
Fundada há 58 anos, a obra social dos Missionários Scalabrinianos dá prioridade a meninas migrantes e a filhas de famílias em vulnerabilidade
Diz o ditado que educar uma menina é educar toda a nação. Em Guaporé, no Rio Grande do Sul, Brasil, há 58 anos uma obra social dos Missionários Scalabrinianos prova que ele está certo. O Lar da Criança Primo e Palmira Pandolfo, fundado em 24 de março de 1968 e mantido pela Associação Beneficente São Carlos, atende hoje mais de 100 meninas de 5 a 14 anos, com prioridade para as migrantes, as filhas de mães solo e as que vivem em áreas de risco.
A rotina é a de uma escola que não é escola. As meninas chegam no turno inverso ao das aulas e ficam das 7h às 17h, de segunda a sexta-feira. Tomam café, almoçam, brincam no pátio e também têm tarefas: arrumam as salas, organizam o refeitório, lavam a louça. No meio do dia, há oficinas de teatro, dança, poesia, música e pintura, além de futsal e aulas de inclusão digital em parceria com o Centro de Referência de Assistência Social (CRAS).

Mas a pergunta, aqui, não é só o que elas fazem, e sim quem consegue entrar. Há mais meninas querendo do que vagas, então a assistente social visita as casas das famílias antes de decidir. O primeiro critério é a urgência, e ela costuma ter nome e sobrenome: famílias imigrantes, mães que criam os filhos sozinhas, bairros de maior risco.
"A gente tenta atender prioritariamente as meninas que são migrantes, filhas de mãe solo", explica a diretora, Lourdes Pandolfo, no cargo desde 2022. A escolha, segundo ela, tem um motivo prático: "Muitas vezes a mãe precisa desse espaço para ela poder trabalhar, estruturar a renda familiar em casa, que muitas vezes não existe". Entre as atendidas estão 16 meninas venezuelanas e haitianas, e uma das orientadoras, venezuelana, ajuda na convivência entre idiomas e culturas.
É nessa convivência que Lourdes enxerga o carisma scalabriniano em ação. "O trabalho que é desenvolvido aqui é totalmente pensado para essa convivência comunitária e, de certa forma, já engloba todos os valores scalabrinianos", diz.

É em comunidade, segundo ela, que as meninas aprendem "o respeito ao próximo", a solidariedade com as colegas e o respeito às diferenças, com contato direto com outras línguas e outras culturas. As tarefas do dia a dia entram na mesma conta: servem para criar "esse senso de responsabilidade, esse senso de coletivo, essa autonomia". É nessa soma que o Lar tenta fazer sua aposta mais ambiciosa. "Aqui é o espaço onde elas são convidadas a sonhar, a imaginar um futuro diferente, imaginar uma nova perspectiva de vida", afirma.
O exemplo mais claro dessa aposta é a assistente social Jéssica Bressan Muniz. Ela foi menina do Lar da Criança Primo e Palmira Pandolfo dos 7 aos 14 anos. Anos depois, quando chegou a hora do estágio acadêmico, não pensou em outro lugar. Um ano mais tarde, a direção a convidou para assumir o cargo. É ela quem visita as famílias e conduz o processo de seleção, ou seja, quem decide, por critério e por conversa, quais meninas entram. "É poder retribuir de certa forma tudo aquilo que eu também recebi", diz.
Na infância, Jéssica passou pelas oficinas de artesanato, informática, violão e teatro. Foi no Lar que teve o primeiro contato com um computador e aprendeu a usar ferramentas básicas, e guarda com carinho as apresentações que as meninas faziam nos bairros, em especial o teatro de Natal.

"Essas experiências foram muito importantes para o meu desenvolvimento, pois me ajudaram a melhorar minha comunicação, vencer a timidez e ganhar mais confiança", lembra. Hoje, do outro lado, ela diz enxergar o que não via quando era criança: "Se, naquela época, eu vivenciava as atividades como criança, hoje consigo compreender a importância de cada oportunidade oferecida". E percebe que a casa mantém “os valores e princípios" da sua infância, ao mesmo tempo em que busca se adaptar às mudanças da sociedade e às necessidades atuais das crianças e das famílias.
O caminho de Jéssica não é exceção, e sim o desenho de um ciclo. Entre as colegas da época, ela encontra hoje, nas ruas da cidade, bancárias, jornalistas, radialistas e artesãs, que se lembram da casa, segundo ela, com carinho e respeito, por entender que boa parte do que aprenderam, do caráter ao jeito de estar no mundo, nasceu ali. Se a educação de uma menina transforma a nação, como quer o ditado, talvez seja porque ela começa pequena: numa sala, numa tarefa dividida, numa poesia dita em voz alta, e numa mulher que, adulta, volta para abrir a porta a quem vem depois.
Texto: Maria Eduarda Bastos dos Santos, setor de conteúdo do Departamento Regional de Comunicação.
Foto: Arquivo regional.




