
A Igreja no Brasil celebra a 41ª Semana do Migrante, que neste ano traz como tema “Migração e Moradia”, em sintonia com a Campanha da Fraternidade 2026. Inspirada pelo lema “Eu não tenho onde morar!”, a iniciativa convida comunidades, pastorais e a sociedade a refletirem sobre o direito à moradia como expressão concreta da dignidade humana, da fraternidade e da acolhida cristã.
O direito à moradia é um tema que perpassa as Sagradas Escrituras e se manifesta, ao longo da história, como um grito: “Eu não tenho onde morar!”. Esse clamor chega até nós com a força de uma denúncia profética. É o grito do povo escravizado no Egito, que Deus ouve e vem libertar. É o clamor dos exilados na Babilônia, sem um lugar, sem casa e sem perspectivas de futuro. É o grito de Jesus, que não tinha onde reclinar a cabeça.
Esse mesmo grito ecoa hoje na voz dos migrantes e refugiados que cruzam fronteiras aos milhares e que, ao chegarem a novos territórios, deparam-se com cidades e estruturas que lhes negam um dos direitos mais básicos: o direito de habitar.
Nesta convocação, a partir de uma perspectiva de fé, somos chamados a refletir sobre a construção de uma sociedade mais justa, solidária e comprometida com o cuidado da vida em todas as suas dimensões.
Essa reflexão nos recorda que a fraternidade não conhece fronteiras e que o cuidado com a Casa Comum está profundamente ligado ao cuidado com as pessoas, especialmente aquelas que vivem em situação de maior vulnerabilidade.
As desigualdades sociais, as crises econômicas e os impactos das mudanças climáticas têm levado milhões de pessoas a deixarem suas terras em busca de proteção, trabalho, segurança e uma vida digna.
Diante dessa realidade, somos convidados a fortalecer uma cultura do encontro, do acolhimento e da inclusão, superando preconceitos, construindo pontes de diálogo e promovendo uma convivência verdadeiramente fraterna e respeitosa.
O Serviço Pastoral dos Migrantes (SPM), as diversas entidades atentas ao drama das migrações, a Família Scalabriniana e os institutos que atendem diretamente migrantes e suas famílias são chamados a permanecer vigilantes, colocando-se em uma atitude permanente de escuta solidária.
O Papa Francisco, sempre muito atento ao fenômeno das migrações, nos instiga a ir além de uma pastoral limitada à assistência emergencial. Precisamos ampliar práticas que nos levem a concretizar aquilo que ele tantas vezes nos recordou: acolher, proteger, promover e integrar.
Em outras palavras, aqueles que, em sua condição de migrantes, experimentam o abandono e a exclusão precisam ser vistos e acompanhados não apenas como destinatários da ação pastoral, mas também como protagonistas e agentes de transformação em nossas comunidades.
É evidente que responder ao grito “Eu não tenho onde morar!” exige atitudes concretas e, muitas vezes, desafiadoras. Significa questionar aluguéis abusivos, enfrentar a especulação imobiliária, lidar com tensões nos bairros, apoiar políticas públicas de habitação e conviver com conflitos e resistências. Uma pastoral que acolhe sem tocar nas feridas corre o risco de aliviar consciências sem transformar realidades.
Celebrar a Semana do Migrante de 2026 significa, portanto, acolher um chamado à conversão pessoal, comunitária e social. Não há verdadeira acolhida sem moradia, nem integração sem território.
O Evangelho nos convoca a revisar continuamente nossas práticas pastorais. Somente assim nossas comunidades poderão tornar-se sinais do Reino de Deus, onde ninguém seja tratado como indesejado, ninguém seja empurrado para a invisibilidade e ninguém seja privado do direito de habitar com dignidade.
Que Deus abençoe os migrantes e suas famílias, bem como todos os agentes comprometidos com a causa da mobilidade humana.
Texto: Pe. Antenor João Dalla Vecchia, CS – Diretor do Instituto Cristóvão Colombo.
Foto: Divulgação Serviço Pastoral dos Migrantes (SPM).



