
Todos os anos, no segundo domingo de julho, a Igreja celebra o Domingo do Mar, ocasião em que se volta com especial atenção à vida dos marítimos e de suas famílias, reconhecendo os desafios humanos, trabalhistas, sociais e ambientais que enfrentam. Esta celebração é também uma oportunidade providencial para renovar o nosso compromisso evangelizador junto àqueles que vivem em situação de mobilidade marítima.
Fiel ao seu carisma de estar a serviço dos marítimos, a Congregação dos Missionários de São Carlos – Scalabrinianos expressa concretamente esse compromisso por meio do Centro Stella Maris Scalabrinian Catholic Network, rede de acolhimento e cuidado pastoral aos trabalhadores do mar. Essa missão se realiza por meio da oferta de serviços essenciais, como acompanhamento espiritual, apoio psicológico, assistência jurídica e promoção dos direitos humanos e laborais.
Na Região Nossa Senhora Mãe dos Migrantes (RNSMM), a Congregação mantém cinco Centros Stella Maris: um na Argentina, dois no Brasil, um no Chile e um no Uruguai. Nesses espaços, os Missionários Scalabrinianos tornam visível a maternidade e solicitude da Igreja por aqueles que, longe de suas casas e famílias, enfrentam os riscos e desafios do trabalho no mar.
Por ocasião deste Domingo do Mar, o Prefeito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, Cardeal Michael Czerny, SJ dirigiu uma mensagem aos capelãos, voluntários e comunidades que atuam na pastoral do mar, encorajando-os a serem verdadeiros “profetas da paz”. Ele também exortou as comunidades eclesiais a intensificarem a atenção ao mar como espaço físico e espiritual que interpela à conversão e ao cuidado da criação.
A seguir, a mensagem completa:
Queridos irmãos e queridas irmãs,
Uma vez por ano, as comunidades católicas de todo o mundo recordam as gentes do mar nas suas assembleias litúrgicas dominicais. Com efeito, a segunda semana de julho principia com o Domingo do Mar, dedicado a uma reflexão que leva ao coração a Igreja o trabalho, muitas vezes invisível, de milhares de marítimos, pessoas que passam grande parte da sua vida longe das suas famílias e comunidades, mas que prestam um serviço imenso à economia e ao desenvolvimento das populações. Tal como se encontra expresso de modo memorável na Constituição Gaudium et spes do Concílio Vaticano II, da qual se celebra este ano o 60° aniversário, «As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração» (GS 1). Por esta razão, desejamos que todos quanto trabalham no mar saibam que estão no coração da Igreja: não estão sós nas suas exigências de justiça, de dignidade e de alegria. Um desenvolvimento humano integral inclui efetivamente todos os seres humanos e todas as suas dimensões físicas, espirituais e comunitárias. Onde o Evangelho é proclamado e a presença de Jesus ressuscitado é acolhida, o mundo não pode permanecer igual. Foram estas as palavras daquele que venceu o pecado e a morte: «Eis que eu renovo todas as coisas!» (Ap 21,5).
Caríssimos, neste ano jubilar, a novidade que os cristãos anunciam deve questionar ainda mais radicalmente a ordem existente, porque o Reino de Deus chama-nos à conversão: quebrar as cadeias, perdoar as dívidas, redistribuir os recursos, encontrar-se na paz são gestos humanos corajosos, mas possíveis. Gestos que renovam a esperança. Na verdade, como aprendemos desde o princípio, «quem não ama o seu irmão ao qual vê, como pode amar a Deus que não vê?» (1 Jo 4,20). Toda a Igreja é assim chamada a interrogar-se sobre a forma como atualmente se trabalha nos portos e nos navios, com que direitos e em que condições de segurança, com que assistência material e espiritual. Numa criação ferida e num mundo em que os conflitos e desigualdades aumentam, amar o Deus da vida compromete-nos com a vida. Com efeito, a vida é sempre concreta: a vida de qualquer pessoa, a vida vivida no âmbito de relações que, se não libertam, aprisionam e se não fazem prosperar, humilham. Foquemos, portanto, a nossa atenção naquilo que está por trás da nossa economia, em quem a faz funcionar quotidianamente, muitas vezes sem o mínimo benefício e expondo-se ainda à discriminação e ao perigo.
Queremos reconhecer os trabalhadores marítimos – como nos interpela a todos o lema do Jubileu de 2025 – “peregrinos da esperança”. São-no, de facto, mesmo que inconscientemente, pois encarnam o desejo de todo o ser humano, de qualquer povo ou credo religioso, de viver uma vida digna, através do trabalho, da partilha, dos encontros. Não ficaram parados: tiveram a necessidade e a audácia de partir, como tantos homens e mulheres, de que nos fala a Sagrada Escritura. Gente que viaja, dentro da viagem da vida. “Esperança” é a palavra que deve sempre recordar-nos a meta: nós não somos vagabundos sem destino, mas filhas e filhos, cuja dignidade não pode jamais ser posta em causa por nada nem por ninguém. Somos, portanto, irmãos e irmãs. Vimos da mesma casa e voltamos para a mesma casa: uma Pátria sem limites e sem fronteiras, onde não existem privilégios que dividem e injustiças que ferem. Tendo esta consciência firme e indestrutível, podemos ter esperança. A solidariedade entre nós e entre todos os seres vivos pode, desde já, ser mais forte e mais viva. «Com efeito, a esperança cristã não engana nem desilude, porque está fundada na certeza de que nada e ninguém poderá jamais separar-nos do amor divino» (Spes non confundit 3).
Agradeço aos trabalhadores marítimos cristãos e a todos os seus colegas de outras pertenças religiosas e culturais: sois peregrinos da esperança sempre que trabalhais com atenção e amor, sempre que mantendes vivos os laços com os vossos familiares e as vossas comunidades, sempre que perante as injustiças sociais e ambientais vos organizais para reagir e responder de forma corajosa e construtiva. Pedimos-vos para construírem pontes, mesmo entre países inimigos, sendo profetas da paz. O mar liga todas as terras, convida-as a olharem para o horizonte infinito, a compreenderem que a unidade pode sempre prevalecer sobre o conflito. Peço às comunidades eclesiais, em particular às Dioceses com territórios marítimos, fluviais ou lacustres, para intensificarem a atenção ao Mar como ambiente físico e espiritual que apela à conversão.
Que Maria, Estrela do Mar, oriente e ilumine a nossa esperança.
Texto: Cardeal Michael Czerny, SJ- Prefeito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral.
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