
Número de solicitações de refúgio cresce de forma acelerada, enquanto organizações alertam para dificuldades de documentação e inserção social
São Paulo voltou a ocupar posição de destaque nas rotas migratórias da América Latina. Desta vez, o crescimento é impulsionado pela chegada de cidadãos cubanos, que encontraram no Brasil uma alternativa diante do agravamento da crise econômica e social na ilha e das mudanças nas rotas tradicionais de migração para a América do Norte.
Dados do relatório Refúgio em Números 2026, elaborado pelo Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra) e pelo Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), mostram que, pela primeira vez, os cubanos lideraram os pedidos de refúgio no Brasil. Em 2025, foram registradas 41.919 solicitações, representando 55,4% de todos os pedidos apresentados no país, um crescimento de 88,1% em relação ao ano anterior. Os cubanos superaram os venezuelanos, que lideravam as estatísticas desde 2018.
Embora a maior parte dos pedidos seja registrada nos estados da região norte, São Paulo permanece como um dos principais destinos dessa população, seja para fixação definitiva ou como etapa de um projeto migratório mais amplo. Segundo a coordenadora de Advocacy da Missão Paz, Letícia Carvalho, esse movimento não começou agora, mas ganhou força nos últimos anos.
"A chegada dos cubanos ao Brasil teve um registro muito forte no início de 2010, durante o programa Mais Médicos. Depois houve uma continuidade desse fluxo, mas, a partir de 2021 e 2022, observamos um crescimento significativo das chegadas", explica. Ela destaca que os pedidos de refúgio praticamente dobraram ano após ano, revelando um crescimento exponencial da migração cubana.
Presença cresce também em São Paulo
Os reflexos desse movimento já podem ser percebidos no mercado de trabalho da capital paulista. Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), citados pela especialista, mostram que o número de trabalhadores cubanos registrados passou de 875 pessoas, em 2019, para 3.366 em 2024, evidenciando o aumento da presença dessa comunidade na cidade.
Para Letícia Carvalho, os registros formais ajudam a dimensionar um fenômeno que vai além das estatísticas migratórias. "Esses dados permitem compreender como a presença da população cubana aumentou também na cidade de São Paulo", afirma.

Crise econômica, dificuldades internas e novos destinos
Os fatores que impulsionam a saída dos cubanos são diversos. Segundo Letícia, os próprios migrantes relatam dificuldades relacionadas ao abastecimento de alimentos, acesso a serviços básicos, deterioração das condições econômicas e limitações às liberdades individuais. A pandemia agravou um cenário que já era delicado.
Ela cita estudos do demógrafo cubano Juan Carlos Albizu-Campos, segundo os quais aproximadamente 1,7 milhão de cubanos deixaram a ilha entre 2021 e 2024, o equivalente a cerca de 15% da população do país, um dos maiores processos emigratórios da história recente de Cuba.
Historicamente, os Estados Unidos figuravam como principal destino dos cubanos. Entretanto, mudanças nas políticas migratórias e o endurecimento das rotas tradicionais alteraram esse cenário. "A Nicarágua passou a restringir a entrada de cubanos, dificultando ainda mais o acesso aos Estados Unidos. Nesse contexto, o Brasil passou a representar uma alternativa viável", explica a coordenadora.

Rotas terrestres expõem migrantes a riscos
Grande parte dos cubanos não chega ao Brasil diretamente por via aérea. Segundo a Coordenadora de Advocacy da Missão Paz, muitos embarcam de Havana para países como Suriname, Guiana ou Guiana Francesa e, a partir desses locais, seguem por via terrestre até cruzar a fronteira brasileira, principalmente pelos estados de Roraima e Amapá.
Esse percurso frequentemente envolve redes de contrabando de migrantes. Os relatos coletados pela obra scalabriniana apontam situações de exploração, extorsões e cobrança de valores que podem variar entre US$ 2 mil e US$ 10 mil pelos chamados atravessadores.
Após ingressarem no Brasil, muitos seguem para estados como São Paulo, Paraná e Santa Catarina, onde buscam oportunidades de trabalho e melhores condições para reconstruir suas vidas.
Documentação ainda representa um dos principais desafios
Apesar de a legislação brasileira garantir direitos aos solicitantes de refúgio, a ausência de documentação completa continua sendo um dos maiores obstáculos para a integração dessa população. Segundo Letícia, muitos cubanos realizam o pedido de refúgio ainda nas cidades de fronteira, mas não recebem imediatamente o Registro Nacional Migratório (RNM), documento essencial para facilitar o acesso a serviços públicos e ao mercado formal de trabalho.

Embora o protocolo de solicitação de refúgio permita o exercício de diversos direitos, o desconhecimento por parte de empregadores e até de órgãos públicos acaba criando barreiras práticas para os migrantes. "A documentação faz parte da porta de entrada para a integração dessas pessoas no Brasil", ressalta.
A coordenadora também destaca que, diferentemente do que ocorreu com outros grupos migratórios, como os venezuelanos, ainda não existe uma política específica de regularização migratória voltada à população cubana.
Integração passa pelo trabalho e pela acolhida
Na Missão Paz, obra da Congregação dos Missionários de São Carlos – Scalabrinianos, localizada em São Paulo, Brasil, os cubanos estão presentes em praticamente todos os serviços oferecidos pela instituição.
Além da orientação documental, recebem atendimento jurídico, aulas de português, acolhimento temporário e apoio para inserção no mercado de trabalho. Segundo Letícia, chama atenção o elevado nível de escolaridade desse grupo. "Muitas dessas pessoas chegam com formação universitária, diplomas e experiência profissional, mas enfrentam dificuldades justamente por causa da documentação", afirma.
Brasil amplia papel nas migrações latino-americanas
O crescimento da migração cubana evidencia uma transformação mais ampla na dinâmica migratória da região. Além de continuar sendo um país de emigração, o Brasil consolida-se como destino e também como território de trânsito para diferentes nacionalidades latino-americanas.
Nesse cenário, organizações da sociedade civil defendem o fortalecimento de políticas públicas capazes de garantir documentação, integração social e proteção de direitos, acompanhando a nova configuração dos fluxos migratórios no continente.
Texto: Vitor da Cruz Azevedo, setor de conteúdo do Departamento Regional de Comunicação.
Foto: AdobeStock, Agencia EFE e Arquivo Regional.




