O que é um carisma?

Na vida da Igreja, a palavra carisma não designa um simples talento pessoal, nem uma aptidão adquirida por esforço humano. Trata‑se, antes de tudo, de um dom gratuito do Espírito Santo, concedido para a edificação do Corpo de Cristo e para o serviço do mundo. A Sagrada Escritura e o Magistério da Igreja ajudam a compreender que os carismas não existem para exaltação individual, mas para a comunhão, a missão e a caridade.

São Paulo, ao escrever aos Coríntios, é claro: “A cada um é dada a manifestação do Espírito para o bem comum” (1Cor 12,7). O apóstolo reconhece a diversidade de dons, ministérios e operações, mas insiste na mesma origem e finalidade: o único Espírito que age para a unidade da Igreja. Assim, o carisma nasce da iniciativa de Deus e encontra seu sentido pleno quando colocado a serviço dos outros.

O Concílio Vaticano II retomou essa compreensão bíblica ao afirmar que o Espírito Santo “distribui também graças especiais entre os fiéis de todas as classes”, tornando‑os aptos e prontos para assumir diversas obras e encargos úteis à renovação e à edificação da Igreja (Lumen Gentium, 12). O carisma, portanto, é sempre eclesial: reconhecido, discernido e vivido em comunhão com os pastores, em fidelidade à fé recebida.

Ao longo da história, esses dons do Espírito suscitaram formas concretas de vida cristã (ordens, congregações, institutos, movimentos e novas comunidades) que, em resposta a necessidades específicas de seu tempo, tornaram visível um aspecto particular do Evangelho. Cada carisma é como uma lente através da qual a Igreja contempla e anuncia Cristo em contextos históricos concretos.

Um carisma nascido do olhar compassivo de um Santo

Foi nesse horizonte de fé que surgiu o Carisma Scalabriniano. No final do século XIX, Dom João Batista Scalabrini, Bispo de Piacenza, na Itália, foi profundamente tocado pela realidade dos migrantes italianos que, em condições precárias, partiam da estação ferroviária de Milão rumo às Américas. Não viu apenas um fenômeno social, mas um clamor humano que interpelava a consciência cristã.

Daquele encontro com o sofrimento nasceu um chamado específico: ser sinal do amor providente de Deus junto aos homens e mulheres obrigados a deixar sua terra natal em busca de dignidade. Ao fundar a Congregação dos Missionários de São Carlos, Dom Scalabrini assumiu um carisma profundamente pastoral, que une cuidado espiritual, humano e social, inspirado no próprio Cristo, o Bom Pastor que não abandona suas ovelhas.

Esse dom se enraíza na convicção de que a Igreja deve ser verdadeiramente mãe e mestra, especialmente próxima daqueles que vivem a experiência do deslocamento, da vulnerabilidade e do desenraizamento. Em sintonia com o Evangelho “Eu era estrangeiro e me acolhestes” (Mt 25,35), o carisma scalabriniano tornou‑se uma resposta concreta à presença de Cristo nos migrantes.

Embora pertença à Igreja inteira, esse carisma foi assumido e encarnado de modo particular pela Família Scalabriniana, formada por sacerdotes, religiosas, consagradas, leigos e leigas. Unidos pelo mesmo dom, compartilham a missão de acolher, proteger, promover e integrar migrantes, refugiados e itinerantes, com amor evangélico e competência missionária.

Serviço como identidade: uma missão que se renova no tempo

O Carisma Scalabriniano é, portanto, uma forma concreta de participação na missão da Igreja no mundo contemporâneo. Ele se expressa como um serviço fraterno e profético junto àqueles que sofrem as consequências da migração forçada, do exílio, da solidão e das injustiças estruturais. Mais do que uma ação assistencial, trata‑se de uma presença evangelizadora que busca restaurar a dignidade ferida.

Desde suas origens, a Congregação compreendeu que a fidelidade ao carisma exige atenção constante aos sinais dos tempos. O olhar de Dom Scalabrini, inicialmente voltado para os migrantes italianos, revelou‑se uma intuição profética chamada a se expandir. Hoje, as “estações” não são apenas ferroviárias: são portos, fronteiras, campos de refugiados, periferias urbanas e até ambientes digitais, onde a mobilidade humana continua a clamar por cuidado pastoral.

O carisma permanece o mesmo, mas sua vivência requer discernimento, criatividade missionária e abertura às novas realidades. Inicialmente direcionado aos migrantes italianos nas Américas, ampliou‑se para todos os migrantes italianos no mundo e, posteriormente, para todos os migrantes, independentemente de nacionalidade, cultura ou religião. Essa ampliação manifesta a universalidade da Igreja e a centralidade da pessoa humana.

Esse dinamismo também transformou a própria Congregação, que deixou de ser exclusivamente italiana para se tornar um verdadeiro mosaico de povos e culturas. Tal internacionalidade não é apenas um dado sociológico, mas um testemunho eclesial: o carisma, quando vivido em comunhão, revela a catolicidade da Igreja e antecipa, no tempo, o Reino onde todos os povos se reconhecem irmãos.


Texto: Vitor da Cruz Azevedo, setor de conteúdo do Departamento Regional de Comunicação.

Foto: Arquivo Regional.

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