqueles que, pela graça, permanecem unidos a Cristo.
Uma verdade de fé construída na Tradição da Igreja
Ao definir o dogma, Papa Pio XII não apresentou a Assunção como uma novidade introduzida pela Igreja no século XX. Pelo contrário, a Munificentissimus Deus percorre a história da devoção e do ensinamento cristão para demonstrar que a fé na glorificação de Maria estava profundamente arraigada na vida da Igreja.
O processo de definição dogmática também envolveu uma ampla consulta ao episcopado mundial. Em 1946, por meio da Encíclica Deiparae Virginis Mariae, Pio XII consultou os bispos sobre a possibilidade de definir como dogma a Assunção corpórea de Maria. Das 1.181 respostas recebidas, apenas seis manifestaram alguma reserva quanto ao caráter revelado dessa verdade.
Isso é importante para compreender o sentido de um dogma católico. A Igreja não “cria” uma verdade de fé quando a define solenemente. Ela reconhece, esclarece e proclama de maneira definitiva aquilo que recebeu da Revelação e que foi conservado e transmitido na vida da própria Igreja.
O que significa dizer que Maria foi elevada “em corpo e alma”?
Esta talvez seja a questão central para compreender a solenidade. A Igreja não ensina simplesmente que Maria “foi para o Céu”. A definição dogmática afirma algo muito mais específico: Maria foi elevada à glória celeste em sua integridade humana, corpo e alma.
São João Paulo II explicou essa questão em uma catequese de 2 de julho de 1997, dedicada especificamente à Solenidade da Assunção. Segundo o Papa, enquanto os demais cristãos aguardam a ressurreição dos corpos no fim dos tempos, em Maria a glorificação corporal foi antecipada por um privilégio singular.
A distinção é fundamental. A Assunção não significa que Maria tenha ressuscitado da mesma maneira que Cristo. São João Paulo II observa: “No dia 1 de novembro de 1950, ao definir o dogma da Assunção, Pio XII evitou usar o termo ‘ressurreição’ e tomar posição a propósito da questão da morte da Virgem como verdade de fé. A Bula Munificentissimus Deus limita- se a afirmar a elevação do corpo de Maria à glória celeste, declarando tal verdade como um ‘dogma divinamente revelado’” (A Assunção de Marida, verdade de fé – 02 de julho de 1997).
Por isso, a Igreja pode celebrar a Assunção sem transformar em dogma uma questão que a própria definição de 1950 deixou em aberto: se Maria morreu ou não, antes de sua glorificação. O ponto essencial é outro: a morte e a corrupção não tiveram a última palavra sobre o corpo daquela que foi preservada do pecado original e esteve intimamente unida à missão redentora de seu Filho.
A Assunção só pode ser compreendida a partir de Cristo
Tudo aquilo que a Igreja afirma sobre Nossa Senhora está relacionado ao mistério de Cristo. Maria é a Mãe do Salvador porque é a Mãe do Filho de Deus encarnado; é Imaculada por uma graça proveniente dos méritos de Cristo; e é Assunta ao Céu como fruto singular da redenção realizada por seu Filho.
A Munificentissimus Deus estabelece justamente essa relação. O Papa Pio XII recorda que Cristo venceu o pecado e a morte por sua Paixão, Morte e Ressurreição. Maria, preservada do pecado desde sua concepção, recebeu também um privilégio singular em relação à corrupção do corpo.
Para São João Paulo II, a Assunção é consequência da profunda união de Maria com o destino de Cristo. Sua participação na vida do Filho não termina simplesmente com a morte: aquela que esteve intimamente associada à missão do Redentor participa também, de maneira singular, da vitória celeste de Cristo.
A Assunção aponta para o destino de toda a humanidade
Celebrar a Assunção não significa apenas recordar um privilégio concedido a Maria. Significa também olhar para aquilo que Deus deseja realizar em seus filhos. São João Paulo II afirmou que Maria é a antecipação daquilo que aguarda os membros da Igreja. Em uma de suas catequeses, explicou: “(...) enquanto para os outros homens a ressurreição dos corpos se há-de verificar no fim do mundo, para Maria a glorificação do próprio corpo foi antecipada por singular privilégio”.
Ela é, portanto, uma espécie de “primeiro fruto” da redenção aplicada em sua plenitude. Não porque tenha sido salva independentemente de Cristo, mas, precisamente, porque foi redimida de maneira singular pelos méritos de seu Filho.
Maria, sinal de esperança para uma Igreja peregrina
São João Paulo II frequentemente apresentou Maria como sinal de esperança. Em 2003, ao celebrar a Solenidade da Assunção, afirmou que todos os seres humanos, peregrinos na terra, podem contemplar em Maria o destino de glória que os espera. Segundo ele, a festa recorda que o mal e a morte não terão a última palavra. Essa perspectiva impede que a Assunção seja reduzida a uma devoção sentimental. Maria está no Céu, mas sua presença não significa afastamento da humanidade.
O Concílio Vaticano II ensina que, elevada ao Céu, Maria não abandonou sua missão materna. Pelo contrário, continua a interceder pelos filhos que ainda peregrinam na terra. “Concebendo, gerando e alimentando a Cristo, apresentando-O ao Pai no templo, padecendo com Ele quando agonizava na cruz, cooperou de modo singular, com a sua fé, esperança e ardente caridade, na obra do Salvador, para restaurar nas almas a vida sobrenatural. É por esta razão nossa mãe na ordem da graça” (LG, 61).
A mediação de Maria é sempre subordinada à única mediação de Cristo, como destaca São João Paulo II. Ela não compete com Cristo; participa, por graça, da obra daquele que é o único Redentor. Por isso, recorrer a Maria significa, em última análise, ser conduzido para Cristo.
O que a Assunção diz ao cristão de hoje?
A Solenidade da Assunção da Bem-aventurada Virgem Maria não convida apenas a olhar para o Céu. Convida também a compreender melhor a vida na terra. Maria chegou à glória não fugindo da realidade, mas atravessando-a com fé. Ela viveu a história da salvação de maneira plena.
Por isso, a Assunção apresenta uma resposta para um dos maiores questionamentos da humanidade: qual será o nosso destino? A Igreja responde apontando para Maria. Não fomos criados apenas para esta existência passageira. Em Cristo, a vida é eterna. E Maria já está onde a Igreja espera chegar.
São João Paulo II resumiu essa dimensão ao apresentar Nossa Senhora como sinal consolador da esperança cristã: “Para nós a solenidade de hoje é quase uma continuação da Páscoa: da Ressurreição e da Ascensão do Senhor. E é, ao mesmo tempo, o sinal e a fonte da esperança da vida eterna e da ressurreição futura. Deste sinal lemos no Apocalipse de João: ‘Apareceu no Céu um sinal grandioso: uma Mulher revestida com o Sol, a Lua debaixo dos Pés; na cabeça, uma coroa de doze estrelas’ (12, 1)” (Homilia do Papa João Paulo II, 15 de agosto de 1980).
Texto: Vitor da Cruz Azevedo, setor de conteúdo do Departamento Regional de Comunicação.
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