
Nos últimos anos, Cidade do Leste se consolidou como um dos principais destinos de brasileiros que buscam ingressar no curso de medicina
A morte da estudante brasileira de medicina Julia Vitória Sobierai Cardoso, de 23 anos, encontrada sem vida em seu apartamento em Cidade do Leste, no Paraguai, reacendeu um debate delicado e necessário sobre a realidade vivida por milhares de jovens brasileiros que deixam o país em busca do sonho da formação universitária no exterior.
Julia estudava na Universidad de la Integración de las Américas (Unida) e, segundo as investigações, o principal suspeito do crime é seu ex-namorado. O caso gerou comoção tanto no Brasil quanto no Paraguai e trouxe à tona questões que ultrapassam a dimensão policial: o isolamento emocional, os desafios culturais, a vulnerabilidade social e a necessidade de redes de apoio para estudantes migrantes.
Nos últimos anos, Cidade do Leste se consolidou como um dos principais destinos de brasileiros que buscam ingressar no curso de medicina. Motivados por mensalidades mais acessíveis, menor concorrência e pela possibilidade de realizar o sonho da graduação, milhares de jovens atravessam a fronteira todos os anos para iniciar uma nova vida em território paraguaio. Por trás desse movimento migratório, no entanto, existe uma realidade muitas vezes invisível.
“São estudantes provenientes de vários estados do Brasil, com faixa etária entre 17 e 65 anos, embora predominem os jovens entre 17 e 29 anos”, explica o Missionário Scalabriniano Pe. Camilo Moreira Maforte, que atua no acompanhamento pastoral dos estudantes brasileiros em Cidade do Leste. Segundo o Sacerdote, muitos chegam ao Paraguai carregando não apenas expectativas acadêmicas, mas também fragilidades econômicas e emocionais.
“A maioria possui poucos recursos financeiros. Precisam trabalhar para pagar os estudos, porque as famílias conseguem enviar apenas o mínimo necessário para as despesas fixas”, relata.
Uma migração marcada pela saudade e pela vulnerabilidade
Longe da família, enfrentando uma nova cultura, outro idioma e a pressão acadêmica de um curso exigente, muitos estudantes acabam vivendo um intenso processo de solidão.
“O distanciamento das raízes familiares tende a abrir espaço para a saudade, tristeza e busca de consolo em companhias superficiais ou vícios que prometem preencher o vazio causado pela mudança de ambiente”, afirma Pe. Camilo.
Além do impacto emocional, existem também desafios concretos de adaptação. O idioma aparece como uma das primeiras barreiras enfrentadas pelos brasileiros. Embora o espanhol esteja presente na rotina universitária, o guarani (idioma local amplamente utilizado no Paraguai) muitas vezes dificulta ainda mais a comunicação e a integração dos estudantes recém-chegados. Outro aspecto destacado pelo Missionário Scalabriniano é a dimensão espiritual. “Muitos encontram dificuldade para cultivar a fé, porque grande parte das celebrações acontece em guarani. Isso pode gerar afastamento e sensação de não pertencimento”, explica.
É nesse contexto que a atuação da Congregação dos Missionários de São Carlos – Scalabrinianos se torna ponto de referência para centenas de estudantes migrantes.
Uma paróquia que se torna lar
O acompanhamento aos universitários brasileiros acontece por meio da Paróquia Pessoal dos Migrantes São João Batista Scalabrini, localizada no bairro Pablo Rojas, junto ao Seminário Menor. Ali, mais do que atividades religiosas, os estudantes encontram um espaço de acolhida, convivência e escuta.
“A missão busca criar um ambiente familiar. O atendimento missionário traz segurança e refúgio nos sentimentos, integração cultural, suporte acadêmico e acompanhamento espiritual”, afirma Pe. Camilo, que é o atual Pároco da Paróquia Pessoal.
A estrutura oferecida inclui missas em português, catequese, orientação espiritual, acompanhamento psicológico, retiros, vigílias, cursos básicos de espanhol e até expressões em guarani para auxiliar na adaptação cotidiana. A pastoral também promove ações comunitárias e momentos culturais que ajudam os estudantes a reconstruírem vínculos longe de casa.
Entre as iniciativas estão grupos de oração universitários, retiros espirituais, festas de integração, ações sociais e atividades realizadas em parceria com o Consulado Brasileiro. “A vivência de comunidade é muito importante. Precisamos ampliar ainda mais a divulgação e a acolhida nas diversas faculdades de Cidade do Leste para alcançar mais estudantes migrantes”, ressalta o Missionário Scalabriniano.
Fé, integração e pertencimento
Embora a adaptação inicial nem sempre seja simples, muitos estudantes acabam encontrando, na convivência comunitária, caminhos de integração tanto com a Igreja local quanto com a sociedade paraguaia.
“É bonito ver um animador brasileiro cantando em guarani e, ao mesmo tempo, a comunidade local tentando aprender um canto em português durante a Missa”, relata Pe. Camilo Moreira Maforte. Segundo ele, a experiência comunitária favorece a superação de preconceitos e fortalece o senso de pertencimento entre brasileiros e paraguaios.
“O povo paraguaio é, em geral, muito acolhedor. Mas também existem riscos, falsas acolhidas e situações que podem levar jovens a experiências destrutivas. Por isso, viver em comunidade é essencial”, destaca.
O carisma scalabriniano como presença concreta
Os Missionários Scalabrinianos compreendem a mobilidade humana não apenas como um fenômeno social, mas como um espaço privilegiado da ação pastoral da Igreja. São João Batista Scalabrini, fundador da Congregação e canonizado em 2022 pelo Papa Francisco, dedicou sua vida ao cuidado dos migrantes italianos que deixavam a Europa rumo às Américas no final do século XIX. Sua espiritualidade permanece atual diante dos novos fluxos migratórios contemporâneos.
“Um dos maiores frutos dessa missão é oferecer ao migrante um ponto de referência onde ele possa expressar a fé em seu próprio idioma e sentir-se acolhido”, afirma Pe. Camilo.
Para o Sacerdote, o carisma scalabriniano ajuda a construir integração, estabilidade emocional e esperança em meio às incertezas próprias da experiência migratória. “Na experiência como migrante, a proximidade com a missão traz leveza, confiabilidade e a certeza de que tudo pode melhorar”, conclui.
Em meio às dores e desafios revelados por casos como o de Julia Vitória, a presença dos Missionários de São Carlos em Cidade do Leste revela outra face dessa realidade migratória: a da solidariedade, da escuta e da construção de comunidade para jovens que atravessam fronteiras carregando consigo sonhos, fragilidades e o desejo de um futuro melhor.
Texto: Vitor da Cruz Azevedo, setor de conteúdo do Departamento Regional de Comunicação.
Foto: Arquivo Regional.




